Reinvenção ante o fim do mundo em nós

Uma escapatória encontrada no musical Elza


por Silvia Regina Guimarães


Passei dias até conseguir me sentar aqui e escrever sobre o musical Elza. Fiquei pensando sobre o sentimento de empunhadura da própria existência que a história da vida de Elza Soares traz aos palcos, com tanta inteligência, sensibilidade, provocação e frescor.

Se vidas são exemplos, a existência de Elza serve a mulheres de todos os tipos, biotipos, e homens, todos eles, por suas relações com o feminino; mas fala alto com mulheres negras, quase negras, meio negras, de pele ou cultura, sendo capaz de chamá-las, convocá-las a uma percepção da vida que carregam a partir dos confrontos diários com o espelho.

Nesse espelho, não se trata meramente da questão de olhar-se e reconhecer-se bela, integrada, parte de um todo mestiço, observando as nuances todas da mestiçagem que Pinheiro falou, não, mas também. Se trata, principalmente, de verificar nele que o ser humano vivente na pele da mulher, negra, tem motivos para entusiasmar-se em querer mais.

(E é assim que se sai do teatro ao término do espetáculo.)

Mas deixa eu explicar esse “querer”: não menciono aqui o querer ter, objetos, posses, coisas, isso é ponto que nem se discute, nasceu gente tem que ter acesso às riquezas do mundo, está lá nos Direitos Humanos. Trato de um “querer” individualizado, particularizado, legitimando o indivíduo no senso de espécie, não fora dele. Sabe aquela velha história de ser igual na diferença? Transborde a questão para responder “sim”.

No musical, um dos pontos altos é a ressignificação de que a carne mais barata do mercado foi a carne negra, foi não é, e não precisa continuar sendo, ainda que vivamos esse lugar de comércio, barganha, troca do quase nada pelo tiro, do pouco pela irrelevância, da voz que fala sem ressonância. Nesse momento, a plateia, muito mais branca que negra, fica de pé e aplaude enlouquecidamente por minutos a fio. Traz felicidade o aplauso do discurso que reforça nossas bases mais fundantes, mas também imprime na mente um questionamento: será que eles compreendem o que aplaudem?

Dias depois, digerindo, a emoção de um espetáculo que promove a sua função artística em amplitude, porque canta, dança, encena e estimula reflexões profundas a respeito do ser, do não ser e das questões de uma coletividade, tudo a partir do belo, reconheço que sim. Se assim não fosse, com a sandice dos tempos atuais, já estaríamos vencidos. O pacífico desarmado não pode contra a violência de fuzil. Porque a violência é burra e afoita.

E estamos desarmadas. Fomos ao nascermos mulher. Nossa força não vem de um poderio bélico, vem de uma outra natureza que faz suportar, até não dar mais. Até alquebrarmos e sermos questionadas por nossa incapacidade de seguir caminhando na mesma trilha proposta por uma ditadura reguladora do que cabe e do que não cabe a nós.

Reinventar o caminho imposto é possível. E essa percepção é o que dá sentido aos passos firmes com os quais saímos do espetáculo que nos confere poder e nos salvaguarda o direito de sermos bem aquilo que formos. O que quer que sejamos.

Elza Soares, em sua trajetória foi tantas vezes emocionalmente derrubada que só com muita suportabilidade e capacidade de reinvenção dos próprios caminhos seria possível prosseguir e transformar o fim do mundo. Ou pelo menos o próprio fim, como um recomeço.

Sua história contada como está sendo, legitima histórias de refazimento, muito mais que uma ideia generalista de superação. Essa legitimação nos permite olhar à diante e sentir como se estivéssemos em ação. Nos faz reconhecer que não podemos nos censurar em função dessa potencial reinvenção. A sensação é de que é possível fazer valer nossos quereres, nossas vontades, até nos consentirmos o gosto de nos provarmos sem medo.

Elza nos fala de querer ser, corajosamente, num movimento ousado diante de novas propostas. As nossas próprias. Proposições de estarmos vivas e de assim seguirmos, gestando e parindo novas situações, como boas mulheres que somos. Diante desse raciocínio sobre uma pessoal e irrestrita reinvenção, alcança-se uma tal validação que deveria simplesmente fazer parte de nós diariamente, sem se perder.


Assista: Elza (musical)
Atualmente no Teatro Porto Seguro: Sexta e sábado às 20h | Domingo às 19h
Elenco: Janamô, Julia Tizumba, Késia Estácio, Khrystal, Laís Lacôrte, Verônica Bonfim e a atriz convidada Larissa Luz. *Substituta de Larissa Luz: Ágata Matos. Direção: Duda Maia. Texto: Vinícius Calderoni. Direção Musical: Pedro Luís, Larissa Luz e Antônia Adnet. Arranjos: Letieres Leite. Idealização e direção de Produção: Andréa Alves. Assessoria de imprensa: Pombo Correio.


Silvia Regina Guimarães é doutora em Comunicação e Semiótica e escreve sobre outros caminhos possíveis na sessão Escapatórias em Gostonomia.


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Feriar


por Marta Assunção


Quero ócio,
não o criativo,
mas o ócio social, mental, alternativo.
Pura negação de ofício e de serviço.

Quero tranquilidade,
lugar de bucólica paisagem,
de monotonia em intensidade.
Onde descansar o corpo cansado,
e esvaziar a mente que não para.

Quero sossego,
cair no relaxo,
deitar no aconchego.
Vadiar na minha inércia,
desocupada e abstraída.
Curtir preguiça.

Sem hora, sem pressa,
sem contar o tempo.
Por que ele, o tempo,
não pede ajuda,
não faz pausa,
não repousa.

Só corre e sucede.
Instantes passados, sem retorno, tudo acabado.
Por isso, feriar eu quero.

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Marta Assunção é comunicadora social, habilitada em Publicidade e Propaganda. Como forma de expressão, escreve sobre suas reflexões e descreve suas percepções, sempre com simplicidade e objetividade.


Vulnerabilidades e convivência

Somos vulneráveis.

Sim, somos. E devemos aprender a conviver com isso, pois, tais vulnerabilidades estão em nós e também nos outros. E, a vulnerabilidade alheia nos doi, nos incomoda, pois nos impede de reconhecermos no outro o que acreditávamos que ele fosse. O que nos faz mais vulneráveis.

Essa questão importa porque o medo faz agir, além de fugir. O medo coloca
vidas em risco e, algumas vidas, mais em risco que outras.

Os preconceitos estabelecem relação direta com as vulnerabilidades, fazem
com que nos relacionemos com as pessoas baseando-nos no que acreditamos delas; e
nos impede do contato conosco, em profundidade.

Em busca de um “eu mesmo melhorado”, Gostonomia conversa sobre felicidade sustentável, critica a falta de crítica e percebe que, observações do passado, caem como uma luva no presente.

Com isso, apresentamos novas colaborações à revista, damos continuidade àquilo que nos mantêm a sanidade e pedimos sua participação, não somente lendo, mas também refletindo sobre tudo o que é de gosto e faz nossas vidas ganharem em valor e bem-viver.

Então, participe de Gostonomia e escreva pra gente.

Obrigada por estar aí.

Silvia Regina Guimarães
Editora
gostonomia@gmail.com

 

Tempos interessantes


Ainda que na TV o espetáculo seja o da disseminação das ideias mais estapafúrdias como normais, por gente que pensa, contratada para usar sua capacidade intelectual no contorno da percepção das massas sobre a mais profunda miserabilidade ideológica, aquela que quando não vê saída, tenta o controle reescrevendo a história, tem-se que admitir que  vivemos tempos interessantes.

Ainda que jamais os imaginássemos nessa grotesca ode à estupidez, é possível ver na outra ponta, do lado oposto, uma enorme quantidade de gente pensando e sendo honesta em seus propósitos de fazer o bem, de ser o bem, o melhor que der pra ser; e isso é reconfortante.

Ter gente interessada em crescer, mudar, transformar, progredir, compreendendo que se formos juntos tudo e todos irão melhor, é ter a certeza de que não é o fim.

Certeza? Escrevi e quase apaguei.

Porque parece, mesmo, que não há saída para o disparate destrutivo do progresso, em nome de fazer uma pequena minoria andar sobre escombros com sapatos de seda, esgarçando seu próprio futuro em alguns passos.

Por isso, Gostonomia  observa, na TV, as melhores demonstrações de pensamento crítico e interesse pela evolução; na arte, a qualidade de gente que acredita nessa evolução e se desdobra para dar conta de ser, cada vez melhor; reflete sobre os fatos de uma experiência escolhida para fazer alcançar a construção de momentos de mais sagacidade, deleite e transcendência.

Ter todos temos, ser é outra coisa.

Obrigada por estar aí.

Silvia Regina Guimarães
Editora
gostonomia@gmail.com

 


 

Fevereiro 2020: 10 anos

Gostonomia em fevereiro de 2020 completa 10 anos. E, para comemorar, brindaremos com cafés especiais.

Agora temos um espaço de arte e degustação das melhores seleções em cafés especiais, acompanhados por ótimas receitas caseiras e rústicas de bolos e tortas do Brasil.

Obviamente, abriremos espaço em nossas experimentações para receitas do mundo, afinal o Brasil sempre foi reconhecido por sua capacidade de mistura e tradução da cultura alheia. Nos apropriaremos de sabores e os reivindicaremos como nossos. Há um mundo de explorações sensíveis nessa nossa capacidade de ouvir os próprios gostos. Talvez essa seja uma boa maneira de nos sentirmos pertencentes a todos os lugares, fazendo desse pequeníssimo território de prazeres gustativos, a nossa casa.

É assim que queremos fazer participar dessa nova experiência, revisitando o Brasil e, por que não o mundo, a partir de suas propostas receitadas, ligeirinhas e caseiras. Falaremos mais sobre isso.

Gostonomia Café:
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a sexta das 8h30 às 18h30 e aos sábados das 8h30 às 14h30


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