Para levar um bote da vida: A Fera Na Selva


Paulo Betti e a força de sua presença gentil e humilde endossam A fera na selva como um dos filmes mais sensíveis do ano e nos lembra de, pelo menos, tentar enxergar o que realmente importa


por Silvia Regina Guimarães


Divulgação/ aferanaselva.com.br

Aparentemente a presença de Paulo Betti no início das sessões deve ser descontinuada, mas o fato de ele ter estado ali no dia a dia do filme, desde a estreia, nas salas de cinema, evidencia seu amor pela arte que produz e, certamente, aproxima e prepara, a cada um dos presentes, para uma doce e reflexiva experiência de entrega.

Da obra homônima de Henry James, A fera na selva se eterniza na tela depois de já ter percorrido palcos e nos traz a vida de um casal de amigos à espera de um grande acontecimento. A expectativa dele passa a ser a dela e a narrativa se desenrola na presença do óbvio, na esperança de que haja um feroz ataque da fera metafórica que os permita viver aquilo que, de uma forma ou outra, simplesmente não vivem.

A surda e cega incapacidade de perceber e sentir de João (Paulo Betti) parece algo eficaz na ocupação dos espaços deixados pela voz dos pensamentos da plateia. Mudo e completamente envolvido do princípio ao fim do filme, que conta com a narração plácida e contida de José Mayer, integralmente amarrada com a vida também sem rompantes de Maria (Eliane Giardini), o público evidencia um não sei quê, inquieto e tomado diante de tudo que pode acontecer se as racionalizações sofressem um bote dos sentidos.

Com momentos de bela fotografia e uma câmera que nos posiciona diante da incredulidade de como acessamos pouco das nossas próprias realidades, essas que construímos diariamente, A fera na selva constrói de maneira delicada a observação de como a existência pode ser limitada sem uma deliberada entrega ao devir.

Ao terminar a sessão no Petra Belas Artes, Consolação – São Paulo, foi impossível não notar que a obra de Betti e Giardini desassossega. Os comentários, os pensamentos e principalmente as dúvidas, agora audíveis, acabam por exibir uma movida dessa profunda insensibilidade ao invisível, tão especial no momento presente. As pessoas estão envoltas pela ausência do sim às grandes paixões, essas boas que nos avassalam na juventude, nos consomem na vida adulta e nos erguem dos tombos mais feios. O filme dá o caminho para que se revise isso.

A arte precisa ser assim.

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A Fera na Selva

http://www.aferanaselva.com.br

Direção: Paulo Betti, Eliane Giardini

Produção executiva: Gilberg Antunes

Música composta por: Felipe Lara

Roteiro: Paulo Betti, Eliane Giardini, Rafael Romão, Luiz Arthur Nunes


Silvia Regina Guimarães é doutora em Comunicação e Semiótica e escreve com menos regularidade que gostaria em Gostonomia.

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