escapatórias

Feminismo para uma sociedade igualitária

O feminismo como escapatória para uma sociedade mais justa: um pensamento sobre a importância e o propósito de Christine de Pizan, na pesquisa de Lucimara Leite

por Lucimara Leite


Quando Christine de Pizan (1363-1430), decidiu se engajar na Primeira Querela Feminista, 1399-1402, acredito que ela tivesse claro seu propósito maior: a defesa dos direitos das mulheres. A autora sabia da pouca valia, ou nenhuma,  que havia pela vida das mulheres e o quão penoso era para uma mulher circular pelos espaços públicos atrás de seus direitos sem a tutela masculina. Ela estava viúva há 10 anos, vivera as dificuldades de ser tratada sem dignidade só pelo fato de ter nascido mulher. A sua experiência de viúva, com filhos pequenos para alimentar e uma mãe para cuidar, fez nascer a Christine autora e feminista.
            Em 1399, ela escreveu o livro Epître au dieu d’amour, uma alegoria na qual as mulheres fazem um pedido ao deus do amor: que transmita aos outros deuses o seu sofrimento e coloquem um fim nele.
            A mulher medieval já tinha sua identidade determinada pelo olhar do homem: ela era a figura frágil, inconstante e sedutora, que precisava ter sempre um homem para guiá-la, para ser a “cabeça”. Esse modo de olhar para ela foi transformado a partir do século XII, com o amor cortês e o culto à Virgem Maria. O signo mulher passa, então, a oscilar entre o papel de santa e o de sedutora, que corrompe o homem. Ela é idolatrada, principalmente, na função de mãe, como o demonstra a literatura da época, biografias de várias mulheres com destaque para o seu papel de mãe e esposa.
            Outra contribuição para essa mudança de pensamento em relação à mulher foi o ressurgimento das cidades, pois ali elas tiveram uma presença mais importante e significativa. Chegaram mesmo a dividir com os homens desde as tarefas domésticas até os papéis e ações de trabalho no cotidiano dessas comunidades. Exerceram o ofício de pedreiras, comerciantes, sapateiras etc. e, algumas vezes, mesmo sem a tutela masculina. Essas trabalhadoras, juntamente com as religiosas, foram as primeiras mulheres a ocupar, efetivamente, uma posição mais ativa na sociedade medieval. O convento representava uma alternativa de vida mais autônoma para as mulheres, pois eram elas que os geriam e administravam.
            Foi entre esse público que Christine de Pizan encontrou seu “leitor”. A sociedade do final da Idade Média começava a abrir-se economicamente. Nela, existia espaço para as mulheres, para além do fiar e gerar filhos. A autora teve a perspicácia de atender ao chamado de sua missão: restabelecer a dignidade feminina, principalmente se fazendo ouvir pelos poderosos da época. Ela, certamente, acreditava que, se esses homens apoiassem a sua causa em favor das mulheres, eles serviriam de exemplos para os outros e mesmo os mais humildes se espelhariam neles.
            Portanto, no início do século XV, vemos surgir na literatura, território de domínio quase exclusivo dos homens, uma mulher que irá chamar a atenção tanto para si quanto para suas obras, durante pelo menos seis anos, de 1399 a 1405. Trata-se da mulher-escritora Christine de Pizan.

            Em 1405, ela elabora um livro, La cité des dames, com exemplos de virtudes femininas para assim, desfazer a ignorância da maior parte dos homens, acabar com a opressão sociocultural das mulheres e provar pelo diálogo com as três alegorias (Razão, Retidão e Justiça) que a diferença entre homens e mulheres é de origem social. É nesse diálogo com as três senhoras que Christine construirá sua cidade fortaleza, onde as mulheres poderão encontrar refúgio.
            A ideia de refúgio apresentada pela autora é muito interessante, além de lugar utópico de abrigo, também serve como referência histórica dos benefícios produzidos pelas mulheres. La cité des dames é uma primeira História das Mulheres, nela estão presentes mulheres com existência concreta, mulheres da bíblia, da mitologia e seus feitos exemplares para uma vida prática, uma vida dedicada ao conhecimento e ou à família. 
            Primeiramente, ela fornece os meios para que as mulheres desarmem seus adversários e, assim, triunfem. O texto é todo permeado de argumentos e exemplos que demonstram a vida ativa das mulheres, inclusive das santas, atribuindo-lhes poder de decisão e iniciativa. Seu livro, nesse sentido, serve como um manual a ser seguido pelas mulheres e, se lido pelos homens, proporciona-lhes informações menos preconceituosas em relação ao sexo oposto. Por isso mesmo, sua escolha dos exemplos baseia-se não apenas em fatos fictícios, mas também em fatos reais.
            O segundo ponto abordado por Christine constitui a tentativa de mudar a visão do homem quanto a uma prerrogativa que era considerada exclusiva deles: a de serem depositários da palavra e da escrita.
            No Livro I, capítulo X, para defender o direito de uso da palavra, ela recorre ao exemplo de Madalena, mulher escolhida por Cristo para divulgar, com credibilidade, a notícia de sua ressurreição. Tal colocação contraria a de alguns pregadores, segundo os quais, Cristo teria aparecido primeiro a uma mulher para que sua ressurreição fosse propagada rapidamente. 
            Quanto à escrita, Christine com este livro reivindica sua posição de mulher escritora. Como foi a primeira a afirmar sua identidade na palavra escrita, ela declara que precisou “tornar-se homem” para entrar no campo das letras, domínio quase que exclusivamente masculino, para poder usar as mesmas armas que eles na defesa das mulheres.
            A estrutura da construção da cidade foi invenção de Christine, que, logo de início, se preocupa em construir um lugar onde as mulheres possam estar tranquilas, sem inquietações com o seu cotidiano, sem problemas econômicos e, principalmente, livres dos ataques misóginos. Em seguida, ela se volta para a discussão com as visitantes alegóricas e, por último, introduz os exemplos de mulheres famosas, como prova das qualidades especiais das mulheres e de sua importante contribuição para a humanidade.
            No capítulo I, do Livro I, descreve  um momento de insanidade, em que “culpa” a Deus por tê-la feito nascer num corpo de mulher:

                               … lamentando para Deus, dizendo isso e ainda mais, tristemente afligida,  pois em    minha loucura  me desesperava porque Deus me fez nascer num corpo feminino. (Christine     de Pizan, La cité des dames,  p.38. Tradução nossa.) 

            Christine procura traçar o perfil de uma mulher medieval atuante, ativa, que é companheira do marido, aconselhando-o e trabalhando a seu lado ou mesmo na falta desse, quando era ela que cuidava da administração do reino, ou da fazenda, ou da empresa de manufatura ou do grande ou pequeno comércio, conforme sua posição social.
            É dessa mulher ativa, responsável pela educação dos filhos, conhecedora das leis, das artes, da literatura, dominadora da eloquência e produtora de conhecimento, que a autora nos fala. Seu objetivo era fazer com que os homens saíssem de sua ignorância em relação às mulheres e também que os exemplos e conselhos apresentados em suas obras pudessem servir de espelho para outras mulheres.
            Christine luta contra o sentimento de misoginia existente com o objetivo de restabelecer a moral feminina.

            A angústia gerada pela misoginia ao seu redor fará brotar o desejo  por uma sociedade igualitária. Ela construiu essa sociedade, pelo menos uma cidade, baseada na ética do diálogo. O diálogo, desde Platão é usado como uma forma de filosofar e educar. Esse modo de educação, baseado na discussão, argumentação e conclusão de uma ideia, privilegia a troca de informações e conteúdos entre diferentes para se chegar, ou se aproximar, de um ponto comum _ a tese. É uma conversa entre diferentes opiniões (doxa), na qual o pluralismo e a tolerância são o pano de fundo para o crescimento. O que Christine queria provar com seus mais de cem exemplos na cité era o ganho e o crescimento que a sociedade teria com o diálogo entre os diferentes.
            Por isso, acredito que o feminismo hoje deve ser visto e tido como uma ética (TIBURI) e, através do diálogo darmos voz aos “esquecidos do história”. Assim, estaremos apoiando não metade da população mas todos. Pois, a grande maioria em algum momento da vida teve contato com uma mãe, uma avó ou uma tia, ou seja, todos, mesmo quem cresceu em um abrigo, foi ninado, embalado, aconchegado por uma mulher. Se cuidarmos melhor de nossas mulheres, estaremos a cuidar de toda a humanidade. E o diálogo é o caminho para essa nova ética.
            Assim, estaremos a ser e fazer resistência. O ato ou efeito de resistir, persistir na inclusão e na igualdade de direitos. Seremos a força que se opõe a outra _ através do diálogo e da educação. A força que defende um organismo desgastado pela doença da opressão. Esse era o desejo de Christine que nos resignássemos ao nosso papel de oposição. É dessa oposição que surge a força e a consciência para resistir e fazer a mudança para uma sociedade igualitária e humana.

Referências bibliográficas
LEITE, L. Cristine de Pizan: Uma Resistência na aprendizagem da moral e da resignação. Lisboa: Chiado, 2015.
TIBURI, M. Feminismo dialógico: notas para a fundamentação de um projeto epistemológico e ético-político. In: IREE. CURSO: FEMINISMO PARA UMA OUTRA SOCIEDADE.


Lucimara Leite é professora universitária aposentada, tem graduação em Filosofia e mestrado em Comunicação e Semiótica, pela PUC-SP. Além disso, é doutorada em Literatura Francesa e pós-doutorada em Filologia, pela USP.