Fruitivas

Isolada com café

Nos dias de isolamento bati em retirada com tanta fúria e deleite que nem olhei pra trás. Acabei compreendendo que, na dinâmica da existência, tempo, espaço e importância são noções pessoais e intransferíveis.

por Silvia Regina Guimarães

Café. Somente eu e ele nas manhãs de outono que começaram a se insinuar em abril. Sem açúcar, mas quase doce e quase forte, ele fez notar minha entrega a um mundo que não era o meu, me fez questionar algo sobre a vida que eu levava, que eu percorria, que eu perfazia como se fosse minha. Mas a pergunta parecia enganar-se no caminho até o entendimento.

– Nem perguntas eu sei fazer agora.

Celular. Uma mensagem chega e se exibe como um vislumbre da vida antiga. Alguém daquele universo pergunta como estou de maneira quase meiga, quase preocupada, me fazendo recuar ante ao impulso da resposta óbvia “tudo bem”, seguido de um “e vc?”, num fingimento completo da importância que não existe agora, e sequer sei dizer se um dia existiu. Me observo num cenário obscuro de intenções esvaziadas de sentimento, e já não tenho vontade de me manifestar.

– Ninguém pode saber se recebi ou não a mensagem.

Manifestação. Nas viagens entre os cômodos, possíveis e constantes, no pequeno apartamento, perdido num oceano deles, me lembro da música da Lee que aprendi na voz da Duncan, e sinto um velho impulso ressurgir no diafragma, tentando me conectar com um prazer que me fez pensar ser gente no passado. Como se um móvel pesado arranhasse o chão da garganta, ouço um gemido rouco, pigarreio e reencontro um fio fino, tênue, quase quente, quase luzidio, se emaranhando em mim e me fazendo lembrar de antigos gostos.

– Será que eles eram meus, enfim, e não parte de um amontoado de gostos alheios?

Silêncio. Um questionamento se fez com sentido, esbarrando num entendimento agora não mais intelectual, mas sensível. Essa outra inteligência parece exibir um lugar entre um quase lá, um quase aqui, precisando ser explorado, elaborado, desfragmentado, instituído. Um universo de possibilidades, pequeno e pontual, onde talvez seja possível ser, ambiciosamente.

– Vou passar mais um café.

Silvia Regina Guimarães é doutora em Comunicação e Semiótica e escreve com menos regularidade que gostaria em Gostonomia.

Comente essa e outras na seção Do Leitor