Escapatórias

Quem quer ser humano?

Adriana Pucci, em seu texto de estreia, questiona quem quer ser humano

por Adriana Pucci

Nascemos, crescemos, reproduzimos (?), morremos…
Assim dizem sobre os seres vivos nas ciências e muitas vezes assim acabamos nos vendo. Também não faltaram correntes de pensamento ou religiosas que revestissem o homem com mesclas animalescas e /ou naturais.
Criaram-se então definições ao ser: pecador, animal racional, criação de Deus, (…), que terminaram tendo como eixo fundamental uma visão fixa e totalitária do humano.
Dentro disso, como pode o homem superar a si se toda vontade parece ser divina? Como faz para refletir sobre a condição repetitiva de animal, como faz para avançar se pesadas correntes atam ao passado?
O ser que foi em direção ao perigo, superando terrível medo e aprendeu a conservar e produzir o fogo, deve ter também guardado algo desse fogo dentro de si, porque por mais que tentem moldá-lo, ele tenta saídas, se rebela, se lança além. E por isso, várias vezes, questionou todo espelho que turvasse sua real possibilidade.
Fez isso na arte, na filosofia, na mística, quando ao olhar para o céu e para si, questionou onde estaria a linha divisória. Fez no momento em que conseguiu silenciar, observar, aprender e transformar.

Reserva do Ibitipoca, em Conceição de Ibitipoca, Minas Gerais,
sudoeste do Brasil, obras criadas pela artista americana
Karen Cusolito. Foto: Adriana Pucci


Então a história é cheia de movimentos, de tentativas, de avanços e retrocessos dessa busca do homem de se construir como tal, e de humanizar a si mesmo e sua paisagem.
Mas, podemos questionar: Quando o homem começa a se ver humano? O que o faz pertencente a essa “natureza”?
Por que só ele foi ao fogo? Por que só ele foi capaz de produzir música? Por que só ele faz humor? Por que só ele sabe que vai morrer? Por que só ele questiona? Por que só ele olha a si mesmo?
O conhecimento que antes morria com cada homem, foi sendo plasmado fora. Nas cavernas, o vivido era contado. As conquistas eram ensinadas e a nova geração com isso pôde ir além. A capacidade cerebral foi aumentando e assim também o número de conexões. Os objetos foram sendo construídos e aperfeiçoados. Até nos levar a lua. Ao fundo do mar e, agora, a outros planetas.
Queremos aprender, ensinar, queremos ir além. Temos a capacidade de transformar, desde nosso próprio corpo até a natureza, domesticando animais, plantas, manipulando remédios.
Aprendemos como nossa energia funciona, e como fazer luz, dessa vez, elétrica. Criamos memória externa com livros e com computadores. E agora a robótica pode liberar o homem de inúmeras tarefas mecânicas.
Construímos sistemas de pensamento, ideologias, construímos prédios e pontes, tão imponentes como montanhas, e as cortamos com trens ultrarrápidos.
Mas esse mesmo homem que fez tudo isso, justo por ser algo a mais, ainda hoje, em maioria, ignora o que é.
Ignora sua própria liberdade e aprisiona a si e a outros. Ignora sua capacidade de aprender e se resigna a conceitos pré-formados, ignora sua capacidade de transformar e se ata a deuses externos e vazios, não lembra que seu igual produziu fogo e, clausurado nas telas, experimenta a depressão e o sem sentido.
A maioria das pessoas acham os pássaros bonitos. Mas a beleza deles está no voo, porque cantam, abrem suas asas e, com vigor, atravessam o vento. Estão sendo em plenitude.
E nós?
Às vezes os conceitos e teorias podem confundir, mas algo poderia nos servir como guia, para sabermos se estamos voando ou nos aterrando. Voltando ao fogo, que sempre nos deu calor e luz, nosso coração que também nos dá esse calor pode metaforicamente ser essa luz. Se nos conectamos a ele, sentiremos.
Daí, os sentimentos de sofrimento, quando o coração aperta, ou de a alegria profunda, quando ele expande, pode ser um norte. E, como o pássaro, que vai para onde quer, subindo e descendo, em dança suave, nós, ainda que não pareça, desejaremos a liberdade.
Neste ponto, o que acreditamos ser, nos faz mais livres? Me sinto livre para decidir, para mudar? Para buscar? Para ir?
Por último, o homem sabe que vai morrer. E no que isso influencia em ser humano? Saber-se temporário, sem a certeza da duração desse tempo?
Poder morrer a qualquer momento, traz medo? Raiva? Ressentimento? Buscas? Questionamentos? mudanças?
Não queremos morrer e fazemos um monte de coisas para evitar. Desde hospitais até pilates. Mas alguns, se tornaram curiosos e inquietos foram em direção à morte, tão apavorante como o fogo para o hominídeo, mas a aventura e a maravilha do desconhecido venceram.
Os que provaram o sabor da morte sem reservas, vieram depois com a boa nova de que existe algo mal contado. Que havia muitas ilusões e, mais que isso, mostraram que era possível atravessar o total silêncio, o maior medo.
Isso também está na base do humano, e essa mística foi além, com a possibilidade de ligar espaços, questionar a lógica e o próprio tempo, se encontra com a ciência e se volta para o mais profundo da essência humana.


O homem pode ser ou não ser.
Mas se escolhe ser, será muito. Farol, luz, porto, deusa, vazio.
Hoje talvez, sejamos o único ser nessa terra que se distancia de sua essência.
Mas se decidirmos sermos humanos, certamente o mundo ficará mais luminoso.



Adriana Pucci desde criança vê estrelas e nuvens. Veio das montanhas de Minas a Sampa estudar Desenho Industrial; conheceu o Movimento Humanista e há 25 anos busca praticar o humanismo; atualmente dedica-se aos cuidados de uma pequena, além de ler, pesquisar e atuar, junto ao Parque de Estudos e Reflexão Caucaia, com atividades educacionais, de saúde e geração de renda. Artesã , faz mobiles de papel.



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