Hedonismo

O ar que precisamos para viver

A transformação da angústia dos dias em uma proposta inspirada sobre a respiração consciente

um exercício de respiração em pensamentos

por Adriana Pucci
edição: Silvia Regina Guimarães


Inspira:

– As imagens de Manaus impactam profundamente a todxs que seguem com a mínima sensibilidade. Impossível não pensar no que é ficar sem ar até morrer. A própria pandemia nos colocou esse tema cotidianamente em uma doença que afeta em cheio o trato respiratório. Só de pensar em ficar sem respirar, já angustia, porque é obviamente o que nos mantém vivos. E antes mesmo desse vírus, nossa respiração já se comprometia com tanta fuligem, com tanto poluente, com o próprio medo, que encurta o nosso processo, com o peito travado e os olhos para o asfalto… já estávamos há um tempo sem respirar.

Retém:

– Tempo curto, corre-corre, olha, perigo, afasta, olha o carro, e esse homem olhando – o que ele quer(?), chegou mais conta, mataram mais uma menina no morro, ainda tenho que passar no mercado, tenho que ver o saldo, olha a notícia, mataram mais um…  (ufff!)

Expira:

(E quando já não dava mais: o ar saiu.)

– Muitos dias têm sido assim. Se fosse possível a gente deixaria de respirar por esquecimento, de tanta coisa que tem para lembrar, mas ainda bem que o corpo tem a sua própria memória, e podemos seguir. Aos trancos, seguimos.

Inspira:

– Quem já experimentou uma prática de yoga ou tai chi sente imediatamente o deleite de lembrar o que é encher os pulmões com o ar fresco que entra, percebendo o ar quente que sai.
– Energiza o peito aberto que a coragem vem, e com ela a sensação de ir descomprimindo a cabeça e ficando com pensamentos suaves e leves a cada renovação de ar.

Expira:

– Existe um exercício regenerador do tai chi que é exatamente tirar o ar viciado do pulmão do dia anterior para trazer um frescor renovado. Com a prática, logo entendemos o quanto isso ajuda a fazer outro movimento interno, que é renovar, todo dia, os sentimentos represados, feridos e guardados.

Inspira:

A palavra “inspiração” não nos vem à toa.
Aquilo que nos ocorre internamente quando inspiramos, uma boa quantidade de ar e o que uma pessoa inspirada produz no mundo. Como há beleza nela mesma e em seu fazer, em suas emoções: arte, pensamento, poesia, até a cozinha do dia a dia:
– Esse café saiu gostoso! Esse arroz fofinho!
No dia que não estamos inspirados, até o ovo queima.
O ar é fluxo, convida ao movimento. Assim como o vento que abraça a pele e diz em voz baixa que está tudo bem, para acalmar nosso caos.

Retém:

– Os mestres de várias épocas falam do poder do respirar, alterar o fluxo pode produzir muitos fenômenos. Esse ato essencial é carregado de poder.
– Descobriu-se desde o monte Athos que monges praticavam a oração do coração. Levar o ar ao coração, ou seja, aspirar um tanto de ar e, em sua introjeção, permitir acompanhar uma sensação interna, direcionada ao coração, ajudaria a levar essa oração e pedido a um local pessoal e particular de profundidade e potência.

Expira:

Precisamos de ar, de fluxo, de cuidar. Cuidar do ar, cuidar uns dos outros. Inspiração para buscar soluções nesse aparente labirinto escuro que toda mudança de etapa sintetiza. Tirar o velho que faz machucar e sofrer. Abrir o peito em coragem para não somente enfrentar, mas para sentir e processar as emoções.

Abrir.
Silenciar.
Inspirar e se encher de energia para ajudar a renovAR tudo.

Estar vivo é inspirar e expirar e sentir o pulso que nutre a todos os viventes.


Adriana Pucci desde criança vê estrelas e nuvens. Veio das montanhas de Minas a Sampa estudar Desenho Industrial; conheceu o Movimento Humanista e há 25 anos busca praticar o humanismo; atualmente dedica-se aos cuidados de uma pequena, além de ler, pesquisar e atuar, junto ao Parque de Estudos e Reflexão Caucaia, com atividades educacionais, de saúde e geração de renda. Artesã , faz mobiles de papel.
Do Leitor: Comente