Gostonômicas

Até depois, amiga linda

A voz de Em Busca do Eu Superior deixa saudade ao sair de cena sem aviso prévio

por Silvia Regina Guimarães


“Até depois, amiga linda!” – Era assim que geralmente se despedia de mim. A última vez que nos falamos foi no final do mês de outubro. Ela me ligou para festejar o meu aniversário. Ligou antes de ir para a academia. Ela me disse, com a voz sorridente e bem-disposta de sempre, estar à espera de uma amiga, que em minutos chegou e a fez desligar.

Eu e Daniela tínhamos uma dessas amizades que não se perde com o passar dos anos, mesmo à distância. Ela fazia essas contas melhor do que eu sou capaz, mas trabalhamos juntas por não muito mais de um ano. E nos separamos em convívio por mais de uma década (eu acho que 13 anos), mas nunca nos afastamos da amizade que sempre existiu entre nós.
Éramos dessas amigas sem pudores. Falávamos sobre tudo. Nossa relação era profunda, de longa data e ampla. Nossas conversas, sempre acompanhadas de uma risadaria sem fim. Mas falávamos sério sobre o que era sério, fazíamos críticas políticas, e nos comovíamos com as dores do mundo.

Os dias foram passando após aquele último telefonema e, nos meus pessoais atravessamentos, apenas reconhecia o sumiço, o silêncio, sem me dar conta de que ela já não estava ao alcance de uma videochamada.
Mandei mensagem de Natal e recebi dela uma mensagem sucinta, com alguns errinhos na digitação incomuns. Sei agora que ela já estava internada naquele dia. Como eu gostaria que ela tivesse me contado o que estava havendo. No réveillon, mandei uma dessas figurinhas de feliz ano novo, mas ela não respondeu mais. Insisti em janeiro, ainda por mensagem. Em fevereiro não me lembro.
Hoje resolvi ligar para saber das novidades, colocar enfim a conversa em dia. Mas ela não atendeu. Olhei o Instagram, e ela não publicou nada. Fui até a conta de sua filha mais velha, e me deparei com as postagens de despedida.

Minha companhia no isolamento, pessoa espiritualizada e bem resolvida, esteve comigo por longas horas diante do computador ou do celular, contando tudo, mas partiu sem me fazer saber que estava indo.

Daniela Rizzieri para Gostonomia 2021.

Daniela Rizzieri faleceu em 11 de janeiro de 2022, após descobrir uma metástase inexplicável, súbita e disparatada, como me contou sua primogênita. Ela levava muito à sério o tratamento oncológico, já era uma paciente em remissão, se prevenia e, também, fazia o papel de ativista na prevenção do câncer de mama.

No ano passado, ela foi minha principal incentivadora na formatação dos podcasts em Gostonomia Vox. Após algumas tentativas de fazermos um programa em duas vozes, comecei a querer desenvolver uma produção exclusivamente com ela.

Criei o “Em Busca do Eu Superior” para que ela se expressasse. O texto de argumentação seria dela, e a locução também. O assunto, um dos seus principais: a espiritualidade. Eu trabalharia na edição do texto e do áudio, além de dirigir os episódios. Minha intenção era fazermos uma segunda temporada nesse ano. Com a voz doce e pronta para o rádio, depois de nosso trabalho juntas, ela fazia planos de estudar locução e de repente se fazer ouvir mais.

No último outubro rosa, pedi a ela que me apresentasse um depoimento, queria publicar algo que favorecesse o alerta à prevenção do câncer de mama, e ela é e sempre será um exemplo na superação da doença. Ela me enviou por Whatsapp um depoimento e eu, pela última vez burilei um texto dela. O resultado foi publicado e um pouco da beleza dessa pessoa permanecerá registrada aqui.

Nossa amizade, que nunca foi desse plano, agora segue livre de qualquer impedimento da materialidade.