Hedonismo

Ser fiel a si mesma

Adriana Pucci reflete sobre o caminho da fidelidade à própria essência sem a necessidade da traição à essência alheia

Por Adriana Pucci


Uma vez li que devíamos ser confiáveis a nós mesmos e que isso não necessariamente significaria sermos confiáveis a outras pessoas. Fiquei impactada com a frase.
Na época, a primeira coisa que me ocorreu foi pensar sobre o que significaria ser “confiável a mim”. Já de entrada, me veio algumas cenas de momentos em que me senti mal comigo por ter feito algumas coisas e também por não tê-las feito. Mas, o mais chocante, é que na ocasião, percebi que tinha vivido até ali um tanto de coisas e me dei conta de que nunca havia antes, de tomar uma atitude, parado um segundo para me perguntar: “- quero fazer?” ou “- devo fazer?”, “- o que sinto?” 
Um dos pontos mais fundamentais do humanismo siloísta é a coerência, que por definição contempla pensar, sentir e atuar em uma direção. E isso é bastante coisa!
Significa eu saber o que estou pensando, entrar em contato com minhas emoções e ter a coragem para agir.
Mas para saber o que penso, é preciso silêncio para ouvir.
Para o sentimento é preciso sinceridade.
Para a ação, muitas vezes, é preciso uma força maior que una tudo por um futuro querido, desejado.
Muitas vezes, entre as tendências e compulsões, a correria dos dias e as fugas tornam-se uma grande confusão de vozes e ideias, fazendo parecer muito difícil a empreitada. 
Já ouvi de outros que seria impossível ser coerente, já senti em mim muita dificuldade. Acolher a tudo isso, pensar, sentir e agir, parecia às vezes coisa demais.
Mas nas tentativas, e entre avanços e retrocessos, acertos e erros, em busca permanente de superar esse sofrimento de trair a mim mesma, fui também percebendo que há um passo anterior fundamental para harmonizar essas forças: o centro de gravidade. O centro interno. Amigo íntimo do propósito mais profundo, do sentido da vida. 
Esse centro interno funciona como um artista que equilibra mil bolas, um músico de milhares de notas melódicas, um poeta de palavras que abre mundos.
Ele faz com que possamos ver as coisas com nitidez, entender o que nos aprisiona, o que nos ressente, os medos. O centro também traz um sentimento de paz, que destoa de outros sentires, o que ajuda também a que possamos entender o quanto a raiva, a posse, a tristeza, são sentimentos que valem ser compreendidos e transformados, transferidos e elevados.
Quando penso, sinto e faço em uma mesma direção, sou fiel a mim mesma. Quando isso acontece o sentimento é de integridade. É a qualidade ou estado do que é íntegro ou completo. 
Não é essa completude que buscamos a toda hora? 

Por essa via, da necessidade, pela via do caminho interno, podemos nos dar esse lugar de paz, de força e suave mas, também, duradoura alegria. E esse caminho nos leva mais longe, nos levando ao mesmo tempo para onde mais perto estaremos de nossa essência e da essência dos outros seres.


Adriana Pucci desde criança vê estrelas e nuvens. Veio das montanhas de Minas a Sampa estudar Desenho Industrial; conheceu o Movimento Humanista e há 25 anos busca praticar o humanismo; atualmente dedica-se aos cuidados de uma pequena, além de ler, pesquisar e atuar, junto ao Parque de Estudos e Reflexão Caucaia, com atividades educacionais, de saúde e geração de renda. Artesã , faz mobiles de papel.
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