Indigestas

Nos termos da cosmópole

Eles vivem a cidade - passando os olhos sobre a vida maltratada no centro de São Paulo, um breve exercício de observação e crítica velada

por Silvia Regina Guimarães


Caminhe pelo centro histórico de São Paulo e veja como é ser gente nesta cidade. Encontre, se puder, entre os transeuntes, tão distintos entre si, os traços que os conectam, as atenções às quais se dedicam, suas regras de uso e seus modos de ser na cosmópole.
O cidadão que habita o centro é cosmopolita. Você se sentirá aturdido por suas características mais comuns. Pensará que elas são esquisitices da urbanidade. O sentirá tão liberto de qualquer condição ditada, amarra ou laço, que o reconhecerá como um cidadão do mundo.
Desprendido. Não tem língua definida, tem a língua solta. Seu sotaque não demonstra o lugar de onde veio, conversa em vários idiomas, já fluiu entre as camadas do mundo; ele come do prato que lhe aparece, veste as roupas que lhe caem ao corpo e faz delas a representação de sua personalidade. Aquela que você quer ver.
Da personalidade, se manifesta o volume da voz, a captação do outro reverberada na expressão de seus sentidos, às vezes, muitas delas, demonstrando captar algo alheio ao que está ao redor. Em seu trânsito meio bestial, ele caminha, se põe a ocupar o lugar ao lado do seu, e você o observará em sua direção, numa abordagem sem papas, fluída, indiscreta, como se com você ele convivesse. Íntimo e desenvolto, acessa a todos nós e outros, nos solicita como a criança à mãe.



São Paulo exige do cidadão do centro o traquejo e a malemolência da periferia. Para morar nas ruas daqui é preciso dominar os códigos e sacaneá-los, subvertê-los. O cosmopolita do centro histórico, sem eira nem beira, está à margem do concreto, subsiste da realidade inesperada, essa sem planejamento, sem ética e sem moral. Ele, provavelmente, toma a noção de si a partir de sua mistura com o ambiente.
E São Paulo se curva a isso cotidianamente. Ela se faz memória do seu ir e vir. Se torna o seu barco-casa, banheiro, cozinha, quarto e sala de estar. Um grande loft à deriva do qual o cosmopolita, destacado dos desejos de ter, se apossa à revelia de qualquer status de pertencimento. Nestas ruas, ele simplesmente é.

Saia para flanar no centro de São Paulo e a história de um país vai se revelar facilitada no tempo de qualquer esquina.


Silvia Regina Guimarães gosta de pensar a cidade. Moradora do centro velho de São Paulo, tem observado com estarrecimento o aumento da vida sem teto nas ruas nos últimos anos. Acredita que as pessoas precisam viver melhor e que escrever sobre isso já seja uma expressão dessa realidade. Além disso, é doutora em Comunicação e Semiótica, especialista em Análise Junguiana e editora de Gostonomia. Comente essa e outras na seção Do Leitor