Gostonômicas

AmarElo – É tudo pra ontem: Emicida e as reconexões sensíveis com o passado


por Silvia Regina Guimarães


Após assistir ao documentário AmarElo – É tudo para ontem, disponível em Netflix, a impressão é que tanto foi dito, que não sobra muito a dizer. Nem há vontade. O documentário, a partir dos bastidores do show de lançamento do álbum, ocorrido em novembro de 2019, no Teatro Municipal de São Paulo, contextualiza, evidencia e traz tanta história e informação, que dá vontade de fazer apenas um pedido: se você não assistiu, assista.

Emicida assume a narração em tom professoral e, ainda que a História do Brasil nunca tenha feito você pensar em muita coisa, ainda que você nunca tenha se importado com as lacunas deixadas em aberto por ela, as boas energias e o ótimo nível de informação, produção e pesquisa, trazidos pelo artista e pela equipe da Laboratório Fantasma, ao documentário, são estimulantes demais, para não provocar o seu interesse.

Com o alinhavo dado nas percepções de Emicida a partir do cultivo de uma horta, o documentário traz o entendimento do álbum AmarElo e sobre quem é Emicida, pois fica patente a cada fala, memória e citação, a que o artista está disposto.

A viagem audiovisual ao tempo, tratada com uma direção não-linear, entre fatos e demonstrações da prontidão dos músicos e convidados envolvidos no projeto, e encontrados nesse interessante exercício historiográfico, respeita a linearidade proposta pelo que conhecemos do ciclo da Vida, e emociona ao fundamentar uma ruptura com essa linearidade, ao defender a ideia de que no agora, temos total condição de resolver o que passou.

Essa reconexão com o passado de uma sociedade negra brasileira, demanda sensibilidade inteligível e, no filme, vem proposta pela arte e pelo ativismo, revelando todo um contexto com ares de ineditismo e bendição. Não é simplesmente um exercício sobre como recontar a história com civilidade e inclusão, é sobre a sensibilidade necessária para que a revisão seja feita, é sobre a capacidade sensível conectada ao que verdadeiramente fez a história acontecer, com pluralidade.

Do Samba ao neo-samba, a cultura negra revisitada, por quem vem trabalhando para auxiliar brasileiros a repensar como existir, coexistir e a ocupar espaços de Vida, pela música.