Hedonismo

O belo, o feio e o gosto

Lucimara Leite reflete sobre o gosto que define beleza e feiura em seu texto de estreia em Gostonomia

por Lucimara Leite


Sempre ouvi dizer: questão de gosto não se discute! Mas será?
Uma olhada rápida no Google temos:
gosto
/ô/
substantivo masculino

  1. 1.
    sentido pelo qual se distinguem sabores; paladar.
    “tem g. e o olfato pouco apurados”
  1. 2.
    propriedade que têm certas substâncias de impressionar o paladar.
    “g. ruim”
    e
    Quais os tipos de gosto?

Muito provavelmente, gostamos ou não gostamos de um sabor porque tivemos nossas papilas gustativas treinadas e adaptadas a este elemento. Por exemplo, o café, uma das bebidas mais consumidas no mundo, se você, assim como eu, não teve o hábito de tomar café desde criança, provavelmente estranhará o sabor dessa bebida tão cheirosa.
Esta introdução, é para pensarmos sobre a questão do gosto no paladar e o quanto nossa cultura familiar influencia, lembre se você é descendente de algum povo, o quanto determinados alimentos estão presentes na sua mesa.
E na estética, será que é assim? Primeiro, vamos entender o que é estética do ponto de vista filosófico: é a parte da Filosofia que

se dedica a estudar o que é o belo, na natureza, nas manifestações artísticas e também sobre a questão do feio.
Assim como o nosso paladar é formado o nosso gosto artístico também. Nas sociedades, um elemento artístico é considerado belo pela maioria das pessoas;  já em outra sociedade esse mesmo objeto pode ser considerado feio. Exemplo: a escarificação, técnica que faz marcas na pele com navalha, são parte da cultura de algumas tribos africanas como Bodi, Mursi e Surma, que vivem na Etiópia, em Uganda e no Sudão do Sul. As marcas na testa, por exemplo, fazem parte do processo de transição de menino para homem e algumas cicatrizes representam um sinal de pertencimento a determinadas tribos.

https://www.hypeness.com.br/2014/03/as-impressionantes-marcas-e-cicatrizes-que-tribos-africanas-fazem-na-pele/

No final do século XIV, a rainha Isabel da Baviera, mulher do rei francês Charles VI, estabeleceu a tendência para a testa alta e o pescoço longo e fino. Para seguir os padrões de beleza, as mulheres rasparam os cabelos na testa, na nuca e até removeram as sobrancelhas. As mulheres costumavam raspar a linha do início de crescimento dos cabelos, deixando a testa grande, o que era visto como uma característica de inteligência. A pele branca era considerada mais bonita e, para clareá-la, eram utilizados o óxido de chumbo e mercúrio _ ambos tóxicos. Já para deixá-la rosada, era aplicado cinábrio:

https://www.wefashiontrends.com/7-padroes-de-beleza-do-passado-que-sao-bizarros-hoje-em-dia/

Cada período histórico e cada cultura tem o seu modelo de belo e de feio, mas o que proponho discutir aqui é se o gosto é determinado pelo coletivo ou não.   Para Kant, filósofo alemão do século XVIII, gosto é a faculdade de julgar a beleza. Uma faculdade subjetiva (cada um sente o prazer de modo único), mas o julgamento é, no entanto, de valor universal. Esse julgamento tem um valor universal porque todos nós temos a capacidade de julgar.
A estética kantiana é pensada não como uma dimensão objetiva do mundo e sim como uma dimensão subjetiva. Isto significa que a reflexão sobre a estética está voltada para as condições da receptibilidade do prazer do sujeito, também chamada de estado mental ou de conhecimento geral. Conhecimento geral porque determina as formas de receptibilidade das sensações (espaço e tempo) e se refere somente a um conhecimento particular, relacionado ao modo como o sujeito é afetado subjetivamente.
O prazer, segundo Kant, não tem nada a ver com o que a faculdade de conhecer determina. Este prazer se refere ao sujeito, à sua sensibilidade ou receptibilidade ao experimentá-lo. Por exemplo, ao observar o céu azul, temos a sensação objetiva (vemos algo), dada pela faculdade de conhecer (ciência); temos ao mesmo tempo, um

sentimento de prazer (subjetivo) ao ver a beleza do céu azul (objetivo), contemplando sua harmonia, sua ordem.

Entretanto, a partir do dado empírico, esta sensação é desinteressada do objeto (ou seja, não se refere a ele, mas ao sentimento do sujeito vinculado a essa experiência), numa tentativa de contemplação pura, de prazer puro, podemos dizer que o prazer pessoal e a beleza pura coexistem.
Várias opiniões têm sido expressas sobre se o sabor, o prazer é racional ou sensível, se pode ser aprendido ou é inato, se é individual (subjetivo) ou universal (objetivo). Kant, na Crítica do Juízo, afirma que o sentido do gosto é baseado em um conceito indeterminado.
Após ler e sentir várias ideias, podemos pensar no significado de receptividade _ disposição para receber ou aceitar impressões _ , somos tocados por sensações que nos marcam de modo único. As impressões que as experiências nos provocam são sentimentos subjetivos de prazer, independente do lugar ou da época. Nós apreciamos o belo ou depreciamos o feio a partir de nossos conhecimentos adquiridos culturalmente, mas o sentimento de prazer ou desprazer é individual. Lembremos: “Narciso acha feio o que não é espelho”.


Lucimara Leite é professora universitária aposentada. Graduação em Filosofia, PUC-SP. Mestrado em Comunicação e Semiótica, PUC-SP. Doutorado em Literatura Francesa, USP. Pós-doutoramento em Filologia, USP.