escapatórias

Os meios tons

Adriana Pucci entre as luzes e as sombras das nossas percepções

entre o claro e o escuro


texto e foto
Adriana Pucci


Essa imagem foi tirada em meio a Cordilheira dos Andes. É o chão do Parque de Estudo e Reflexão Punta de Vacas.
Essa linha tão demarcada, não é senão luz . No entanto, aparenta uma realidade inquestionável de luz e sombra.
Assim como nossas luzes e sombras internas, quando estamos em qualquer um desses estados, muitas vezes acreditamos que ela é a realidade mesma. Sem perceber que é um momento passageiro, transitório.
O bom , o ruim, … que realidade em si guardam?
Muitas vezes nosso imaginário está povoado de clichês de felicidade e esquecemos de nos perguntar com profundidade qual foi o momento que nos sentimos vivas. Muitas vezes não foi naquela caminhada na praia, mas em uma escola de periferia onde meu olhar se cruzou com aquele garoto e senti tudo ficar luminoso… ou quando numa agonia de um momento de tristeza, uma paz rodeou todo meu ser.
Se formos investigar momento a momento e irmos um pouco além da primeira camada, vamos ver que muitas vezes uma situação que iniciamos com certa tristeza, logo foi mostrando seus outros tons, e muita aprendizagem e bons sentimentos chegaram a nós.
Voltando à imagem, vemos pedras escuras e claras, sabemos que é uma ilusão proposta pelo forte sol. Eu olhava então o grupo de pedras que estava na sombra tentando aí escapar de enganos e pensei a primeira vista que todas elas eram cinzas, olhando rapidamente. Mas quando me aproximei tive a surpresa de ver que cada uma tinha uma cor. Dadas as diferentes formações e composições da rica Cordilheira, elas tinham não somente formas , mas também cores distintas. 
Achei graça da situação e mais uma vez refleti sobre a realidade…
A diferença entre perceber, olhar, projetar.

Quantas vezes na vida acho que estou atenta, olhando , mas estou em uma visão superficial , tornando cinza, algo multicor. Tornando uma pessoa que tem tantas emoções, contradições, esperanças, sonhos em um par de adjetivos. Olhando uma situação e me limitando a duas alternativas… sendo que depois com mais precisão , existem milhares.
Essa “linha” que está na foto, sem existir, mas que parece tão real, essa sombra que atravesso em minha vida que às vezes parece eterna, mas é somente a falta de luz. É a luz conhecimento, a luz esperança a luz de possibilidade de futuro.
Fiquei com vontade de ver com mais carinho as coisas para conseguir ver.
Olhar à minha volta. Ver que muitas vezes o céu pode ser rosa, azul claro, ou cinza, e tudo isso junto.
Ver que existem milhares de verdes.
Olhar para fora e para dentro.
Como dizia a canção de Mercedes Sosa, “(…) como decifrar signos, sem ser sábio competente(…) voltar a sentir profundo como uma criança frente a Deus.”



Adriana Pucci desde criança vê estrelas e nuvens. Veio das montanhas de Minas a Sampa estudar Desenho Industrial; conheceu o Movimento Humanista e há 25 anos busca praticar o humanismo; atualmente dedica-se aos cuidados de uma pequena, além de ler, pesquisar e atuar, junto ao Parque de Estudos e Reflexão Caucaia, com atividades educacionais, de saúde e geração de renda. Artesã , faz mobiles de papel.

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