Indigestas

Akuanduba

A mitologia por trás do nome de uma das operações da Polícia Federal: um pedido a Akanduba, por Lucimara Leite

por Lu Leite


Todos nós já estamos acostumados com as operações da polícia federal, desde a Lava Jato, essas operações são divulgadas pelas mídias. Para além da sua importância política, econômica e social, uma coisa chama a atenção: os nomes.
A cada operação, as descobertas de somas milionárias, valores astronômicos, impensáveis para um ser assalariado, parece coisa de ficção, seria extraordinário se não fosse verdade. Fortunas desviadas do orçamento público, provocando a morte e a miséria de milhares de pessoas, ampliando ainda mais a já tão enorme desigualdade social.
Mas, uma coisa positiva, além de expor as falcatruas dos poderosos que ainda se julgam viver nos tempos da corte _ a meter a mão no dinheiro alheio _ são os nomes bem criativos.
Um dos últimos, Akuanduba: divindade da mitologia dos índios Araras, que habitam a margem esquerda do rio Iriri, no estado do Pará. Akuanduba tocava sua flauta para trazer ordem ao mundo. Mas, um dia, por causa da desobediência, os seres humanos foram lançados na água e os poucos sobreviventes tiveram que aprender do zero como dar continuidade à vida
(https://my-bestiario.fandom.com/pt-br/wiki/Akuanduba).

Achei bárbara essa mitologia, um ser que toca uma flauta para colocar ordem no mundo! Estabelecer a ordem pelo som. Precisamos de Akuanduba! Ele tem que tocar sua flauta. Ah, e se não adiantar, se os irracionais humanos não quiserem ouvir e obedecer ao fálico instrumento, água neles. Ou melhor, eles para a água! Paralelo com o dilúvio, a água, assim como o fogo, são elementos purificadores em várias mitologias.
  Quem sabe se pedirmos para Akuanduba tocar, os nossos representantes nas esferas executiva, legislativa e judiciário passarão a ouvir a voz de dor do povo. Conseguirão ouvir os apelos dos que sofrem na fila dos hospitais, dos que não têm abrigo, daqueles que sonham com um futuro melhor, com casa, comida no prato, trabalho, com transporte público digno e uma escola que de fato forme nossos filhos com qualidade.
          E assim, temendo a fúria de Akuanduba, aqueles que estão no poder, diferente de serem o poder, poderão enfim fazer coisas boas, para que possamos sentir orgulho de sermos brasileiros, de acreditar e dar crédito, pelo voto, aos nossos dignos representantes que, enfim, saberão o real valor da res publica.


Lucimara Leite é professora universitária aposentada, tem graduação em Filosofia e mestrado em Comunicação e Semiótica, pela PUC-SP. Além disso, é doutorada em Literatura Francesa e pós-doutorada em Filologia, pela USP.