Escapatórias

Acerca do humano

Adriana Pucci nos convida a refletir com um texto de Silo que nos faz ver o ser humano como um fenômeno histórico-social capaz de superar a dor e o sofrimento e de construir a própria realidade

Silo, Obras completas. Volume I – Fala Silo.opinioes
Comentários e participação em atos públicos


texto: Silo
foto: Adriana Pucci


Uma coisa é a compreensão do fenômeno humano em geral e outra, muito diferente, é o próprio registro da humanidade no outro.

Primeira questão: a compreensão do fenômeno humano.

Em geral, quando se diz que o característico do humano é a sociabilidade, a linguagem ou a transmissão de experiências, não se define cabalmente o “ser humano”, já que, no mundo animal (mesmo que desenvolvido de maneira elementar) encontramos todas essas expressões.
Observamos reconhecimentos químicos de organismos da colmeia, do cardume ou da manada, assim como atrações e rejeições consequentes. Existem organizações hospedeiras, parasitárias e simbióticas nas quais reconhecemos formas elementares do que, depois, veremos expresso nos agrupamentos humanos.
Também encontramos uma espécie de “moral” animal e resultados sociais punitivos para os transgressores. Mesmo vistas de fora, essas condutas podem ser interpretadas como instintos de conservação da espécie ou imbricação de reflexos condicionados e incondicionados.
O rudimento técnico também não é alheio ao mundo animal, tampouco são os sentimentos de afeto, ódio, pena e solidariedade entre membros de um grupo, entre grupos ou entre espécies. Então, o que define o humano como tal?
O que o define seria a reflexão do histórico-social como memória pessoal. Todo animal é sempre o primeiro animal, mas cada ser humano é um meio histórico e social e é, além disso, a reflexão e a contribuição à transformação ou à inércia desse meio.
O meio para o animal é o meio natural. O meio para o ser humano é meio histórico e social, é a transformação desse meio e, certamente, é a adaptação do natural às necessidades imediatas e às de longo prazo.
Essa resposta diferida do ser humano frente aos estímulos imediatos, esse sentido e direção de seu atuar com relação a um futuro calculado (ou imaginário) nos apresenta uma característica nova frente ao sistema de ideação, de comportamento e de vida dos expoentes animais.
A ampliação do horizonte temporal da consciência humana permite a ela atrasos frente aos estímulos e a localização destes em um espaço mental complexo, habilitante para a localização de deliberações, comparações e resultados fora do campo perceptual imediato.
Em outras palavras: no ser humano não existe “natureza” humana, a menos que essa “natureza” seja considerada como uma capacidade diferente da animal de mover-se entre tempos fora do horizonte de percepção.

foto: Adriana Pucci


Direi de outro modo: se há algo “natural” no ser humano, não é no sentido mineral, vegetal ou animal, mas no sentido de que o natural nele é a mudança, a história, a transformação.
Tal ideia de mudança não concorda convenientemente com a ideia de “natureza” e, por isso, preferimos não usar esta palavra como vem se fazendo, e com a qual se justificaram numerosas deslealdades com o ser humano. Por exemplo: pelo fato de os nativos de um lugar serem diferentes dos conquistadores de outro lugar, foram chamados de “naturais” ou aborígenes. Como as raças apresentavam algumas diferenças morfológicas ou pigmentárias, foram assimiladas a diferentes naturezas dentro da espécie humana, e assim por diante.
O estabelecido de um modo permanente, raças diferentes, estavam estabelecidas dentro de uma ordem supostamente natural, que devia conservar-se de modo permanente.
Dessa maneira, a ideia de natureza humana serviu a uma ordem de produção natural, mas se fraturou na época de transformação industrial. Ainda hoje, restam vestígios da ideologia zoológica da natureza humana, na psicologia, por exemplo, em que ainda se fala de certas faculdades naturais, como a “vontade” e coisas do tipo.
O direito natural, o estado como parte da natureza humana projetada etc., não contribuiu senão com sua cota de inércia histórica e negação da transformação.
Se a copresença da consciência humana trabalha graças a sua enorme ampliação temporal e se, a intencionalidade daquela, permite projetar um sentido, o característico do ser humano é ser e fazer o sentido do mundo.

“Nomeador de mil nomes, fazedor de sentido, transformador do mundo… teus pais e os pais de teus pais continuam em ti. Não és um bólido que cai, mas uma brilhante seta que voa para os céus. És o sentido do mundo e, quando aclaras teu sentido, iluminas a Terra. Dir-te-ei qual é o sentido de tua vida aqui: HUMANIZAR A TERRA. O que é humanizar a Terra? É superar a dor e o sofrimento, é aprender sem limites, é amar a realidade que constróis …”

Bem, estamos a uma grande distância da ideia de natureza humana. Estamos no oposto. Quero dizer, se o natural havia asfixiado o humano, devido a uma ordem imposta com a ideia do permanente, agora estamos dizendo o contrário: que o natural deve ser humanizado e que essa humanização do mundo faz do homem um criador de sentido, de direção, de transformação.
Se esse sentido é liberador das condições supostamente “naturais” de dor e sofrimento, o verdadeiramente humano é o que vai além do natural: é teu projeto, teu futuro, teu filho, tua brisa, teu amanhecer, tua tempestade, tua ira e tua carícia. É teu temor e teu tremor por teu futuro, por um novo ser humano livre de dor e sofrimento.

Segunda questão: o próprio registro do Humano em outros.

Enquanto eu registrar do outro sua presença “natural”, o outro não passará de uma presença objetal ou particularmente animal. Enquanto eu estiver anestesiado para perceber o horizonte temporal do outro, o outro não terá sentido além de um para-mim.
 A natureza do outro será um para-mim. Mas, ao construir o outro em um para-mim, eu me constituo e me alieno em meu próprio para-si. Quero dizer: “eu sou para-mim” e com isso fecho meu horizonte de transformação. Quem coisifica se coisifica e, com isso, fecha seu horizonte. Enquanto eu não experimentar o outro fora do para-mim, minha atividade vital não humanizará o mundo.
O outro deveria ser para meu registro interno uma cálida sensação de futuro aberto, que nem sequer termina no sem-sentido coisificador da morte. Sentir o humano do outro é sentir a vida do outro em um formoso e multicolorido arco-íris, que mais se afasta quanto mais quero deter, segurar, arrebatar sua expressão.
Tu te afastas e eu me reconforto, se isso contribui para cortar tuas correntes, para superar tua dor e sofrimento. E, se vens comigo, é porque te constituis em um ato livre como ser humano, não simplesmente porque nasceste “humano”.
Eu sinto em ti a liberdade e a possibilidade de constituir-te em ser humano. E meus atos têm em ti meu alvo de liberdade. Então, nem mesmo tua morte detém as ações que colocaste em marcha, porque és essencialmente tempo e liberdade.
Amo, pois, do ser humano sua humanização crescente. E, em momentos de crise, de coisificação, em momentos de desumanização, amo sua possibilidade de reabilitação futura.



A produção de Silo está disponível gratuitamente e, para ser reproduzida, solicita-se a menção a autoria.