Gosto D'Alma

A carência afetiva e o amor autossuficiente

Reflexão sobre a potência do amor-próprio diante das relações românticas saudavelmente estabelecidas, por Silvia Regina Guimarães

por Silvia Regina Guimarães


A natureza feminina é dada ao romance. Faz parte da grandeza do feminino pensá-lo, idealizá-lo, desejá-lo, discuti-lo, amá-lo e odiá-lo. Por vezes, vê-se como obra do feminino o abdicar de tudo em nome de uma nova oportunidade de amar, mesmo
que, em função desse alcance, seja necessário descartar a própria essência.


Não que a natureza masculina não perceba suas necessidades afetivas ou seja incapaz de mover enormes montanhas em nome de uma idealização; mas é mais recorrente e facilitado o debate com o feminino sobre as relações românticas e outros afetos, assim como a percepção da carência afetiva vir a ser tema em diversas sessões de terapia.

Vejo inúmeras representações do feminino que, acima dos 40 anos, experimentam o medo do envelhecer na solidão. Não tenho observado, em geral, homens nessa faixa etária trazendo o tema, propriamente, como preocupação. Já elas, a apresentam quando não consolidaram uma relação romântica satisfatória, mesmo sendo mães ou tendo
alcançado o sucesso em seus estudos e carreiras. Diversas tornam essa cobrança,
também incentivadas por familiares e amigos, ainda mais cruel, quando não conseguem compreender a própria experiência de vida como algo para além de casar, ter filhos e uma profissão de sucesso financeiro.


Me parece fundamental dizer o quão saudável seria, para qualquer representação do feminino, a busca pela terapia a fim de aprimorar o conhecimento adquirido sobre si. É muito natural que, com o passar dos anos e as exigências da vida, simplesmente nos esqueçamos de nós e nos tornemos algo que se impõe, como um papel assumido, nos fazendo crer que somos uma persona, alguém que nos torna funcionais em sociedade e muitas vezes nos distancia de nossos particulares reconhecimentos, nos fazendo desconhecer nossos gostos, limites e permissões.

No processo analítico as revelações, a cada caso, vêm em função da história narrada no momento.
E é essa escuta, favorecida pelo analista, que permite à cliente se ouvir e se reestruturar, encontrando caminhos possíveis para o Si Mesmo, desfazendo complexos, se reeducando sobre pontos de vista ultrapassados, negligentes e dolorosos.


É com essa expressão, conquistada pela conversa e outras possibilidades exploradas nas sessões de terapia, que revemos o passado abrindo espaço para um futuro mais favorável.
Na busca e no encontro de uma personalidade feminina, que ama e recebe amor, talvez seja preciso que se delineie os contornos do amor-próprio. Isso pode ser entendido não simplesmente como mera máxima da autoajuda, mas de maneira profunda, como um reencontro honesto com sentimentos apropriados de respeito e dignidade consigo. Uma construção para quem nunca percorreu tais caminhos, uma rememoração para quem se esqueceu deles.
Decerto, não estou enaltecendo, neste escrito, o assumir de uma postura egoísta. Se observássemos tal noção de si sob a sombra do egoísmo, aí sim, estaríamos falando de frivolidades como a vaidade excessiva e a soberba. Mas as mulheres, principalmente elas, facilmente se colocam em uma postura negligente consigo mesmas. Por motivações diversas, como a própria intenção de se sentirem amadas, por exemplo, muitas vezes tomam atitudes antagônicas ao que seria saudável em suas relações, e deixam de visualizarem-se como o ser primeiro de seus cuidados, atenção e responsabilidade, podendo se tornar permissivas, quanto aos desmandos alheios, ou mesmo auto-indulgentes, com atitudes pessoais que lhes fazem mal.
Ter amor-próprio seria conferir a si autoestima. E, pessoas que conseguem essa autossuficiência no amor a si mesmas, compreendendo em profundidade a intencionalidade desse amor, são mais capazes de amar o outro e aceitar desse outro o amor, na forma como o outro conseguir amar. (Lembrando que amor é amor, não é destrato em nenhuma conjuntura.)
Quando nos amamos de maneira autossuficiente transformamos o nosso entorno e comunicamos, a partir de nossa auto-estima, desse amor-próprio, o que para nós significa amor e qual o comportamento esperado nas relações por nós desenvolvidas.
Esse aprendizado, que muitas vezes não alcançamos simplesmente vivendo a vida, pode ser apreendido quando paramos tudo para, detidamente, observar a maneira como estamos vivendo.
Tornar essa escuta de si possível seria, então, um primeiro passo para esse amor autossuficiente.

Silvia Regina Guimarães é especialista em Psicologia Analítica (IJEP-SP), além de Doutora e Mestra em Comunicação e Semiótica (PUC-SP). A partir de sua função como Analista Junguiana, nesta coluna, traz como proposta a reflexão sobre as dinâmicas da vida e a busca pelo autoconhecimento.

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