Entrevista: Lucia Akemi

Entrevista e Fotos: Silvia Regina
Ela tem 28 anos de vida e 19 de karate, sendo 4º dan no estilo. Costumeiramente, é risonha, delicada e amistosa. Mas, lutando, demonstra-se uma guerreira irascível. Praticante de Karate estilo Goju-ryu é a única herdeira da forma Katathinba desenvolvida pelo Shihan Douglas Diana, aplicada em formas curtas e longas, onde o princípio assemelha-se à armada do ataque de um felino, passando para a forma “quebrada”. Para levar a técnica adiante, atualmente, Lucia está na fase de conclusão do livro inacabado de seu mestre. Trabalha com a inserção de algumas anotações deixadas por ele, preparando o que será o legado desta forma de karate. Envolvida com energias brandas e revoltosas ela assume ser e fazer parte de um pouco de tudo que a faz sentir bem e revela-se muito além de qualquer dicotomia.
Gostonomia. O que veio antes, o karate ou as artes manuais? Lucia Akemi. O karate veio primeiro para mim. Inicie aos 9 anos. Já o artesanato, sei que veio depois, mas nem me lembro. Eu costumava espiar a minha avó trabalhando e perguntava como fazer. Assim comecei.
Por que Karate e não ballet, por exemplo? Meus primos haviam iniciado, depois meus pais colocaram meu irmão e eu. Quando vi, eles abandonaram e eu fiquei. Não é uma tradição de família, foi um interesse que eu mantive por acaso, fui pegando gosto e não larguei mais. Não sei se poderia ter acontecido com qualquer outra coisa…
Então, o que é o Karate-do? O Karate é uma arte marcial, cuja tradução de seu nome significa “mãos vazias” recurso no vazio; e do significa caminho. É uma atividade física, uma arte, onde não há distinção de idade, sexo, é uma arte completa, pois trabalha o corpo e a mente.
E o artesanato, o que ele traz para você? É uma outra arte, que resulta na junção de prazer e trabalho. Eu gosto muito do trabalho criativo, do desenvolvimento de peças novas.
Em qual dessas duas atividades você se sente mais presente? Não tenho como me ver mais presente em uma atividade que em outra. As duas recebem muito do que eu sou, acho que funciona como uma troca, pois elas não se fazem sozinhas: eu preciso delas e elas de mim.
Como você combina essas duas proposições de disciplina que parecem tão divergentes, uma exigindo a sua fúria e a outra a sua serenidade? Ao contrário do que parece, não são tão divergentes assim, ambas necessitam da minha dedicação, atenção, concentração… Talvez a maior diferença seja que o karate exija mais vontade e garra.
A prática do karate é uma coisa gostosa ou é algo que você impõe como necessidade em sua vida? É mais gosto que necessidade. Contudo, quando fico um tempo sem treinar acabo sentido falta, o meu corpo pede, precisa. No final, acho que acaba sendo mesmo algo que faz parte da minha vida.
Lucia em seu atelier em São Paulo.
O artesanato tem algo notoriamente feminino, mas e o karate? Que peso ser mulher tem na sua vida como karateca? Como karateca, nunca tive nenhum problema, mas como sensei não posso dizer o mesmo, porque para certas pessoas não adianta eu dizer que eu tenho conhecimento, que eu sei ensinar, que eu tenho técnica … Quando se imagina um sensei, se pensa num homem de mais idade ou um mestre velhinho, e se for japonês melhor ainda. [risos].
Existe uma discriminação por parte dos homens karatecas em torno das mulheres que praticam a luta? Não, dentro de um Dojo (local de treinamento) isto não existe, pois somos “iguais”; é obvio que não temos a mesma força física nem estrutura, mas também não somos de porcelana, não quebramos fácil. Existem karatecas e senseis muito boas.
Que benefícios o karate traz ao praticante? Quando criança ajuda no desenvolvimento físico, motor, mental, na disciplina; para os jovens e adultos, acrescenta-se o autoconhecimento, a percepção, o foco que acabamos trazendo para nossa vida e mais para frente temos como objetivo o alcance da energia macro cósmica. Pois, com certa idade, não temos mais a mesma força muscular, o que nos sobra, de verdade, é o conhecimento, a experiência e esta energia. Mas, para isso é necessário muito treino. Saber trabalhar a respiração e principalmente a pureza de espírito que, não é algo tão simples de se conseguir. É o que os grandes mestres almejam.
Essa energia forte é do indivíduo ou vem trazida pela luta? Meu mestre dizia: “Atrás de uma pele de cordeiro, tem sempre um leão escondido!”. Acredito que todos nós temos essa energia, basta deixar fluir, e o karate é um caminho para isso.
Existe uma filosofia por traz desta luta, algo que seja pregado como conduta para os seus praticantes? Respeitar o próximo, nunca dar o primeiro golpe. O karate é defesa, pode ser “quebrando”, mais é uma defesa, não ataque. Você só usa a luta na vida cotidiana se for extremamente necessário, sempre com discernimento. Não se deve sair por aí resolvendo suas questões no punho, afinal, depois que descobriram a pólvora não há mais a necessidade de ficar treinando karate para bater nos outros, treinamos karate para nós mesmos, e quem detém a técnica, acaba carregando consigo uma arma branca, dependendo da forma que é utilizada pode ser letal.
O artesanato de Lucia: enfeite de bolo feito a partir de fotografias.
O que você como Sensei (professora) tenta transmitir aos seus alunos? A técnica, a essência do karate, o caminho, o respeito, a disciplina… construir karatecas de valor.
Você consegue viver o que você tenta transmitir a eles? Sim, da mesma forma que oriento, também trago para minha vida; não conseguiria ensinar algo que não acredito, procuro ensinar tudo o que me foi passado.
Você diria que o karate traz firmeza física e psicológica? Sim. A pessoa deixa de se fragilizar tanto diante dos acontecimentos da vida. A gente passa a crer nas coisas de maneira mais desapegada, menos desesperada. O karate traz sim mais firmeza para o praticante.
O domínio da própria força aliada ao autocontrole cerceia ou traz mais liberdade? Ah, mais liberdade. Com a prática do karate, adquirimos também consciência, discernimento, tranqüilidade, responsabilidade; e é uma liberdade de escolha, pois quando você sabe o que tem na mão, do que é capaz, dificilmente usa por qualquer besteira.
Diante de tanta disciplina, o que te faria entrar numa briga? Eu nunca entraria numa briga, eu me defenderia. É diferente; jamais sairia batendo em alguém. Essa defesa viria se eu percebesse minha vida em risco, de algum amigo ou familiar meu. É como eu falo para os meus alunos: se vir um tumulto, evitem, saiam fora. Por que e pra quê, dispor da própria vida por besteira? Devemos evitar riscos desnecessários. É mais inteligente.
Para a sua vida é mais usada a delicadeza das artes ou a força do karate? Existem momentos em que se faz mais uso da força, da garra, outros mais da delicadeza, da inteligência, o que traz uma sutileza para as atitudes. Na verdade, tudo isso faz parte de mim, o interessante é usar a capacidade de ser o que é preciso no momento que é preciso. ▒

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