Hedonismo

Outro ponto de vista

Em reflexão sobre os efeitos e a influência da paisagem externa, Adriana Pucci reflete sobre a escuta do outro e daquele que habita em nós, construindo a realidade da paisagem que habitamos

por Adriana Pucci


Inspirado no Texto do Livro Humanizar a Terra , de Silo – Capítulo A Paisagem Externa


A paisagem externa
(da obra de Silo)

Olha como lentamente caminha esse casal. Enquanto ele enlaça a cintura dela, ela reclina suavemente a cabeça sobre o ombro amigável. E avançam no Outono das folhas que revolteiam crepitantes… na expiração do amarelo, do vermelho e do violeta. Jovens e formosos avançam, porém, para a tarde da névoa cinzenta. Um chuvisco frio e os jogos das crianças, sem crianças, em jardins desertos.

1. Para alguns, isto reaviva suaves e talvez amáveis nostalgias. Para outros liberta sonhos; para alguns mais, promessas que serão cumpridas nos dias radiantes que virão. Assim, perante um mesmo mar, este angustia-se e aquele, reconfortado, expande-se. E mil mais, intimidados, contemplam os penhascos gelados; enquanto outros tantos admiram esses cristais talhados em gigantesca escala. Uns deprimidos, outros exaltados, perante a mesma paisagem.
2. Se a mesma paisagem é diferente para duas pessoas, onde está a diferença?
3. Há de acontecer o mesmo com aquilo que se vê e aquilo que se escuta. Toma como exemplo a palavra “futuro”. Este crispa-se, aquele permanece indiferente e um terceiro sacrificaria o seu “hoje” por ela.
4. Toma como exemplo a música. Toma como exemplo as palavras com significado social ou religioso.
5. Às vezes acontece que uma paisagem é reprovada ou aceita pelas multidões e pelos povos. Porém, essa reprovação ou aceitação, está na paisagem ou no seio das multidões e dos povos?
6. Entre a suspeita e a esperança, a tua vida orienta-se para paisagens que coincidem com algo que há em ti.
7. Todo este mundo que não escolheste, mas que te foi dado para que humanizes, é a paisagem que mais cresce quando cresce a vida. Portanto, que o teu coração nunca diga: “Nem o Outono, nem o mar, nem os montes gelados têm a ver comigo”, e sim que afirme: “Quero a realidade que construo!”

É quase senso comum dizer que se respeita a opinião do outro. Ou que é necessário ouvir, que o mundo é múltiplo, diverso. Mas, quando no nosso dia a dia nos deparamos com uma situação no trabalho, entre amigos ou casal, onde o outro tem uma opinião diferente da nossa, sinceramente, qual é a atitude que tomamos?
Partimos para o ataque? Para anular aquela ideia contrária? Nos inflamamos e, mesmo dialogando, sentimos irritação? Ouvimos buscando nossa vez de falar para contrapor tudo?
Particularmente: Eu escuto? Tento compreender o ponto de vista do outro?
Aliás, o que é esse ponto de vista?
Olhar para fora, a partir da janela de um avião é bem diferente de buscar ver esse exterior do centro de uma cidade. Assim como, tentar observar o mundo do alto de uma montanha ou de dentro de uma gruta.
Nesses casos estou alterando o ponto de vista, mudando as distâncias, para trazer a ideia da perspectiva. Mas outros fatores poderiam modificar as sensações e, dessa forma, a percepção e a experiência.
Por exemplo, num mesmo avião, duas pessoas sentadas lado a lado podem ter experiências completamente diferentes no mesmo voo. Se uma está confortável, desfrutando, aquelas nuvens que passam pela janela parecerão reconfortantes, lúdicas, e poderão inspirar sonhos e sentimentos elevados; mas, se a pessoa tem medo de voar, as “mesmas” nuvens podem trazer imagens de morte, e essa tensão, possivelmente, depois poderia ser relatada como a experiência de um voo horrível. E a pessoa diria: “- A comida estava fria! Demorou muito e estou com dor de cabeça(…)” -, enquanto a pessoa que desfrutou o caminho aéreo, talvez dissesse: “- Nossa, durante o voo tive uma ideia para um novo projeto!”
Como não aprendemos a ver o mundo com os olhos de “dentro”, os “de fora” nos fazem crer em um mundo que parece uma sólida realidade objetiva, onde tudo, inclusive, está dado e de maneira quase imutável. Assim, o que eu opino sobre o mundo e suas coisas parece ser o próprio mundo.
No entanto, se buscarmos um pouco, navegarmos na nossa web interna, na paisagem interna, como disse Silo, por exemplo, vamos ver que desde que nascemos, uma montanha de símbolos, alegorias, emoções, crenças, valores e as mesmas experiências foram forjando “filtros” que mudam e, às vezes mais que isso, constroem o real.
Então, se uma pessoa teve uma formação religiosa que disse determinada coisa sobre o sexo, por exemplo, fazendo dele ato de mera procriação ou, de repente, sujeira e pecado, diante de uma cena de sexo no cinema a pessoa se constrange e desconfia.  E assim está dado o problema: o corpo emanando sinais próprios biológicos em hormônios, o meio social repleto de imagens nos anúncios, estimulantes e a cabeça dizendo que isso é errado e não se pode.
Se por outro lado, uma pessoa foi formada em um ambiente que diz que o sexo é parte da vida, que deve ser tratado com delicadeza, que observe seu corpo, que respeite seus tempos, qual será sua experiência?
Se essas duas pessoas se encontrassem para discutir sobre o sexo antes do casamento, como seria esse diálogo?
Quem estaria certo? Quem estaria errado?
Irão aproveitar o momento para entender um ao outro?
Alguém poderia ver que há outra forma de viver?
A verdade é que o embate racional é também extremamente limitado se for comparado a tudo que cada um de nós tem acumulado em horas e horas de experiências e crenças.
Entendo que se uma pessoa deseja ser mais livre e respeitar os outros, poderia começar compreendendo que seu próprio ponto de vista representa um filtro sobre seu mundo interno e que, para estar lúcida, ciente disso, é essencial autoconhecimento. 
Para realmente conseguirmos fazer esse movimento tão importante e complexo, de nos colocar no lugar do outro, é preciso que haja algo muito importante e anterior, a busca pela real humildade. Essa humildade que nos desloca do centro do mundo e compreende que há muitas formas possíveis, todas intimamente relacionadas a um senso de amor-próprio.
Vejo que só quando estamos nos respeitando e dialogando conosco e, assim estabelecemos uma conexão forte com nosso interior, é que conseguimos liberar essa frenética busca pela aceitação, que vira e mexe nos coloca de cara com a intolerância, como uma de suas expressões.
Intolerância, sim. Porque se o outro não for igual a mim, ou pior, questionar algo de minha característica, e eu mesma não estiver segura disso, meu impulso é “matar” o outro. Aniquilar aquilo que pode colocar meu eu em cheque.
Ao contrário, quando me aceito e, mais que isso, busco evolução permanente, vou gostar de contatar outras formas de ser e estar, porque saberei que isso é fonte de aprendizado. 
“Sair” do meu ponto de vista é sair, portanto, da mecânica ação e reação animal, do simples ataque e defesa, para rumar ao humano verdadeiramente humano, ou seja, múltiplo, consciente e intencional.


Adriana Pucci desde criança vê estrelas e nuvens. Veio das montanhas de Minas a Sampa estudar Desenho Industrial; conheceu o Movimento Humanista e há 25 anos busca praticar o humanismo; atualmente dedica-se aos cuidados de uma pequena, além de ler, pesquisar e atuar, junto ao Parque de Estudos e Reflexão Caucaia, com atividades educacionais, de saúde e geração de renda. Artesã , faz mobiles de papel.
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