escapatórias

Entre pântanos e montanhas em nós

Adriana Pucci reflete sobre os poderes inatos do heroi em nós

Por Adriana Pucci


Todo mundo já viu a cena do filme onde o personagem aventureiro, em meio a floresta densa, vai tentar atravessar um lago e é surpreendido por, ao invés da fluida água, estar envolto a areia movediça. Ali, quanto mais ele se debate, mais afunda, e mais energia perde. Até que exausto, vai em descendente paralisia e em um impulso de rebeldia com o destino, agarra-se a um cipó, e consegue safar-se em um ato.
Por várias vezes escutei que a tristeza tem muito desse pântano. Ela vem sorrateira e quando menos esperamos, já estamos rodeados dela, agarrados, pegajosamente enlaçados. Ela se justifica em si, porque sempre tem seus motivos para estar.
E, se começamos de lá tentar sair, a sensação é que obtemos cada vez mais imagens associativas que reforçam esse estado. O futuro parece mais sombrio, o desejo de permanecer invade e as carências, de todo tipo, se mostram. E vamos do “ninguém me ama”, até o “eu não sou importante para ninguém”.
Nessa realidade organizadamente programada, ignoro seus primeiros acordes e vou me embrenhando e acreditando que nada se pode fazer.
Nesse lugar me vi nessa ultima semana. E o que foi diferente foi ter visto toda a cena, mas um lampejo me salvou do fim inerte. Pude ver o cipó.
Percebi que para agarrá-lo, eu teria que inicialmente me rebelar com aquilo tudo, saber dentro de mim que havia sim uma saída e mais, que só dependia de mim.
Quando estamos nos sentindo abandonados, muitas vezes esbravejamos quando alguém diz que só depende de nós, porque justamente aparenta uma falta de acolhimento, do frio ao qual nos sentimos destinados. No entanto, em nossa jornada do herói, é nesse momento que podemos recorrer “eu interior”, de quem nos afastamos tantas vezes, mas que sempre está disposto e em prontidão quando pedimos.
E ela guarda muitas surpresas, poderes, e uma enorme energia. Ele tem o impulso em si, para agarrar o cipó. E mais que isso, para depois do descanso, compreender por que caímos no pântano. Mais à frente, talvez, nos ajudar a responder porque esse mesmo pântano existe, e quem sabe fazer ver quem o desenhou.

De qualquer forma,  interessa ver o que alimenta essas tristezas e suas características. É possível dar nome a ela, Madalena, Emerenciana… ou um nome de uma tristeza agressiva… Meduza, talvez.
A tristeza, pode ser em alguns momentos só uma brisa fria que ajuda a ter recolhimento para buscar o contato íntimo. Ou, um luto de qualquer morte que sempre está em atos de vida. Nesse sentido ela funciona como ponte, não pântano.
Nesse difícil momento que estamos, compreender um pouco nossos sentimentos é essencial. Fazer um trabalho pessoal, conhecer a nós mesmos e compreender essa paisagem que está em nós, é essencial para uma vida plena, vivida com sabor.
Não as sobrevidas, ou a sobrevivência animal, mas a existência humana, que em cada etapa faz aprender e traz junto a essas tormentas toda a paz que energiza e acalma até a próxima aventura.
Essa vida inteira, pode ser construída todos os dias. E a cada pedacinho de nós e dos seres à nossa volta que conseguimos desvendar, mais portas e janelas se abrem.
Não temos limites, mas só sabemos disso. Quando tocamos o topo, logo em seguida rompemos a casca. E vemos que há mais.
O contraponto da tristeza é a sublime alegria. E ela pode ser encontrada todas as vezes que optarmos por agarrar o cipó, que fizermos o enorme esforço por não sucumbir a nossas compulsões. Até mesmo a compulsão de ressentir, de nos prender, de nos magoar.
Abrir o futuro com ajuda de amigos, de guias inspiradores, de palavras, de livros que guiam. Abrir espaço para que o sol e a brisa convidem para a dança mais bonita.
Um pássaro, uma flor, uma voz, muito pode ser nossa saída. Assim como seguir um pulso que vibra desde o umbigo e ecoa no coração. Que vibra suave no centro da cabeça, e que nos lembra que se vamos ao fluxo, haverá acompanhamento, energia, paz.
Nesses centros onde encontramos nós mesmos, nesses centros de amor e força, não se necessita nem de cipó.  Quando nele o próprio pântano se transmuta e uma água cristalina envolve todos os poros.

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Adriana Pucci desde criança vê estrelas e nuvens. Veio das montanhas de Minas a Sampa estudar Desenho Industrial; conheceu o Movimento Humanista e há 25 anos busca praticar o humanismo; atualmente dedica-se aos cuidados de uma pequena, além de ler, pesquisar e atuar, junto ao Parque de Estudos e Reflexão Caucaia, com atividades educacionais, de saúde e geração de renda. Artesã , faz mobiles de papel.
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