Hedonismo

Porque é importante ouvir falar

A importância dos discursos anti-racistas em uma reflexão sobre um estado de coisas exibidas

por Silvia Regina Guimarães


Por mais que se possa fazer a crítica sobre as motivações por trás da atual  “tomada de consciência” da grande imprensa acerca das discrepâncias sociais, encabeçadas principalmente pelo racismo, já que por ele se faz ver também os preconceitos de gênero e de classe, parece ser inédito e importante o esforço de construir uma nova percepção da importância do tema.

Se na década de 1990 passamos a sentir a ausência e a perceber como necessário o consumo da imagem de biotipos apagados da grande cena mercadológica das comunicações, e aí incluímos todos os não brancos, e com isso fomos vendo, ainda que lentamente, o aproveitamento da ideia acontecer nas telas, talvez em maior medida pela Publicidade; somente neste período observamos uma tentativa mais contundente da Comunicação Social de assumir e ampliar uma naturalização de que um problema existe e precisa ser resolvido.

As marchas a partir do assassinato de George Floyd, em 25 de maio de 2020 (EUA), trouxeram à imprensa um fôlego novo na cobertura daquilo que sempre ocorreu lá e aqui, rotineiramente. Como um rastilho de pólvora aceso e corrediço mundo adentro, a necessidade de expor os problemas trazidos pelo racismo fez pipocar produções documentárias e artísticas, reativar trabalhos e autores que conseguiram tratar o problema antes, inflamaram falas e posturas midiáticas, fazendo diversos veículos se posicionarem em favor da vida ou pelo menos em torno de algo que possa fazer viver um pouco melhor.

E por que isso é interessante? Porque aparentemente, quanto mais produções comunicacionais forem feitas sobre o tema, maior será a conscientização sobre o problema, maior será a capacidade de reconhecimento, em autoanalise, de como estão aqueles nossos particulares critérios de classificação, inerentes a todo ser humano.

Como a sensibilização e o desenvolvimento de um gosto por um estilo musical, por nós desconhecido, a sensibilização, a empatia e a compaixão sobre um problema que é aparentemente do outro, também podem ser ocasionadas pela escuta.

A fala na mídia que expõe as racializações e busca sintetizar uma crítica propositiva, que faça ouvir sonoridades, normalmente ignoradas, auxilia no reconhecimento dos dramas vivenciados por aqueles racializados. Tais falas convocam a percepção de que não é o oprimido que deve resolver o motivo da sua opressão, pois à vítima não se infere a culpa. Nem tampouco se pode falar em vitimização quando ela reivindicar o que lhe é direito.

A racialização ou etinização, como proposto pela Sociologia, fala dos relacionamentos sociais aos quais se imputa definições raciais com base em representações, fazendo uso de um ponto de vista mais comunicacional. Essas representações são os preconceitos com base na etinia, ou seja criações provenientes, talvez, daquela antiquada percepção de medo do exógeno, de que o estranho ou o estrangeiro é ameaçador e, nessa mesura, baseada em estereotipias, se confere ao indivíduo, racializado ou etinicizado, qualificações que tentam enquadrá-lo em critérios de desqualificação, culpabilização, extermínio etc.

Podemos notar também que o racismo vem sendo vivenciado ao longo das eras por diversas culturas, apagando, rejeitando e escravizando povos, castas e classes sociais. Talvez por isso assumi-lo, discuti-lo e enquadrá-lo dê preguiça, mas seja necessário. Ainda que algumas etnias vivenciem suas imposições de maneiras mais ou menos graves, de acordo também com seus acessos e capacidade econômica, além da detenção dos meios de produção, é possível identificar que, na atualidade, sua exerção de poder acontece pelo colorismo, como um critério ágil de seleção: quanto mais escura a sua pele, maior a sua chance à discriminação, velada ou explícita.

No Brasil muito se fala da capacidade em miscigenar, misturar, amalgamar mas parece fingimento se não notarmos que esse processo não é vivenciado por todos com naturalidade. Há um embate, um desgaste, um sofrimento, um renegar que faz o país eleger falas que exponham a recusa a esse caldo grosso da pluralidade. Estamos muito longe de sermos uma nação resolvida no mestiço. O degradê dessa noção daria um levantamento complexo de como o brasileiro vê a questão se vendo dentro dela, provavelmente ora como opressor ora como oprimido, numa relação contrastante que o faz perceber-se não sendo uma coisa ou outra, muito ao contrário. Como nação, parece estar em nós naturalizar contextos que nos fazem mal. Deixamos passar batido certas condições de vida em nome de um não sei quê que incomoda mais a uns que a outros. E fazemos dessas condições graça, arte e cultura. Pense nas favelas e você entenderá o que quero dizer.

Contudo, aceitar que o problema existe, não necessariamente vai alterar os padrões de comportamento, as relações socioeconômicas ou culturais, representatividades ou reproduções de subserviência programada.

Uma educação que reconte a História sob uma ótica antirracista parece ser fundamental, pois recuperaria um período anterior à escravização e evidenciaria uma história que aponta muita produção de cultura e conhecimento ainda em um território negro-africano e ameríndio. Porque se negros lutam por uma melhoria de sua visibilidade, indígenas lutam por serem vistos.

Não bastaria, então, haver leis mas fazê-las valer, para a disseminação desses ensinamentos. Capacitar o professor, das salas escolares e de outros ambientes de vital importância, para que ele ensine, da maneira correta, tendo antes da aula trabalhado em si seus preconceitos. Não seria suficiente uma licença dada à aparição pública, à ocupação dos cargos de chefia ou políticos, ou, ainda, uma permissão à produção intelectual. Mas, sim, que fosse garantida a existência desse espaço e que ele seja ocupado por quem teve, tem e terá condições de mantê-lo vivo, condizentemente com o desmantelamento de ideais não progressistas nesse sentido. Devemos estar atentos aos apagamentos.

Além disso, a evidência e a escuta de denúncias, apontamento de caminhos e revoluções pessoais, que furam a bolha dessas imposições, reforçam, pelo menos, pontuais transformações da sociedade, influenciam os modos de sentir, de racializados ou não, favorecem a oportunidade de novas políticas públicas, que sejam capazes de pautar e, de repente, dar conta de tratar mentalidades, num âmbito mais amplo e nacional, visando um projeto de nação que faça sentido para todos, irrestritamente.

É preciso estar atento ao amedrontamento diante dos cenários expostos, mas temos vivido reproduções de uma fala que estigmatiza, independentemente da abordagem que essa estigmatização nos possibilita tomar, em função da cor de nossas peles. Uma mente mais atenta quanto à essas reproduções, estará mais instrumentalizada para caminhar em um sentido contrário ao que está estruturalmente instalado e, por vezes, cordialmente expresso.


Silvia Regina Guimarães é doutora em Comunicação e Semiótica e busca manter o senso crítico desperto em Gostonomia.