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Escapatórias: É tempo de florescer

 

Para não dizer que eu não falei das flores

por Silvia Regina
em 29/10/2010

 

Eu tentei. Procurei pelos caminhos, por mim percorridos durante o mês, mas vi poucas flores.
A cidade de São Paulo, por entre as regiões visitadas, está meio atrasada na explosão de cores e aromas. E o que você queria?, estamos falando da capital do Estado de SP, feita de concreto e cinza…  alguém poderia rebater. Mas, no cinza da pauliceia, cada ponto verde sobressai. Tenho certeza que mais olhos, além dos meus, se sentem atraídos pelo verde denso de qualquer ficus. Mas e as outras cores? Pensando bem, vi alguns ipês floridos em roxo e amarelo próximos às estações do metrô Bresser e Barra Funda. Mas nas casas, as flores ainda são escassas. O que não quer dizer que, dentro da escassez, algumas delas  não tenham se exibido.
A framboeseira floriu, no meu quintal. E eu já pude provar do azedume da primeira fruta madura. Como é da família das rosáceas, acho que nela conta tanto a flor quanto o fruto, belíssimos. Minha irmã em sua roseira, por ela, considerada “comum”, incomumente vê as flores esbanjadas, bojudas e cor-de-rosa brotadas no jardim que, dando rosas às pencas permite até o oferecimento de delicados presentinhos. Ontem fiz aniversário, e como ganhei uma dessas abundantes rosas, lindamente aberta, parei para pensar sobre o gosto pelas flores, cultivado no íntimo.

  

Nem todos têm isso, pois os gostos nunca são iguais. Mas, para quem gosta de flores, sair pela cidade observando que elas ainda não vieram traz uma expectativa de quem espera alguém que, sabe-se, chegará a qualquer momento, pois está em atraso. Estes desejam a beleza pujante diante dos olhos, sempre. E esperar pelos efeitos de sentido da beleza, incutidos na Primavera, é coisa muito natural.
As flores são um ótimo exemplo da detenção da beleza que, fugaz e rara, é angariada pelos cuidados de quem as cultiva e oferecida como presente para quem se quer agradar. Significados? Muitas intenções esta beleza detida traria no contato conosco. Pois, uma flor nem chega a ser flor em si. Como tudo na existência, só ganha significado no contato com o outro.
No jogo entre a forma e o conteúdo, as flores, que são aparatos reprodutivos das angiospermas, feitas na natureza para a proliferação de suas espécies, podem ser apreciadas por seus desenhos, cores, texturas, aromas e sabores, além de suas motivações. Se no contato com o vento, aves e insetos elas significam vida que se perpetua na manutenção da beleza, no contato conosco, humanos, elas são a beleza.

O belo imaterial materializado nas flores segue do alto ao baixo, do sagrado ao profano, e essa conjunção afeta nossos desejos. Queremos essa beleza em nós e tentamos, de alguma maneira, participar dela quando incluímos flores em nossas decorações domésticas e nos adornos de nossos físicos, nos perfumes que entendemos trazer efeitos sinestésicos de lugares e sensações positivas ou, simplesmente, quando queremos tratar do patamar mais elevado de nossos sentimentos por outrem.

Porém, creio, falando do amor por meio das flores, estaríamos nos utilizando do sexo. (?!) Colocando flores em um altar, estaríamos, além da beleza etérea, percebida e assimilada por nossas sensibilidades e cognições, nos ofertando em alma, mas também em carne àquilo ou àquele (a/s) que detém a nossa fé.

Nos significados das flores em conjunção com o humano, temos o encontro de vida e morte, alegria e tristeza, anima e corpo, amor e sexo, juventude e beleza, continuidade e interrupção. Afinal, só as flores de plástico vivem indefinidamente belas; e o tempo de duração de uma flor, feita de pétalas reais, pode ser calculado em dias.

Contudo, é a beleza de sua dispersão sexuada que faz delas efeito de sentido de amor e outras profanações humanas duráveis, saudáveis e felizes, porque se hoje murcham amanhã renascem para dar conta de todo o encargo de nossas paixões.

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