Fruitivas: Primavera 48

Primavera 48

O amor sempre está no ar 

por Silvia Regina

Nem tudo são amores quando se trata de flores.
Violeta e Amarílis sempre foram amigas e faziam tudo juntas, das coisas mais à toa às mais sensíveis: como escolher cores de esmalte nas grandes perfumarias da cidade e, chorar a solidão, aplacada somente por estarem ali, uma para outra.
A amizade entre elas era profunda e vinha desde os tempos do secundário. E o amor que sentiam também, apesar de não ser fraternal. Eram como parceiras, companheiras. Se precisassem entrariam numa briga com palavrões e voadoras para defenderem-se. Juntas elas eram maioria. Eram imbatíveis e lindas. Cada uma ao seu modo.
Amarílis tinha longos cabelos anelados entre o dourado e o castanho, olhos cor de mel de abelhas brasileiras, como dizia Violeta, claros, de um marrom suave. Violeta, ao contrário, mantinha os cabelos lisos e negros, curtos, porém, com uma franja longa, que lhe cobria o olhar alongado pelo delineador e parte da boca mais beijável do mundo, como lhe sussurrava aos ouvidos Amarílis, ao ver a amiga em uma pose qualquer que lhe chamasse a atenção.
Apesar da notável beleza, invejada por suas colegas de universidade e do trabalho, porque até nisso estavam unidas, os espécimes do sexo oposto, delas, nunca se aproximaram. Pareciam sentir uma insegurança, um medo diante dos seios fartos, da cintura fina, do quadril largo e o cheiro que exalavam.
As amigas nunca tinham beijado, desconheciam os prazeres do sexo e, mesmo com a autoestima elevada, se incomodavam muito com a situação. Numa das conversas na hora do almoço, resolveram tomar de vez uma providência: colocariam um anúncio num site de encontros procurando um homem que estivesse disposto a encarar as duas, de uma única vez. Perderiam a virgindade juntas para manter a coisa como sempre foi.
Notebook na mão. Internet conectada. Não tardou até que recebessem inúmeras propostas interessantes de homens querendo ser objeto daquelas virgens tão belas. Após muitas avaliações chegaram a um apelido e uma foto: um solteiro carismático, meia idade, de aparência sexy, máscula e gentil. Experiente. Na primeira conversa, por telefone, um ótimo papo, desenrolado com um português marcante. Despojado dos apegos do amor, estava propenso à aventura, demonstrava mais que o querer, a ciência de o que fazer para concluir tal tarefa, tão inusitada. Parecia ser um sujeito de coragem.
Marcaram a data e o local do encontro. Seria em um motel afastado, situado em um bairro não frequentado por elas ou seus conhecidos. As amigas chegariam juntas e iriam embora juntas. O acompanhante chegaria depois e sairia antes. A conta seria paga por elas e, em nenhuma hipótese, divulgariam seus nomes. O quarto, onde estariam à espera, seria localizado pelo pseudônimo que as unia.
As Flores estavam no 48, soube o paladino cheio de excitação ao alcançar a portaria do Primavera: um motel caro e ajardinado, repleto de flores, permanentes e anabolizadas, que conduziram o lobo, com espírito de príncipe, até o destino promissor. Com seu grisalho prateado, que conferia àquele belo e desconhecido homem um ar dócil e seguro, estacionou em frente à janela do quarto sabendo que era observado pelas frestas da cortina de tecido grosso que tapava a janela. Tocou a campainha do quarto de coração aberto com a certeza de que, pessoalmente, não deveriam ser tão bonitas, As Flores que lhe falaram ao telefone.
Com a porta ainda fechada, Violeta jogou os cabelos de Amarílis para traz, a fim de exibir os seios firmes e adoravelmente marcados pelo lingerie rendado, de cor adamascada, escolhido por ela mesma para a ocasião. Enquanto Amarílis emoldurou o lado direito do rosto de Violeta com a franja que escorria lisa e densa como mais um detalhe a ser observado na mulher que no momento, além da boca tinhas as nádegas mais beijáveis e desejáveis do mundo. Olharam-se como se seguissem para uma guerra de onde só poderiam sair vitoriosas. E de certa forma foi o que aconteceu.
Ao abrirem a porta sorriram para aquele que ficaria registrado na história de ambas como o primeiro. O convidaram para entrar com gentilezas que, em suas mentes, precederiam as carícias e o romance das preliminares. O ambiente estava preparado e elas estavam prontas. Porém, de lobo, o príncipe virou um coelho, assustado e esquivo. Via diante de si duas amazonas, vindas diretamente da Ilha Paraíso, prontas para dominá-lo. Era impossível para ele manter-se junto delas. Mesmo com aquela avidez e gestos convidativos, ele congelou. Tentou tomar um trago para ver se relaxava. Riu, meio sem graça, das piadinhas galantes das moças. E entendeu quando se aproximaram para o primeiro beijo, não ser capaz de dar a elas o combinado.
Desculpou-se antes que aqueles lábios úmidos tocassem os seus. E saiu fugindo, como um diabo fugiria de água benta, batendo as portas e cantando os pneus.
As Flores se entreolharam, e tiveram de si mesmas uma impressão ruim. Do susto foram ao pranto e se abraçaram buscando consolo, como sempre fizeram. Mas, ao sentirem seus corpos, o toque quente e macio de suas peles, o perfume que envolvia seus cabelos, dorsos e pescoços, as lágrimas secaram e mais uma vez se olharam e foram capazes de encontrar uma na outra aquilo que pôs medo em todos os homens que cruzaram seus caminhos.
O enxergado, eu não conseguiria explicar. Mas, depois daquele encontro, As Flores experimentaram de todas as boas sensações que homem nenhum as fez conhecer. Finalmente estavam juntas, mas de um jeito novo, diferente de como sempre estiveram.

Sobre a autora

Silvia Regina de Jesus é doutoranda e mestra em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, graduada em Comunicação Social com ênfase em publicidade e propaganda e jornalista por opção. Além disso, pertence ao corpo editorial da Revista Nexi (Comunicação e semiótica/ PUC-SP) e é editora de Gostonomia,  escrevendo contos e reflexões sobre gosto: a capacidade de apreensão apreciativa da gente e das coisas. É autora de A sensibilidade inteligível do chocolate: uma análise do fazer estésico apreendido, cultivado e comunicado, dissertação encontrada em: Domínio Público.gov.br.[ http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=167688] / editoria@gostonomia.com.br