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Hedonismo [viagem]: A feira do Ver-O-Peso

Uma Tradução visual e sonora da feira do Ver-O- Peso

Em Belém do Pará, a estética na Cultura de Bordas

por Marlise Borges | Fotos: Nide Braga

Imagens legendadas sob o mouse

Ao transitar através das esferas da realidade, pessoas traduzem e elaboram conhecimentos vindo e indo, para que haja produção de novos conhecimentos e assim concretizando-os, em processos vivos.

Nesses processos diversos onde as infinitas ocorrências se revelam, estão as representações sociais como as mais variadas formas de idéias, pensamentos, linguagens individuais e coletivas, expressadas enquanto matéria e energia e que ocorrem ao mesmo tempo no contexto da ação coletiva através da co-criação com o universo, provando que a realidade é essencialmente dotada de probabilidades, onde nada é estático.

Nos percursos construídos, as pessoas em seus trajetos se apropriam do espaço cotidiano, agregando valores e interferindo em sua totalidade e suas partes, criando estética, ambiental, cultural e socialmente às várias interfaces da realidade. Nessa diversidade, o sujeito constrói seu trajeto emerso na relação cíclica que vai do local para o global e que o transforma de apreciador passivo em tradutor e co-autor das tantas simbologias heterogêneas que compõem seu contexto e intercontexto.

Para uma compreensão desses processos expressivos, trago à tona o conceito de Cultura de Bordas. Com “bordas”, Jerusa Pires Ferreira enfatiza a exclusão do centro, aquilo que fica numa faixa de transição entre uns e outros, entre as culturas tradicionais reconhecidas como folclore e a daqueles que detêm maior atualização e prestígio, uma produção que se dirige, por exemplo, a públicos populares de vários tipos, inclusive àqueles das periferias urbanas (FERREIRA, 1990, p.173). As bordas, que afinal podem ser entendidas como expressões de grupos com identidades específicas, marcadas por práticas que vão desde a influência típica do folclore, até as supostas culturas mais elaboradas, dotadas de requinte e sofisticação.

Estou falando das culturas de bordas enquanto interferências espaciais, assentadas no centro de Belém, onde o trajeto estético cotidiano se manifesta através das expressividades compositivas existentes nas bancas de camelôs (vendedores ambulantes), freqüentes nas áreas comerciais da cidade. Os produtos populares resistem diante das tecnologias, das novas tendências e designs arrojados. Perfilados, estão na trajetória cotidiana como interferências estéticas abertas a outras tantas interferências dos sujeitos envolvidos, personagens que criam e recriam as infindáveis paisagens estéticas.

É certo que existem múltiplas identidades no espaço de expressão que estes sujeitos intervêm, se apropriam e provocam. Há os que transgridem e agridem, os que revelam em infindáveis possibilidades as formas de linguagem e expressão, que somente o ato humano é capaz de realizar com tamanho dinamismo. Rastrear o trajeto estético das intervenções das culturas de bordas refaz o ato do olhar, transforma conceitos e interpretações, recria sons e formas, pois adentra no movimento do imaginário coletivo, onde estão as falas, as identidades culturais e sociais.

Através da fragmentação dos acontecimentos estéticos decodificados em sons e imagens, acompanhamos o processo rotineiro das manifestações, fruto do trabalho informal, da sobrevivência, da ilegalidade e do fugidio. O rastreamento estético absorve o fenômeno revelado através da decupação dos impulsos sonoros e visuais. Re-significa a relação espacial entre sujeito e objeto, buscando a subjetividade presente na atmosfera híbrida que alimenta a dinâmica dos movimentos expressos em som e imagem.

Conhecendo o Ver-O-Peso

A origem do nome aconteceu no século XVII, quando do início da cobrança de impostos que incidiam sobre gêneros entrados a capital. Os tributos, pagos na base do peso, destinavam-se à Coroa Real, e, depois, à Câmara de Belém. Para isso havia de funcionar uma balança: ver o peso, ou conhecer o vero peso.

O que importa mesmo é que o Ver-O-Peso (e seu ambiente existencialista) transpira as cores da terra e da cultura paraense. É o lugar onde encontra-se a grande interrelação de elementos mestiços, revelando identidades e potencialidades. Sem querer, acabou transformando-se em uma cultura organizacional, capaz de provocar intervenções urbanas junto à realidade.

Na feira do Ver-O-Peso 1 ( a maior da América Latina), encontra-se a totalidade de qualquer periferia. Vemos isso na venda de produtos que estão inseridos numa cultura de bordas e que ainda resistem no mercado informal. Entre os produtos, ainda é possível encontrar coisas bizarras, como a lamparina, a ratoeira, o ralo de côco, o pente, o espelho, além do feijão no “saco de sarrapilheira” e das barracas de ervas, artesanatos, artigos de Umbanda e diversos outros produtos vindos de pequenas cidades do interior. O Ver-O-Peso marca a cidade de Belém no espaço e no tempo. Pode-se dizer, sem medo de parecer arrogante, que é uma paisagem única, cartão postal que reúne homens, barcos, vigilengas, canoas, montarias, velas, mastros, frutas, objetos de barro, água suja e oleosa, urubus e lama da maré baixa.

Quando amanhece o dia é para lá – para a feira original do Ver-O-Peso – que se desloca uma pequena multidão, a fim de adquirir coisas como: bilhas, alguidares, esculturas populares, papagaios, periquitos, paneiros de caranguejos, peixes e camarões enormes, farinha d’água e até mesmo jibóias mansas para “pegar rato em forro de casa velha”. Produtos que são oferecidos pelas centenas de vendedores ambulantes que por ali trafegam. Quanto aos turistas, há os que afirmam: “a feira do Ver-O-Peso é um dos lugares mais impressionantes do mundo”.

Criando espaços de Bordas

Mercadorias de toda natureza, desde as ervas de pajelança e os amuletos, como os bichos e plantas exóticas da Amazônia e ainda todo tipo de “preparo” que entra nesta alquimia cabocla “tão cheirosa e agradável” podem ser encontradas nas diversas tendas de camelôs que, naturalmente, acabam por configurar-se como intervenções urbanas, pois é a forma como os camelôs se apropriam do espaço e o tipo de produto que vendem, que criam uma estética visual e sonora em seu cotidiano. Uma estética, portanto, da cultura de bordas.

E como não se pode pensar na cultura fora dos ambientes culturais é que elegi o Ver-O-Peso como uma paisagem cultural de Belém. Um lugar que revela todo um imaginário de comunidades que não fazem parte de grupos hegemônico de poder, mas que se expressam de modo peculiar.

É a cultura que está nas bordas, ambientada nos espaços periféricos que, por sua vez, não estão em estado permanente e sim em constante transformação. Na cultura de bordas estão presentes todo tipo de produção cultural, assim como os diferentes modos de ser de diversos grupos humanos. Como falou Jerusa Pires Ferreira (1990): “operando nos limites dos universos culturais contíguos, porém distintos, na corda-bamba para atender aos apelos desta produção popular, que se faz em resposta direta a um tipo de público”.

Os vendedores ambulantes (os camelôs) do Ver-O-Peso, nem é preciso dizer, são como uma “espinha de peixe” na garganta dos comerciantes formais, uma vez que atrapalham a fluência e o trânsito dos passantes. Quem quiser ir à feira, tem que se submeter à dinâmica do movimento que estabelecem.

Contudo, é esta organização espacial e esta dinâmica de movimentos, assim como os códigos visuais e sonoros para vender os produtos, que fazem deles criadores de uma intervenção urbana e uma estética da cultura de bordas. Estes sujeitos, mesmo sem se dar conta, produzem e constroem processos criativos. Vemos então a entrada da arte enquanto elemento capaz de gerar grande espaço de criação e expressão. E tudo a partir das experiências diretas entre os sujeitos e seus cotidianos, dentro de espaços de diversidade.

Intervenção Urbana

É preciso que se reafirme a importância das intervenções urbanas para o livre crescimento das artes, uma vez que transformam-se em instrumentos críticos e investigativos para a elaboração de valores e identidades das sociedades. Segundo artistas das artes visuais, a linguagem da intervenção urbana precipita-se em um espaço ampliado de reflexão para o pensamento contemporâneo, pois aparece como uma alternativa dos circuitos oficiais, capaz de proporcionar o acesso direto e de promover um corpo-a-corpo da obra de arte com o público, independente de mercados consumidores ou de complexas e burocratizantes instituições culturais.

Parece que os camelôs do Ver-O-Peso realizam, então, o que podemos chamar de “arte pública”, através de sua expressividade autenticamente popular. Traduzindo o cotidiano em caráter físico e humano, acabam adentrando na subjetividade do que há de concreto e do que se abstrai enquanto fenômeno.

Há, de certo, uma grande diferença na paisagem urbana de Belém (na área comercial do Ver-O-Peso) quando se trafega à noite. O espaço fica vazio, sem movimento, sem cor, sem plasticidade, sem cheiro, sem som e sem ritmo. Pela manhã, porém, o barulho externo das propagandas, as buzinas de carro, a música que toca nos alto-falantes dos postes de rua, as vozes das pessoas e a voz dos vendedores ambulantes, com suas estratégias de venda, marcam os códigos sonoros do ambiente. A maneira como arrumam os peixes, as bijuterias, o artesanato, as coisas de feitiçaria (esqueletos de gavião para afastar quebranto, olho de boto para segurar amor), banhos e defumações e uma infinidade de artigos corriqueiros, compõem os códigos visuais. Um trabalho, portanto, de arte pública – estética e intervenção urbana – que acontece ao raiar do dia para desfazer-se ao cair da noite.

[1] Paisagem cromática, banhada continuamente de sol, sem mangueiras para abrandar a fartura de luz: sol que ali se espoja num à vontade escandaloso. Paisagem crua, às vezes cheirando a bicho podre (mas só um instante porque o urubu é um bon gourmand), de onde escorre o suor da experiência de uma comunidade que vive a poesia rústica do cotidiano. O paraense acrescentou ao Ver-O-Peso um vigor de formas e de valores intensamente regionais, marcados pelo frêmito da vida e o dinamismo do barroco (TOCANTINS, 1987, p.328).

Sobre a autora:
Marlise Borges é jornalista, musicista, arte-educadora e doutoranda em Comunicação e Semiótica, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP.

4 Comments »

  1. Nossa, que achado aqui!! Estou seguindo seu blog diariamente a 1 mês e estou impressionado. Por favor continue com o bom trabalho e artigos, eles são muito bons! Isso está cada vez mais raro!! brigado!!

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  2. Parabéns!!!
    Sempre soube do seu talento analítico, espero que todos tenham a oportunidade de ler seu texto, e diga para Nide que, como sempre, as fotos estão antásticas!

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