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O Ovo de Ouro e a dolorosa jornada em um campo nazista de concentração

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Peça de Luccas Papp que traz Sergio Mamberti no papel principal, tira da invisibilidade histórica os prisioneiros obrigados a matar seus pares nas câmaras de gás.

Por Beatriz Ramsthaler


Impressiona o texto maduro de Luccas Papp, um jovem autor de 27 anos que se aventurou a explorar a vida de um dos personagens esquecidos da história moderna do mundo, o sonderkommando.

Durante a segunda guerra mundial prisioneiros – em sua maioria judeus – eram obrigados a trabalhar nas câmaras de gás e nos crematórios nazistas. Estes homens compunham uma unidade de trabalho intitulada sonderkommando.

Em “O Ovo de Ouro” o espectador é levado para dentro da confusa memória de Dasco Nagy, personagem de Papp (jovem) e Mamberti (velho), um judeu que se viu obrigado a matar seus pares em Auschwitz, campo de concentração nazista que se tornaria o maior símbolo do holocausto. Em Auschwitz morreram mais de 1 milhão de pessoas durante a Segunda Guerra Mundial.

Sérgio Mamberti completou em 2019, 80 anos de idade e 63 anos de carreira. Quando pensava que suas atividades no ano estariam encerradas, surgiu o convite para a peça: “o diretor Ricardo Grasson me enviou o texto “O Ovo de Ouro”, de Lucas Papp, um jovem autor que até então não conhecia. Para a minha surpresa, fiquei impressionado com o lirismo e a atualidade da obra, que está localizada na década de 40, mas nos diz coisas do agora. Quero fazer, respondi sem firulas”.

Vívido e de uma energia que preenche o palco, Mamberti divide com Papp o papel principal do espetáculo. No elenco, além deles, Leonardo Miggiorin, Rita Batata e Ando Camargo. É inegável a qualidade dos atores, assim como vale destaque à trilha sonora assinada por L.P. Daniel e a iluminação de Wagner Freire. Todos, atores e técnicos, premiadíssimos no teatro brasileiro.

O senão fica por conta das passagens de cena. Pelo fato de a história transitar entre memória, fatos e sonhos (ou seria melhor dizer “alucinações”), os muitos momentos de quebra da narrativa propostos cenicamente pela direção, não traduzem a proposta do texto de forma natural, tirando o espectador da tensão gerada pela história, tensão esta que precisará ser reconquistada para a cena seguinte. Isso faz com que a narrativa nesse vai-e-vem em um espetáculo de aproximadamente uma hora e meia de duração, se torne, em alguns momentos, um pouco cansativa para a plateia.

Vale o destaque para o sensível e sutil diálogo entre a dura história vivida durante a década de 40 e o atual momento no cenário político mundial, com o fortalecimento e a subida ao poder de sujeitos políticos ultraconservadores. Isso se faz claro, em “O Ovo de Ouro”, na reprodução dos discursos de Adolf Hitler que exaltam os valores nacionalistas e a perseguição às minorias, além de uma clara luta pela homogeneização e contra a diversidade.

**O espetáculo fica em cartaz até 15 de dezembro no Sesc Santo Amaro e volta em 2020 no Teatro Porto Seguro, a partir de 7 de fevereiro.


Bia Ramsthaler é diretora do Canal Diversão & Arte, doutora em comunicação e semiótica e professora de graduação.