A joalheria artística de LU LEITE

Por Silvia Regina Guimarães

Lu Leite: uma estética barroca e mestiça na produção de joias

Por que usar joias se você pode usar arte? É a essa conclusão que se chega no contato com as criações de Lu Leite, um reforço para a fé de que não há motivos para entender a ornamentação de nossos corpos senão pela arte.

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Se maquiagem, roupas, sapatos e bolsas, servem para nos fazer ver e compreender, joias e bijuterias também se prestam a esse efeito comunicativo, colorindo, definindo a estética linguageira de um jeito de parecer, construindo uma imagem para mundo. Mas, no caso das peças de Lu Leite, joias, semijoias e bijuterias acabam fazendo de todo o arranjo, molduras que enquadram arte.

Ainda que de maneira sutil, mas com a evidência de um olhar treinado para o belo, Lu Leite compõe suas peças buscando a inovação de interesses visuais retirados do dia-a-dia; brinca com cores e possibilidades recortadas das situações mais corriqueiras, como a xícara que caiu e quebrou, o descarte da cápsula do café de amargor marcante ou o retalho que sobrou do último vestido.

Mas, se tentássemos classificar suas peças como biojoias, pelo caráter de reaproveitamento de materiais, o termo não daria conta do que ela contextualiza como produção. Suas criações misturam, de um jeito barroco, pedras e metais preciosos e semipreciosos, plástico, tecido, linhas, louçarias, fibras naturais e flores secas. Sem, evidentemente, se limitar a isso.

Com formações desde a graduação até o doutorado entre a PUC e a Sorbonne, Lu Leite é uma dessas intelectuais que foram além do gabinete e se tornaram capazes de verificar as coisas do mundo nas coisas do Brasil. De sua experiência com a Filosofia, a Estética, a História da Arte e a Comunicação, ela semiotiza a abordagem de cada peça como quem busca traduzir os sentidos em um arranjo a ser interpretado no uso do corpo.

De sua passagem por Lisboa, nos tempos de pós-doc, Lucimara parece trazer nítidas fragmentações de uma visibilidade artística fundida na paisagem: como se nos detalhes de sua própria aparição, como pessoa, e de suas criações, se vissem aqui e ali enriquecimentos de uma azulejaria ou de um casario trazido nas combinações de movimentos, cores, formas e texturas, para um feminino vivaz, alegre e completamente liberto.

O que você lê agora são os fragmentos de nossa conversa, entre muitas risadas e a descoberta de uma mulher autêntica, capaz de provocar a beleza por meio do que é diverso, inclusive na proposição de significados.






Gostonomia: Depois de tanta vida acadêmica, como surgiu a ideia de produzir joias?

Lu Leite: Eu sempre gostei de joias. Me sinto um pouco “árvore de natal”. Desde pequena, eu sempre gostei de me enfeitar. E fui incentivada por uma amiga, que fazia um curso nessa área, a iniciar meus estudos. Confesso que nas primeiras peças encontrei muita dificuldade e pensei em desistir. Trabalhando com metais, por exemplo, para fazer um primeiro cubo, quase tive um ataque do coração. Foi dificílimo. Mas, quando comecei a mexer com a prata, me encantei. A prata é linda derretida no cadinho, tem um brilho especial o contraste entre a prata e o vermelho do fogo. E com a aposentadoria na educação, pensei que poderia desenvolver um novo caminho, mesmo que tenha começado a investir no tema sem maiores pretensões. Comecei a observar vários materiais. Minhas peças atuais contém o reaproveitamento de peças antigas, resgates, e outros materiais que reorganizo: pérolas, metais e pedras preciosas, na criação.

Tenho visitado várias joalherias para exercitar o olhar. Vejo as peças em exposição e, na hora, me vem algumas releituras ou, simplesmente, uma abertura para a criação de peças novas. Como no caso dos corais rústicos, normalmente vistos lapidados. O rústico é diferente, fora do padrão. Minha criação tem disso, fora do padrão, essa coisa que não encaixa, mas registra.

G.: Suas peças têm um encantamento, mas um trabalho estético incomum. O que é beleza? Como você faz o registro da beleza na sua criação? O que você busca como belo na sua produção?

LL.: O belo é o meu olhar para isso. Eu trabalho há um bom tempo com História da Arte, acho que tenho um acervo mental de livros, filmes, obras de arte, visitas a museus, mais a combinação de materiais e cores e tem muito do meu gosto, da minha personalidade. Eu não construo meramente para ficar legal, para ficar bonito. Não é assim que funciona. Porque nem sempre o que se imagina se alcança, na prática. É uma descoberta. Nem sempre o que você imagina se concretiza e aí, você descobre o belo no processo. Como a torção do tecido de um último broche, é um produto do processo. E isso é bem interessante.

G.: Você acha que sua produção tem um rótulo que, na verdade, desconstrua os rótulos, como um chamamento barroco-mestiço, numa pluralidade bem brasileira, dessa proliferação de cores, materiais e contextualizações que acabariam virando joias?

LL.: Sim. Sim. Eu gostei de como você definiu. Porque, por exemplo, num exercício com broches, eu comecei a usar um tecido superbonito de um vestido que eu fiz para mim aos 50 anos, uma seda vermelha. Espalhei os materiais e comecei a montar as peças com capsulas de café espresso, e comecei a perceber que estava me deixando envolver pelo momento do país. O que resultou em peças barrocas semelhantes a comendas que combinam elementos dos últimos tempos, tanto a busca por segurança quanto a fragmentação das instituições de direito.

G.: Como se você fizesse ligações de ideias e experiências, e materiais que representem isso…

LL.: Isso. Vou combinando inclusive técnicas que resultem numa representação desse processo de transformação. É uma desconstrução o que estamos passando, como pessoas, como país. Nada é eterno, sempre estamos em estado de transformação.

G.: Quem você acha que busca a sua produção e quando encontra, o que encontra?

LL.: Eu acho que pessoas de várias idades, não só mulheres mais velhas, mas também as mais novas, que tenham essa questão alternativa, fora do padrão. Pessoas que gostem de peças com personalidade. Por mais que eu diga que eu goste das árvores de natal, essa coleção tem um quê mais clean, como as pulseiras quadradas, que eu buscava, testei tamanhos, espessuras que não fossem tão finas e que tivessem mais estrutura. Acho que as pessoas encontrariam um barroco atualizado. Uma composição que brinca com os elementos e as formas. Composições que normalmente as pessoas não ousam.

G.: E o que você busca entregar para as pessoas?

LL.: É claro que vai um pouco de mim, é inevitável, mas quero que elas usem uma peça que falem de uma história que seja delas. Entregar o que as pessoas sonham, ainda que eu as ouça e entregue algo criado em função daquela busca.

G.: Uma aproximação desse querer. Você então se sensibiliza com as ideias do outro para criar? Uma peça de arte elaborada para alguém que tenha um desejo indefinido. É fácil fazer isso?

LL.: Não. Porque você tem que ouvir a pessoa e interpretar o que ela quer. É um exercício de encaixe que coloque em contato o que duas pessoas querem. Uma peça de arte encomendada. Temos que estar muito livres para encarar os resultados e, se não rolar, desmanchar e fazer de novo.

G.: E se mantém, com essa possibilidade de desmanchar e fazer de novo, o caráter artístico?

LL.: Eu acredito que sim. Pensando em Walter Benjamim, é o efeito da criação. O que transforma? Qual é o meu processo? Como quem entra na troca comigo me permite criar de maneira exclusiva. Até porque, muitos materiais são únicos. É uma criação única, que não será produzida em série, não vai existir, nesse processo, outra peça igual.