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Ela não pode dançar, cantar… acho que foi isso

por Silvia Regina Guimarães

É maravilhoso ver atrizes consagradas em cena. Eva Wilma e Nicette Bruno fazem a trama “O que terá acontecido com Baby Jane? ”, do roteiro de Lukas Heller para o cinema (What ever heppened to Baby Jane? – 1962), simplesmente fluir no palco do Teatro Porto Seguro.

Sob direção de Charles Möeller & Claudio Botelho, estreantes na modalidade não musical dos espetáculos, as atrizes desenrolam a rivalidade cumplice entre as irmãs Hudson, que sobrevivem de um passado de estrelato em franco esquecimento: Jane de um sucesso possível somente na infância, nos palcos vaudeville, e Blanche, de sua notoriedade como atriz na vida adulta, em um cinema que começava a descobrir suas fórmulas audiovisuais.

Na decadência da terceira idade e com a certeza de que pode voltar a brilhar nos palcos, Jane espicaça a irmã mais famosa com a frustração de quem não pode crescer com a fama, tornando o convívio entre elas praticamente impossível.

O choque das linguagens – Os musicais têm um recheio estético chamado música e dança. A sensação que dá em (…) Baby Jane? é que, a qualquer momento, a música acontecerá e as cenas serão conquistadas por bailarinos incríveis e atores interpretando canções como falas, só que isso não acontece. É como se na peça surgisse uma ausência, apesar da trama ser interessante, os cenários e figurinos muito bons e o elenco intensamente brilhante.

Esta percepção fica clara quando, em um momento desse brilho intenso, Eva Wilma canta e o público aplaude efusivamente. Möeller & Botelho, nessa construção, parecem deixar claro de onde vêm, permitindo que a expectativa do canto e da dança aconteça nos momentos que seriam deixas naturais em um musical; esse vácuo desnecessário da música e da dança, parece ficar traduzido no ritmo e na movimentação das cenas.

A culpa é das frisas –  Existe uma baixa intensidade do aproveitamento cerebral do roteiro. A direção poderia dar um peso mais sinistro ao raciocínio thriller permitido pela trama. O enredo parece solicitar um acabamento mais intenso para esse convívio insano entre as atrizes irmãs.

De qualquer forma, trata-se de um espetáculo construído com uma série de boas intenções criativas, com narratividade que permite fácil compreensão da relação de amor, ódio e competição, comum entre irmãos. Composta por memórias de maneira segura, a peça transita entre passado e presente, conduzindo bem o público no entendimento da formação do caráter de Jane e Blanche.

Contudo, essa construção das memórias e o retorno ao passado, acontecem sem considerar as frisas do Teatro Porto Seguro. Os atores, no passado, contracenam nos cantos do palco, o que dificulta a visibilidade de certos acontecimentos para a plateia sentada nas frisas do teatro, deixando uma parte dela acompanhando a história somente pelos diálogos em vários momentos. A configuração das cenas deveria contemplar a plateia, sempre, e permitir que a história fosse absorvida por todos de maneira entusiasmante do começo ao fim.

Mas tem entusiasmo de sobra na genialidade cênica de Nicette e Eva. E elas não se perdem do olhar de ninguém. Ainda bem.


Silvia Regina Guimarães é doutora em Comunicação e Semiótica e comunicadora social. Pesquisadora dos discursos do gosto, busca amplificar suas observações sobre  o mundo e seus percursos, pensando e escrevendo sobre alguns deles.

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