Escapatórias

A vida simples possível em Canavieiras


Fotos e texto por Silvia Regina Guimarães


Levantar da cama só quando o calor parecer insuportável. Tomar um café preguiçoso na cozinha ampla e arejada pela brisa do Rio Patipe, acompanhado de uma conversa mole e gostosa de quem decide o que fazer da vida: dar uma volta no Porto ou ir direto à praia. Ou, quem sabe, ir direto à praia pelo Porto.

Essa era a vida que me aguardava em Canavieiras, na Bahia, durante as férias de verão. Muitas descobertas e uma reflexão forte sobre a simplicidade: ela parece existir e poder ser realidade na vida de qualquer um, a partir de uma escolha.

Mas escolher é um luxo e, é claro, a simplicidade também; assim entendemos, porque não pode ser vivida por todos. Para começar, essa simplicidade precisa ser entendida, assimilada e substanciada pelo eu que tem que gostar da ideia de que é preciso pouco para viver. Ou que é preciso abrir mão de pouco para viver: tudo aquilo que não vale a pena, logo, pouco aqui significaria menos que nada, porém, ao mesmo tempo, uma porção de coisas e valores com os quais nos cercamos diariamente.

Não tenho como recomendar a vida que encontrei, posso tampouco comentar esse tipo de simplicidade sentida na costa do cacau, especificamente em Canavieiras, talvez diferentemente de qualquer um dos municípios dos arredores. Uma simplicidade feita das ruínas do que um dia foi um belo centro, com a riqueza do chocolate. É preciso nervos de aço para viver uma vida sem gadgets, ou com pouco deles em uso, eles não funcionam direito diante de tanto sol, céu, areia e mar.

E não se engane, não há niilismo, não há perda dos valores superiores na aquisição dessa simplicidade; mas há sim, uma despreocupação com tais valores dentro de uma rotina que impeliria a viver de acordo com uma satisfação pessoal que, em nada tem a ver com viver ao sabor dos acontecimentos. Isso não seria simples. Isso seria uma predisposição aos desmandos da vida e, haja jogo de cintura para tanto. O que é simples para mim pode ser complexo para você que me lê. Essa simplicidade só aconteceria de acordo com uma subjetivação. A sua.

Por isso, a vida simples de que falo é tão escolhida como qualquer outra. Se é que podemos escolher a vida que vivemos. Mas, se pudéssemos, essa vida simples apontaria, sobretudo, à consciência de que para vivê-la seria preciso abandonar um todo de sentidos comprados, tomados por empréstimo, por modismo, porque fica bem socialmente, porque é de bom tom. Mesmo subjetivada pelo ser, o eu, a essa simplicidade não caberia um entendimento alheio ao nosso próprio gosto.

Num olhar que percorre os espaços históricos, Canavieiras está em ruinas, sim. A cidade parece passar por um processo de deterioração, onde as casas não são meramente simples, ou simplórias, são de uma alvenaria em desgaste, boa parte das ruas não tem pavimentação, as casas mais finamente construídas, dissonam das demais. Qualquer reforma tornaria tudo mais belo, mas a cidade toda parece precisar de investimento.

Afora isso, é tudo beleza e satisfação para esse olhar. Os canavieirenses, natos ou assimilados, sabem levar a vida de maneira amena. Essa amenização particular oferecida ao dia a dia contagia os visitantes e os faz desejar viver naquela atmosfera por um tempo maior que a duração das férias. Quem sabe o resto da vida.

O resto da vida em Canavieiras — Esse era o pensamento de Sérgio Ferreira ao sair da sua primeira tarde na Praia da Costa, situada nesse litoral cacaueiro, arrodeado por uma infinidade de coqueiros que dão coco e parecem salpicados à mão num areal de açúcar. Pensar sobre o cotidiano que teria nessa realidade sem glamour e, ao mesmo tempo, tomada por uma proximidade com o que há de mais sofisticado em termos de simplicidade vital, era tudo que se poderia fazer.

Com seus 38 anos, 15 deles vividos em Londres, Sérgio parece ser um menino de cidade pequena, apesar de ter nascido em São Paulo; contudo, todo esse tempo acumulado ao ritmo do Big Ben, fez dele um homem forte, cheio de traquejo e ao mesmo tempo dotado de uma ausência de deslumbramento com coisas e pessoas que, para muitos, seriam o ápice.

Ele não se prende a detalhes, mas se permite observá-los com requintes de análises sobre o passado e o futuro, sem deixar de valorar o tempo presente como a melhor escapatória para os tempos da vida. Tempos muitas vezes vividos sob conturbações e tristezas, mas com o desapego ensinando, sempre, que a vida poderia ser mais.

Enfermeiro e tecnólogo médico, responsável por maquinários de suporte à vida no hospital de um grande centro universitário britânico, ele se deixa fotografar com a tranquilidade de um modelo profissional e evidencia, em conversas longas e profundas, ponderações sobre a sua condição e as escolhas que o fizeram estar onde está, talvez não propriamente onde gostaria, mas um lugar que é seu por mérito, nos acontecimentos.

Nesses pensamentos, muitas lembranças. E com elas, surpresas revividas pela simplicidade dos fatos, como aconteceu quando contou sobre uma de suas férias na cidade. Ainda menino, viu um primo pegar os cocos de um dos coqueiros sem pedir permissão a ninguém, para matar a sede do grupo que já estava há horas brincando no sol. Com os olhos na paisagem, refletia sobre a liberdade de beber dos cocos sem o consentimento de um dono, sem pagar nada a ninguém; como uma peça que se retira de um cenário idealizado, que permitiria beber e comer sem entraves, além da própria habilidade. Mas, considera que, infelizmente, a vida não pode ser assim e que esse fator é determinante na escolha entre uma vida londrina e a vida canavieirense.

Em todas as ponderações, na voz de Sérgio, nota-se a condução para um lugar: a família. Esse senso de que ao lado dela tudo está completo, encaixado, o faz querer voltar para casa a cada ano, como um prazo para o distanciamento. Não interessa se a família é perfeita, estar longe dela, para ele, é reconhecidamente difícil, e estar perto, nas condições que hoje se apresentam em Londres, talvez não fosse possível e, nesse ponto, a conversa retorna para a questão das escolhas que a gente pensa poder fazer ao longo da vida.

Quando chegar a hora possivelmente o menino que se tornou homem em terras estrangeiras regressará ao país de origem, mas se será para São Paulo, não se sabe. É muito possível que Canavieiras fique com mais essa vida, pela simplicidade que possui. |::::|