Walter Freitas e suas múltiplas linguagens: O Projeto Poético de um artista da Amazônia

por Marlize Borges

arquivo de Marlise Borges

Arquivo: Marlize Borges/ Walter Freitas: músico e compositor


O amor e a vida na Amazônia permeiam a obra e o processo de criação do músico, compositor, escritor e dramaturgo paraense Walter Freitas. Pode-se dizer que o Projeto Poético de Freitas divide-se em dois grandes momentos. No primeiro é o músico, que procura registrar e traduzir “musicalmente” a realidade amazônica, musicando a região a partir de elementos conceituais, que ele chama de “elementos musicais amazônicos”. É o início do processo criativo do compositor, que apenas ‘parte’ dos tais “referenciais amazônicos”, para, mais tarde, utilizar diferenciais musicais cada vez mais diversos.

Consciente ou inconscientemente, Freitas parece ter apostado na história. A escolha de estruturações melódicas e rítmicas complexas e as harmonias fechadas, com acordes diferenciados, experimentados e construídos, marcam o final da década de 80, no ambiente artístico de Belém do Pará, quando Freitas lança-se como compositor na “Feira Pixinguinha”. Organizado pelo Governo Federal, através da Funarte (Fundação Nacional das Artes), o evento foi onde Freitas apresentou ao público suas primeiras canções: “Estrela Negra” e “Verdoenga”. Sob o ponto de vista de sua estética de criação, “Estrela Negra” arriscava um discurso social, ao falar da estória de uma prostituta. Já “Verdoenga” era o começo de uma visada descritiva, naturalista, da realidade amazônica.

 

LP “Feira Pixinguinha”, lançado pela Funarte, Brasil, 1980.

Em 1987, Walter Freitas grava, no Rio de Janeiro, o LP “Tuyabaé Cuaá”, pelo selo Outros Brasis. Em 1988 lança o LP (ainda vinil) Tuyabaé Cuaá, e participa de concerto com o cantor e compositor Xangai. Mais tarde, o LP se transforma em CD e é novamente lançado ao público, em 1998, em Belém do Pará. Vale lembrar que “Tuyabaé Cuaá” é uma obra de arte que opera entre natureza e cultura. Reflete sobre as etnias de sua formação amazônica, narra fatos da história política e social na Amazônia e procura manter viva a lembrança dos episódios. Preservando as falas originais, há o uso constante de termos tupi e africanos, além dos neologismos, que são re-criados pelo autor.

“Tuyabaé Cuaá”, em alguns momentos, perpassa o limite da subjetividade e da objetividade. Em suas narrativas, há estórias de amor e perda, os encantamentos da floresta, analogias às essências e aos sabores de frutas, e, é claro, a apresentação de paisagens exóticas e belas, como a Ilha do Marajó, com seus muitos pássaros, peixes e cobras. É uma obra de arte verbo-sonora, composta de oito músicas, todas de autoria de Walter Freitas, algumas em parceria com outros compositores da Amazônia. É uma obra que trabalha também com imagens poéticas sobre a passagem do tempo, passeia pelas festas e folguedos populares, pelas narrativas indígenas, mostra a importância das ervas que curam, das orações, das ladainhas, das rezadeiras e benzeduras, que em geral é praticado por mulheres. Evidencia-se aí, mais uma vez, a valorização do sexo feminino, para o autor, e sua importância no contexto cultural amazônico. Freitas trabalha, nesta obra, com conceitos musicais alternativos, brindando-nos com um trabalho primoroso, que traduz a Amazônia e o Brasil, na sua mais absoluta grandeza, riquezas e misturas.

LP e CD Tuyabaé Cuaá – Walter Freitas

No segundo momento, Walter Freitas vai enveredar pelo caminho do teatro e da literatura. Começa então o processo da pesquisa teatral, do texto para teatro (onde escreve em versos, como Shakespeare), da encenação como ator, da composição de trilhas sonoras, da direção musical e artística dos espetáculos.

Os textos para teatro, como se sabe, oferecem grande diversidade de informações. Fazendo um mapeamento inicial dos textos escritos por Walter Freitas, temos: em 1982, uma adaptação do romance “O Marajó”, de Dalcídio Jurandir. “Tijuco, Leito de Amores”, “Leva Longe” e “Meu Berro Boi” viriam depois, escritos com parceria de Ramon Stergmann e montagem do grupo de teatro “Maromba”, de Belém do Pará. Em “Meu Berro Boi”, a arte dramática de Freitas começava a entrar no terreno da estrutura política e social do país, com o tema da questão fundiária.

O texto infantil “Fiau Babau” viria em 1986, mostrando a criação de um grupo folclórico e sua luta com a cultura estrangeira que, para Freitas (1998): “nos é constantemente imposta”. Para “Hamlet, um Extrato de Nós”, encenado pelo grupo “Cuíra”, de Belém, e dirigido por Cacá de Carvalho, Freitas compôs a trilha sonora, assim como para “Quintino, a outra face da sacanagem”, encenado pelo grupo “Cena Aberta”, também de Belém do Pará.

Em 1998 escreveu e musicou “DeZmemórias”, ópera cabocla, dividida em 04 atos, que narra acontecimentos marcantes na Amazônia, após os dez anos do assassinato de Chico Mendes.O seringueiro e a morte são os personagens principais. Em 2002 escreveu e musicou a ópera “Hànêreá, Lendas Amazônicas” e em 2004 atuou como ator, músico e dramaturgo em “Tambor de Água”, espetáculo que mistura as linguagens do teatro e da música. Neste espetáculo, Alberto Silva Neto e Walter Freitas, atores-músicos, mergulham em exercício cênico para criar múltiplas imagens a partir de elementos e referências da cultura amazônica e trazer à tona questões universais, inerentes à condição humana. Na montagem, planos de existência real e mítica se alternam, para falar de paixão, erotismo, violência, sofrimento e morte.

Em 2005 vem a montagem de “A Cuia Mágica” , texto montado em Paris, por uma companhia francesa de teatro e lançado em edição bilíngüe.

Seus mais recentes trabalhos como dramaturgo, diretor musical, ator e diretor de teatro, foram as montagens de “FUNDO REYNO”, Prêmio FUNARTE de Teatro Myriam Muniz, em 2009/2010 e “BANDURRA-EH!”, patrocinado pela OI/ FUTURO, através da Lei Semear, em 2010/2011.

Espetáculo “Fundo Reyno” – Prêmio Myriam Muniz, de Teatro.

Em 2011 escreve o romance “KARARAÔ”, com patrocínio da Petrobrás, através da Lei Rouanet. Em 2012, lança o romance “KARARAÔ”, Editora Cejup, no dia 12 de junho, no dia dos namorados, em grande acontecimento no espaço cultural “Boiuna”, em Belém do Pará.

Espetáculo de Teatro “Bandurra-EH!”, de Walter Freitas

No dia 26 de junho de 2012, Walter Freitas faz novo lançamento do romance “Kararaô” no TUCA – Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP, após ter proferido a palestra “A Face Múltipla – As Muitas Linguagens de Walter Freitas. Aproveitando os dois eventos, consegui realizar entrevista com este autor, onde ele falou um pouco de sua carreira artística. Vale a pena conferir a entrevista: