Os Mestres Russos e suas Experimentações Estéticas

 

Por Marlise Borges

 

 

O cineasta russo Dziga Vertov (com o seu cinema de invenção, totalmente analítico, conceitual e de permanente interpretação dialética dos fatos), acreditava que não bastava reproduzir uma realidade, tal qual ela se apresenta, mas, acima de tudo, interpretá-la. Vertov sabia que,

 

Para interpretar o que chamava de fenômenos vivos à nossa volta não bastava capturar a imagem, pois que a percepção real do mundo era invisível à mera captação de imagens. Queria na verdade tornar visível o invisível, e explicar através do cinema a estrutura da sociedade, usando como método o que chamou de cine-olho (kino glaz) e como princípio estratégico o que cunhou de cine-verdade (kinopravda), criando um verdadeiro movimento dentro desses dois conceitos. (RENNÓ, 2005: 16).

 

 

Dziga Vertov foi o inventor da captura direta e única das imagens reais, que seriam depois transformadas na montagem, explica a cineasta Cristina Rennó. Segundo ela, Vertov sempre baseou-se na descontinuidade, e para ele, “documentários nunca foram a reprodução fiel da realidade e como tal não precisam coincidir com os fatos brutos” (RENNÓ, 2005). Para este cineasta russo, a verdadeira arte cinematográfica era aquela de fatos vivos, onde a câmera na mão podia ser apenas uma escrava do olho. Cristina Rennó nos fala que Vertov sempre soube que “o documentário era a nova escritura dentro do universo do cinema, e que não tinha a ver apenas com o mundo das imagens, mas com o universo das linguagens verbais e da experimentação”. (RENNÓ, 2005).

Assim como Dziga Vertov, outro cineasta russo, Serguei Eisenstein, foi também um dos inventores da montagem em documentário. Formulou a teoria da “montagem conceitual”, que busca transformar o conceito abstrato em forma visível na tela. Eisenstein criou esta teoria do cinema conceitual baseado nas línguas orientais, visualizando uma forma de escrita pictórica para o cinema. No cinema de Eisenstein, “são combinados planos ou elementos do plano aparentemente com significados isolados através de associações. A montagem aqui citada funciona através de um princípio de multiplicação e não de adição: ao multiplicar, constrói-se o significado” (CARVALHO, 2008). Segundo Arlindo Machado,

 

Eisenstein foi um dos pioneiros a introduzir a idéia da visão do cinema como produção de sentido através da articulação dos planos, combinando-os e regendo-os harmonicamente como numa sinfonia, fazendo-os suceder uns aos outros, segundo um princípio rítmico e organizador. (MACHADO, 1982: 44).

 

 

Para Eisenstein, os elementos principais para compor uma obra audiovisual, são: a composição plástica, o movimento, as cores e a música, em que afirma que tudo isso é como uma partitura musical polifônica, de modo que cada elemento se relacione verticalmente com os outros.

Outro cineasta russo cujos filmes têm a fama de serem “herméticos” e que também trabalha com a “descontinuidade da narrativa”, ou seja, uma narrativa nada convencional, é Andriei Tarkovski. O cinema de Tarkovski, um artista chamado de visionário, corajoso e hipersensível, passeia pela filosofia e pela poesia visual, estabelecendo um fluxo dialógico intermitente e vigoroso com a história da arte, combinando magistralmente elementos díspares, tirando daquilo tudo uma riqueza lírica pungente e poderosa.

Nos filmes de Tarkovski, a concentração de imagens, sons e cores exigem do espectador uma total abertura sensorial, pra conseguir compreender a intenção do cineasta. Trata-se de um entendimento que é totalmente afinado com o conceito de “Estranhamento”, de Chklóvski, através do qual se desautomatiza a percepção. Há que se desprender, portanto, do habitual, pra ter acesso à riqueza de um Tarkovski, que pela via estética de confrontar, expõe sempre, frente a frente, vida x homem, homem x natureza. Neide Jallageas nos fala que,

 

Tarkovski trabalha febrilmente com essa inconstância do tempo, com essa colagem rápida e ilusória que marca a inconstância da vida, a fugacidade, o efêmero e a descontinuidade da própria vida, a fragilidade humana. Para cada certeza e inflexibilidade, o cineasta descortina um amanhã no qual já não somos mais do que passagem, memória. (JALLAGEAS, 2007: 198)

 

 

Segundo Jallageas, “o que por vezes pode ser entendido como narrativa fragmentária no cinema de Tarkovski, é um procedimento adotado pelo cineasta para abrir fendas na realidade contínua do espectador”. (JALLAGEAS, 2007). É, portanto, um cinema que não se faz sem o comprometimento do espectador com a experiência estética.

 

Autora: Marlise Borges é mestre e doutoranda em Comunicação e Semiótica, pela PUC/SP.