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Gostar de Raul Seixas

Por Cibele Simões Ferreira Kerr Jorge

 

Gostar de Raul Seixas é uma experiência surpreendente, tanto no contato com sua obra como com o público

Sua genialidade, expressa em questionamentos perspicazes e boas doses de humor, confere um ar de novidade a cada observação. Recentemente, me surpreendi com sua entonação vocal em Faça Fuce Force, e ao encontrar Asa Branca em inglês em meus arquivos. Há poucos dias, fui pega de surpresa pelo realismo dos depoimentos do documentário biográfico O Início, o Fim e o Meio, do diretor Walter Carvalho, exibido na 35ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O relato de sua vida sob o olhar de seus amigos e parentes suscitou um impacto emocional na plateia, estampado no semblante da maioria dos presentes.

As alegrias e tristezas rememoradas pelos entrevistados eram apenas em parte conhecidas do público, constituindo-se também de impressões particulares inéditas ao espectador, levando-o, portanto, a vivenciar essa trajetória, cujos fragmentos desconhecidos haviam sido, por muitos anos, completados por sua lógica imaginária. Suas falas me levavam a buscar mentalmente os trechos referentes às situações narradas escritos por Raul em suas anotações particulares e posteriormente publicados em livros, que nos últimos meses eu vivia relendo por conta da minha pesquisa. Unir tantos pontos de vista ao dele próprio me permitiu montar um mosaico imaginário, no qual muitas vidas influíram umas nas outras de maneira marcante.

Nos últimos dez anos, ao acompanhar as passeatas em sua homenagem, realizadas há 22 anos na capital paulista, me surpreende a espontaneidade e o vigor apaixonado dos fãs duas décadas depois de sua partida. Um ritual formou-se em torno do dia de seu falecimento, ocorrido em 21 de agosto de 1989 na cidade de São Paulo. A cerimônia de adeus no Anhembi foi conhecidamente apaixonada e conturbada pelo grande afluxo de pessoas. A passeata anual em tributo, ocorrida nessa data, dá-se não apenas como uma homenagem à sua obra, mas como uma extensão desse dia.

Mais de duas mil pessoas comparecem ao evento, independentemente das condições climáticas, reunindo-se a partir das 12 horas em frente ao Teatro Municipal, onde permanecem cantando em confraternização, com suas roupas customizadas com estampas do artista, tatuagens e bijuterias da chave da Sociedade Alternativa. Entre os adeptos, há um grande número de jovens misturados aos antigos fãs. Algumas famílias levam crianças, e diversos homens exibem uma aparência idêntica à do artista, atendendo por seu apelido “Raulzito”.

Por volta das 18 horas, saem em passeata cantando, enquanto se dirigem para a frente da Catedral da Sé, tomando toda a praça. Tradicionalmente penduram a bandeira da Sociedade Alternativa sobre a porta da igreja, enroscando-a nas estátuas dos santos que compõem a fachada, conferindo um aspecto visual sacroprofano à cena, talvez sem o perceber. Em 2005 um show foi oferecido durante a tarde, por um carro de som localizado atrás da Galeria do Rock; em outro ano não havia carro algum, e, nos três últimos, um carro-motocicleta, com um de seus cantores cover, sai em passeata e permanece em frente à igreja. A multidão segue cantando em coros formados ao acaso por diversos agrupamentos, e a entonação vocal vai subindo ao ritmo do consumo de bebidas.

O acaso e a espontaneidade são traços marcantes deste evento, aberto a quaisquer transeuntes. O comportamento dos fãs não apresenta rejeição ao passante mais desavisado do centro de São Paulo, todos são acolhidos ao grande movimento raulseixista, seguindo a intenção de seu homenageado: “Não adianta dizer as coisas para grupos pequenos, fechados. Minha música entra em todas as estruturas.” (SEIXAS, Kika, 1996, p. 59). A cantoria chama a atenção dos transeuntes, que se detêm por alguns instantes e, tomados pela curiosidade, perguntam o que está havendo.

A passeata transcende seu caráter de tributo e passa a ser a vivência concreta da Sociedade Alternativa, em que cada indivíduo é livre para agir como quiser, sob a única ressalva de não subjugar o outro. Ela não se dá apenas como um dia anual de imersão neste movimento, mas como seu tradicional dia festivo.

Outro traço marcante desse encontro é a ausência de respaldo comercial e midiático. Notadamente pouco divulgado pelos meios de comunicação e esquecido pelo aparato mercadológico, o tributo realizado por uma movimentação outsider tem uma atmosfera hippie, se dá como ato do povo, que toma as praças e ali permanece cantando e dançando em memória do artista. Um ritual mítico realizado em ciclos anuais, com alguns elementos tradicionais.

Um caldeirão levado por uma família figura com presença cativa em todos os eventos, e as muitas garrafas de vinho que o proveem não cessam de enchê-lo, porque ele passa a todos os interessados. Algumas chaves são confeccionadas artesanalmente em madeira e levantadas por mãos apaixonadas durante as canções; chamou-me a atenção um jovem que a transformou num violão imaginário enquanto dançava.

Alguns fatos dignos de nota ocorreram ao longo destes anos. Em meio ao movimento de 2009, encontrei uma colega frequentadora com um bebê, que me disse que o havia concebido após participar da passeata anterior, e que seu filho levava o nome do artista.

Há alguns anos, uma senhorita vestida “à la” anos cinquenta, com saltos altos e ar de reprovação, parou por alguns instantes e me perguntou o motivo da movimentação; ao responder-lhe que se tratava de um tributo, ela perguntou de que ele havia morrido, ao que lhe expliquei ter sido de uma parada cardíaca por já estar doente. Ela empinou o nariz, fez um bico em sinal de descrédito e, me fitando de cima a baixo, rodou os saltinhos e saiu pisando forte.

Em 2009, um dos “Raulzitos” distribuía folhetos impressos com sua própria foto, sobre o Viaduto do Chá, nos quais propagandeava a si mesmo como um homem à procura de um bom relacionamento, protestando que só “levava bota” das mulheres. No mesmo ano, um boneco inflável gigante do cantor figurava na Praça da Sé, e, em 2011, um boneco artesanal o representou.

Ainda em 2009, os moradores de rua do centro da cidade juntaram-se à massa cantando Raul, em número maior do que o habitual, por conta do fato de estarem sendo vítimas de violência. Se, desde o início de sua carreira, Raul havia se tornado um porta-voz do povo ao relatar seu cotidiano e as opressões sociais, em sua ausência, sua voz foi dotada de uma força mítica, sendo utilizada pelos fãs como grito de protesto, em passeatas e greves, pelos mais diversos motivos.

Seus fãs o têm como o grande amigo do povo, empatia que transcende qualquer direcionamento político, religioso ou futebolístico. Entre eles, muitos estudam sua história de maneira informal, viajam aos lugares que ele frequentou, ou colecionam imagens raras. Alguns, ainda, escrevem sobre ele, o desenham, ou são cantores cover; outros são camelôs que confeccionam bijuterias e camisetas. Longe das interpretações da mídia, eles se dispõem a esclarecer a longa série de lendas que correm a seu respeito.

Todos os anos observa-se grande afluxo de novos adeptos; jovens que não o conheceram juntam-se à massa tão apaixonados quanto os velhos fãs de frequência cativa.

O show
O Baú do Raul organizado por sua ex-esposa Kika Seixas em 2004, realizado tanto em São Paulo como no Rio de Janeiro, contou com a apresentação de diversos nomes da música, como Nasi, Pitty e seu último parceiro, Marcelo Nova.

Outro evento de grande impacto foi o palco Toca Raul, montado na Virada Cultural paulista em 2009, na Estação da Luz, no qual diversos amigos e cantores prestaram-lhe uma extensa homenagem de 24 horas de duração, interpretando todos os seus álbuns. O presidente de seu fã-clube oficial, Sylvio Passos; sua primeira banda, Os Panteras; seu ex-parceiro musical Edy Star e Tico Santa Cruz estavam entre os participantes. A homenagem, que relembrava as duas décadas de sua partida, foi batizada com a conhecida frase, gritada por fãs em qualquer show brasileiro: “Toca Raul!”. No Rock in Rio de 2011, a banda Detonautas cantou Metamorfose Ambulante.

Entre seus admiradores, enquanto alguns o têm como um visionário, os mais místicos conferem a ele um tom profético. Na cidade mineira de São Thomé das Letras, reduto de visitantes da cultura alternativa, ele goza de status de artista predileto, dividindo, em certa medida, o posto com seu amigo Zé Ramalho, que regravou muitas de suas canções, e com o cantor hippie Ventania.

Servindo-se do aparato tecnológico midiático de seu tempo, Raul desenvolveu uma obra culturalmente rica em bases místicas e filosóficas, cujo poder de comunicação, em linguagem simples, foi uma característica marcante. Hoje, em tempos de apelo comercial e avançada tecnologia eletrônica, uma parcela jovem se volta para ele em busca de traços culturais substanciais, redes sociais se formam para discuti-lo, e a internet abriga muitas de suas produções, disponibilizadas por amigos e fãs empenhados em socializar sua obra.

Comparado aos fenômenos de mídia observados na atualidade, o fato de o movimento raulseixista estar vivo, e ganhando força anualmente, é algo surpreendente diante da esparsa divulgação na imprensa oficial e das duas décadas de sua partida. Seu caráter extraoficial e alternativo é o que o faz explodir como um grito de liberdade em meio ao fluxo urbano da cidade. Sua aura libertária possibilita que todos se sintam à vontade para participar livremente. Levar a voz de Raulzito entre praças e prédios da cidade, cortando a rotina do sistema social, tem não só o ar de transgressão da ordem, tão arraigado em seu trabalho, como é uma tarefa de honra para os que, apaixonados, o trazem à tona.

Nas ruas de pedra da cidade de São Thomé, a sensação é outra, mais tranquila, pela natureza da paisagem, e impregnada pela aura mística e energética do local. À noite, pode-se ouvir sua música ecoando por entre as ruas rochosas, mais de mil e quatrocentos metros de altura, envolvido pela estrelada abóbada celeste, e deixar-se levar até um grupo que a está entoando sob a luz do luar. Isso confere uma atmosfera mágica à menos planejada das andanças.

Seus versos ganham vida diariamente, ao som das cordas de violão de qualquer jovem sentado no Cruzeiro, à hora do pôr do sol, enquanto turistas e moradores locais se reúnem para aplaudir a natureza. Diferente do eco urbano da metrópole, no reduto mineiro sua voz traz um tom menos próximo da rebeldia rocker, tomando a direção do que ficou popularmente entendido com a expressão “maluco beleza”. Embora a canção seja originalmente uma homenagem para os grandes iluminados espirituais como Jesus e Mahatma Gandhi, acabou por rotular o próprio artista e quaisquer adeptos de uma contracultura não datada. A Sociedade Alternativa ideológica vivenciada ali é indissociável da estonteante beleza da paisagem.

Em bares e peças de teatro, o ajuntamento raulseixista toma um aspecto mais rock’n’roll, mais próximo do underground. A Peça Raul Seixas Há Dez Mil Anos na Frente, da diretora Maria Tornatore, apresentada no SESC de Santos pelo grupo Arte no Dique contou com uma montagem belíssima. Teve a família de músicos Simonian realizando a trilha sonora, um jovem cantor do projeto cantando, e as crianças e adolescentes do mesmo tocando os tambores e realizando a percussão, sob a direção musical de José Simonian e Ubiratan Santos.

Raul fora escolhido como tema para o aniversário de três anos de formação do grupo, constituído pelos moradores da zona noroeste de Santos, área de mangue da cidade, cujo trabalho tem a função de gerar oportunidades a essa parcela economicamente pouco favorecida da população.

A festividade desdobrou-se em duas apresentações: na primeira, as mulheres da comunidade cantavam Cowboy Fora da Lei, e, na segunda, a apresentação da peça de teatro mostrou as intenções místico-filosóficas de Raul e seu reflexo na vida dos personagens. A encenação biográfica começou com os personagens de amigos e parentes do artista em Salvador e desenrolou a história narrando seus sucessos e insucessos ao longo dos anos, com ênfase na entrada da nova era, na chegada do trem das sete, e na metamorfose entre sua vida artística e pessoal.

Em São Paulo, o diretor Deto Montenegro, da Oficina dos Menestréis, apresenta anualmente a peça Raul Fora da Lei, ritmada por música e dança, interpretada por um elenco de jovens atores, que constantemente renova sua formação, conferindo uma atmosfera alegre e juvenil à encenação.

Ainda hoje me surpreendo ao reler suas entrevistas publicadas em que dá vazão às suas críticas e histórias fantasiosas, como esta concedida ao jornal O Pasquim, na qual alega ter visto um disco voador:

O Pasquim – E o Paulo Coelho, seu parceiro?

Raul Seixas – Eu conheci o Paulo na Barra da Tijuca, num dia que eu tava lá. Às cinco horas da tarde eu tava meditando.

Paulo também tava meditando, mas eu não o conhecia. Foi o dia que nós vimos o disco voador.

O Pasquim – Você pode falar nisso, já que tá na moda, todo mundo vendo disco voador de novo. Como é que foi isso?

Raul Seixas – Foi depois do FIC, em que eu cantei o Let Me Sing.

O Pasquim – Ano passado.

Raul Seixas – Cinco horas da tarde. Então eu vi. Enorme, rapaz, um negócio muito bonito. Inclusive os jornais levaram a coisa para o lado sensacionalista: O CARA QUE VIU DISCO VOADOR. “O profeta do apocalipse”, eu dei muita risada com isso. Mas não foi nada, foi um disco voador muito bonito.

O Pasquim – Dá pra descrever o disco?

Raul Seixas – Dá sim. Foi… era meio assim… prateado. Mas não dava pra ver nitidamente o prateado porque tinha uma aura alaranjada, bem forte, em volta.

Mas enorme, entre onde eu estava e o horizonte. Ele tava lá parado, enorme. O Paulo veio correndo, eu não conhecia ele, mas ele disse: “Cê tá vendo o que eu tô vendo?” A gente aí sentou, o disco sumiu num ziguezague incrível.

O Pasquim – Durou quanto tempo mais ou menos?

Raul Seixas – Uns dez minutos.

O Pasquim – Fazendo manobras?

Raul Seixas – Não. Parado, estático. O Paulo chegou e nós começamos a conversar, sentados. Foi como se a gente tivesse feito uma viagem no próprio disco. E vendo a problemática toda do planeta.

O Pasquim – A que você atribui essa aparição?

Raul Seixas – Não é aparição. Tava lá, real, palpável. Bonito.

O Pasquim – Não seria resultado da meditação?

Raul Seixas – Não, que nada.

O Pasquim – Qual foi o resultado que esse disco voador causou em você?

Raul SeixasOuro de Tolo pintou aí. Essa música. (PASSOS, 1993, p. 89).

Seu modo de se colocar contra a ordem estabelecida com bom humor torna aprazível relembrar muitos de seus feitos. Recentemente, pude apreciar um vídeo na internet no qual ele se pôs entre os transeuntes da Rua Sete, em Vitória do Espírito Santo, passando um chapéu, alegando estar imitando Raul Seixas, no ano de 1977. Fato esse não menos admirável do que ter saído às ruas do centro do Rio de Janeiro com seu violão, cantando Ouro de Tolo em meio ao povo, em 1973.

Depois de ser pega pela alegria melódica de O carimbador Maluco, tendo ganhado a fita em meu aniversário de quatro anos, esta foi minha música predileta por um longo período. Lembro de ter gostado de vê-lo cantando no videoclipe de Cowboy Fora da Lei tanto quanto havia apreciado vê-lo voando, anos antes, em O Carimbador Maluco.

Quando criança, eu que gostava de ouvir as histórias sobre sua carreira narradas por minha prima Luciana. Recordo-me do ponto decisivo para começar a estudá-lo, que ocorreu no dia do meu aniversário de treze anos: estando no local da festa com o aparelho de som, mas sem nenhum disco e há meses sedenta por ouvir Raul, liguei para ela perguntando se poderia levar sua maravilhosa coleção de vinis, ao que ela respondeu: “Claro”. Naquela noite só tocou Raul. Na mesma semana, saí atrás de livros sobre ele e comecei imediatamente a lê-los. Passando a procurar por seus discos naquele momento em que o CD era novidade, demorei anos para montar uma coleção, contando com a raridade de Sessão das Dez — gravada em fita caseira, que um colega encomendou ao pai, que trabalhava num navio, para me trazer de um estado distante —, do lançamento de Se o Rádio não Toca, e de outros dos quais esperei longamente pelo lançamento das gravadoras. Procurei Novo Aeon, do litoral até quase a divisa com o Mato Grosso do Sul, levando anos para adquiri-lo. E arrematei A Pedra do Gênesis em 2005, na Galeria do Rock, pela quantia que tinha no bolso, quatro reais a menos de seu preço, alegando ser fã ao benevolente dono da loja, que assim como eu também o era.

Contam mais de seis anos que eu estava na sala de espera de um médico acompanhando uma paciente, lendo um livro escrito por seus fãs, e um senhor que também aguardava ser chamado me disse quando me levantei: “Ele era assim mesmo”. Perguntei-lhe se ele o havia conhecido, e ele me respondeu: “Eu o conheci ainda moleque, o pai dele era engenheiro da estrada de ferro na Bahia e eu estive lá trabalhando com ele, e Raul o acompanhava, criança, espontâneo, era assim mesmo, não mudou nada”.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

PASSOS, Sylvio (Org.). Raul Seixas Por Ele Mesmo. Textos de autoria de Raul Seixas organizados postumamente. São Paulo: Martin Claret, 1993.

SEIXAS, Kika. Raul Rock Seixas. São Paulo: Globo, 1996.

Sobre a autora: Cibele Simões Ferreira Kerr Jorge é doutoranda em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), membro do grupo de pesquisa Comunicação e Cultura: Barroco e Mestiçagem e mestra em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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