Skip to content

Comunicação e In-comunicação

Comunicação e In-comunicação:

Identidade, Homogeneidade e Lógica Binária

 

Por Marlise Borges

 

* Texto baseado nas aulas do prof. Amálio Pinheiro, no mestrado e doutorado em Comunicação e Semiótica, na PUC/SP, em 2007, 2008, 2009, 2010 e 2011.

 

 

Em princípio, com uma necessidade de sobreviver às diferenças e às diversidades, o homem começou a criar imagens, mitos, religiões e a formular teorias que o ajudassem a sossegar sua intensa angústia e ansiedade. Era preciso, portanto, voltar sempre à uma “ordem” anterior, para que o ser humano não se transformasse em algo “ruim”, “deturpado”, “feio”, “distorcido”. O mundo precisava de algo mais “puro” e mais “original”. A partir deste pensamento, duas palavras surgiram e ganharam autonomia: “pureza e originalidade”. Logo depois, chegou-se finalmente em uma terceira palavra, hoje usada em demasia. Falo da palavra “identidade”. A identidade (aquilo que é idêntico a si mesmo) viria de algo substancialmente coeso e oralizado. Jesus Martin Barbero nos diz que:

 

O debate sobre a identidade continua em aberto na América Latina. As posições – misturados os seus significantes, mas entrincheiradas nos significados – já não tem a virulência dos anos 20-40, mas continuam alimentando a razão dualista com que se costuma pensar os processos sociais. (Barbero, 1997, pág. 260)

 

A separação deveria ser sempre um motivo para uma aproximação comunicacional. O interessante seria aproximar-se, exatamente, daquilo que não se sabe o que é, utilizando-se de vários modos de comunicação (a fala, a língua, a vestimenta, os costumes) para se dirigir ao outro, ao desconhecido. No entanto, embora soubesse que o relacionamento humano é feito de aproximação e separação, o homem não suportava a idéia da separação. Por isso, sempre houve uma tendência a esse contínuo estado de temor, que o fez buscar uma centralidade, um desejo à uma “unicidade interna”, causado pelo medo da morte, do envelhecimento, da destruição e de todos os tipos de perda e separação. O que o homem almejava, na verdade, era aquilo que Barbero (1997), chamaria mais tarde, de contraste entre dois mundos: ” o que se encontra em cima da experiência cotidiana da vida – mundo da felicidade e da luz, da segurança e da paz – e o que se acha embaixo, que é o mundo do demoníaco e do obscuro, do terror e das forças do mal”.

Mas esta tendência do ser humano de se afastar daquilo que é complexo, se arrasta por toda a história do pensamento ocidental. Uma “ordem” seria algo que estivesse mais próximo de uma “harmonia”, de uma “inteireza”, e de uma “coesão interna”. Seria o mundo ‘interno’ e deveria se separar do mundo ‘externo’, o mundo da “desordem”, da “desarmonia”, dos “equívocos”, dos “pecados” e das “deturpações”. Então, diante de uma enorme fraqueza, de não saber como explicar a vida e do caráter “insuportável” da consciência da morte, é que o homem começou a criar esta centralidade homogênea. Para ele, algo deveria ter sido ‘edêmico’, ‘paradisíaco’ e foi perdido. Era uma “ordem” perfeita e foi destruída. Era necessário, então, fazer voltar esta “ordem”, mesmo que fosse numa outra instância, posterior. Ou seja, sua enorme complexidade conviveu, e ainda convive, com uma enorme consciência de perda. Daí, o aparecimento de uma homogeneização das idéias, que fez com que o homem não conseguisse mais pensar fora de uma lógica binária, das idéias de fronteira, como: identidade x não-identidade, unidade x diversidade, centro x periferia, dentro x fora, espírito x matéria e outras dicotomias.

 

Pensar os termos das dicotomias fora das articulações e relações de poder que os unem, como primeiro passo para os libertar dessas relações, e para revelar outras relações alternativas que tem estado ofuscadas pelas dicotomias hegemônicas. (SANTOS, 2008, pág. 101)

 

Hoje existem várias pesquisas científicas, como as teorias antropológicas, arqueológicas, astrofísicas e outras, desmistificando essa tal “ordem” anterior. Segundo alguns estudos, quanto mais se aprofundam as investigações, mais se comprova que o que havia antes, a “ordem”, era, na verdade, mais “desordem”. E cada vez mais se tem consciência de que o universo, na falta de melhor conceituação, é ordem/desordem. Mas o homo sapiens sentiu a necessidade de criar para si um território protetor, para melhor estruturar seus modos de relacionamento cultural e político, onde ele não tivesse que incorporar os riscos da desordem. Foram então construídas linguagens, expressas nos modos de falar, cantar, se vestir, organizar famílias e outros. Linguagens de “centro”, que foram sendo estruturadas conforme essa “ordem” e que viriam a afirmar que quem está dentro deste “centro” está mais próximo de uma “essência” autoral que foi perdida. Daí, a necessidade de buscar uma unidade básica fora do real. Esta unidade, ou essência, seria uma espécie de sumo, que nunca pode ser tocado, e que estaria acima do concreto, no mundo espiritual. Segundo Pinheiro:

 

 

 

A tradição filosófica ocidental nos faz partir de diferenças entre identidades (essência e aparência, fenômeno e coisa em si, homem e natureza, signo e vida, obra de arte e cotidiano), para que depois se faça um esforço de aproximação e relação que não ultrapassa a dualidade: esta é viciada por uma diferença antropológica de princípio que, desde que o homem confrontou-se com a morte e adquiriu linguagem simbólica, opõe modelos abstratos (idéias, essências e estruturas) à concreção e à finitude multivalentes. Desde aí, o homem passa a “explicar” teoricamente o que não aceita nem relaciona radicalmente: a finitude diferenciada de tudo que é vivo, que irrompe histórica e cotidianamente nas inter-relações inter-grupais e interpessoais. Mas também a partir desse começo perde o homem a possibilidade de se ver incluído e de atuar num devir cósmico concreto que o transcende. (PINHEIRO, 1983, pág. 39).

 

Como já foi dito anteriormente, é preciso que haja diferenças e separações, para que haja comunicação. É a partir da distância, que “um” se dirige para o “outro”. Se há unidade ou ‘identidade’, não há possibilidade de diálogo, e diálogo (que vem da palavra dois) exige essa separação. Porque a comunicação só se dá na crise. Esta tendência à homogeneidade que o homem criou nestes centros protetores, instituindo estruturas sociais ditas “harmônicas” são, portanto, destrutivas para qualquer tipo de comunicação. Pois sabe-se que o universo não é harmônico. O universo é complexo e está em constante luta. E a complexidade supõe sempre a desarmonia e a crise. Há que se relacionar, sempre, a partir do aumento de contradições, pois uma sociedade sadia é aquela feita de risco e de dúvida, em contínua crise.

A ‘identidade’ elimina a crise. O antagonismo também elimina a crise. Uma tensão relacional é fundamental. Uma constante tensão, num estado de suspensão, onde nunca se sabe quando irá acabar. Porque o território do conforto traz in-comunicação. Há que se ter, portanto, um pensamento voltado para a não-exclusão das diferenças, das pluralidades, assim como a inclusão dessas diversidades na sociedade, na conduta, nos objetos e até no corpo, de tal maneira que não se procure mais distinguir como diverso, aquilo que é outro, e também não ver mais aquilo como algo uno, separado. Faz-se necessário repudiar o pensamento do homogêneo, assim como do heterogêneo. Não é diverso, nem heterogêneo e nem a unidade. Para Pinheiro (1983):

 

Quando um sistema, por aceitar a alteridade em si, teme descaracterizar ou fragmentar (perder o caráter sistêmico) o que o sintetiza e identifica como totalidade, tendo-se embora imposto a tarefa de ir além dos limites da dicotomia, tende a aceitar a alteridade não como diferença de outro em si que dinamiza e antagoniza o “em si mesmo” (que contesta o seu ser diferente) mas como diferença de outro exterior a si (que realça a alteridade como diferença sistemática e promove a identidade em si mesmo do um e do outro).( PINHEIRO, 1983, pág. 25)

 

Ao mesmo tempo, o homem tende a ser sagaz, inteligente, e desconfia, duvida, de suas próprias teorias. Ao desconfiar, ele ri, e esse mesmo riso o faz sofrer. Pois a risada é sempre alegria e sofrimento. A dúvida aflora sua inteligência e sensibilidade, mas o coloca numa crise. Crise produtiva, é bem verdade, mas que pode ser insuportável, a ponto de fazer com que ele se “enclausure” em teorias mais fáceis e simplificadas. Há uma tendência de se proteger o que se chama de “o lado de dentro”, que é a parte das estruturas protetoras do sistema e eliminar o território de contaminação com o “lado de fora”. Para que haja o riso, é preciso haver o atrito entre o dentro e o fora. Ou seja, todo riso é produzido por um choque entre o esperado e o inesperado. O riso é sempre um fenômeno bi-textual. Quando ri, o sujeito aprende a sair do homogêneo e a entrar no heterogêneo. O riso é sempre paródico, e a palavra “paródia” que vem do grego, significa “canto paralelo”. Tem a ver com diálogo, portanto. E só há diálogo quando existe uma modificação com o que foi dito anteriormente. Jesus Martin Barbero fala a respeito:

 

O riso popular é, segundo Bakhtin, uma vitória sobre o medo, já que surge justamente por tornar risível, ridículo, tudo o que causa medo, especialmente o sagrado – o poder, a moral, etc – que é de onde procede a censura mais forte: a interior. Enquanto a seriedade equivale ao medo, o prolonga e o projeta, o riso relaciona-se com a Liberdade. (BAKTHIN, apud BARBERO, 1997, pág. 95)

 

 

O humor, portanto, está presente em toda criação, incluindo a criação artística. Todo movimento artístico (que tem muito a ver com o movimento do riso), tem a ver também com a saída de “dentro” dessas esferas protetoras. O elemento paródico leva a este conflito divergente, dialógico, e obriga o sujeito a conviver com a crise, com este mosaico entre os opostos. Entre o sim e o não, uma treliça que digere o sim e o não e ao mesmo tempo supera essas dicotomias.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARBERO, Jesus Martin. Dos Meios às Mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro, Editora UFRJ, 1997.

PINHEIRO, Amálio. A textura: obra-realidade. São Paulo, Cortez; (Piracicaba): Universidade Metodista de Piracicaba, 1983.

 

SANTOS, Boaventura de Sousa. A Gramática do Tempo: para uma nova cultura política. São Paulo: Cortez, 2008.

 

Sobre a autora: Marlise Borges é jornalista, musicista, arte-educadora, mestre e doutoranda em Comunicação e Semiótica, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP.

1 Comentário »

%d blogueiros gostam disto: