O Gosto

O GOSTO

Neide Aparecida Marinho

 

 

A era do gosto tem sido sucedida pela era do sentido, e a questão central não é se algo é de bom gosto ou de mau gosto, mas sim o que exprime. E o significado depende de cada um. É plenamente aceitável algo ser arte sem ter qualquer relação com o gosto bom ou ruim. O gosto não se restringe aos julgamentos artísticos: existe o gosto por alguém, há gosto no ato da alimentação, na emoção, na moral e até a inteligência seria uma categoria de gosto pelas idéias.

 

As pessoas compreendem comumente o mundo sob suas próprias visões. Diariamente elas são estimuladas por fatos e ações que as levam a conceituar, classificar, julgar, sopesar, legitimar ou não uma situação de acordo com suas percepções daquilo que crêem ser verdadeiro e certo. Por isso mesmo, tendem a execrar, reprovar, desviar, abandonar tudo aquilo que acreditam ser uma ameaça a si e as suas vidas socialmente. Parece que o ser humano defende sua autopreservação, aquilo que lhe é de interesse, ou do que e de quem gosta, seja sua família, seus amigos, sua profissão, seus bens e principalmente a si.

E o sentimento que melhor define essa autopreservação é gostar, um verbo totalmente subjetivo que pode significar várias coisas, positiva ou negativamente. No dicionário da língua portuguesa é definido como:

 

Gostar
v. achar agradável ao gosto; apreciar; ter afeição, amizade, simpatia; ter gosto ou prazer em. Gosto
M.m um dos sentidos; sabor; faculdade de sentir e apreciar o belo e o bom; prazer, satisfação; preferência (Dicionário de usos do português do Brasil, 2002, p.778).

 

Como se pode observar gostar é um verbo de significados múltiplos e geralmente está ligado a prazer e preferências. É difícil discorrer sobre o gostar, como se fosse algo medido e pronto. O termo é tão relativo que chega a ter elasticidade. A escritora Tati Bernardi define gostar como “besta desenfreada”:

 

Cansei de quem gosta como se gostar fosse mais uma ferramenta de marketing. Gostar aos poucos, gostar analisando, gostar duas vezes por semana, gostar até as duas e dezoito. Cansei de gente que gosta como pensa que é certo gostar. Gostar é essa besta desenfreada mesmo. E não tem que pensar. E arrepia o corpo inteiro, mas você não sabe se é defesa para recuar ou atacar. Eu gosto de você porque gostar não faz sentido.
(BERNARDI, [200–]).

 

Ao nascer e descobrir a consciência, o bebê através de suas primeiras sensações tatéis como barulho, cheiro, gosto na boca, primeira imagem ainda turva das coisas e pessoas, vai aprendendo a separar o que gosta daquilo que não o desafia e traz prazer. É esse sentimento de outrora, de satisfação e prazer que o ser humano procura todo o resto de sua vida.

E gosto é algo tão flexível que se pode abondonar ou aprender a qualquer momento e inúmeras vezes. Este artigo enfoca alguns conceitos de gosto sob vários pontos de vista.

Para Kant (1995, ps. 48 e 139), a definição de gosto é “a faculdade do julgamento do belo”. Mas “o que é requerido para denominar belo um objeto, isso a análise dos juízos de gosto tem de descobrir”. Segundo ele, o juízo de gosto não é lógico (pautado na razão), mas estético e subjetivo. Kant também define o gosto
como sensus communis, isto é, que se encontra por toda parte.

Luiz Camillo Osorio (2005) distingue “gosto” na definição de Kant e “juízo estético”. Para ele o sentido de “gosto” é coletivo, refere-se a um quadro de referências que se forma através da participação e circulação num grupo social. O “juízo estético”, por sua vez, é a expressão de um “eu” que pensa por si mesmo, mas que também sabe se colocar na posição dos outros.

Segundo explica Osorio:

 

No movimento entre um ‘eu’ que pensa e um ‘nós’ que ajuíza, vai se formando o que Kant denomina gosto, que nada mais é do que a constituição de parâmetros para comparação. Ter um gosto é ter um quadro de referência a partir do qual cada um vai se habilitar a julgar. A formação do gosto vai se dar com a participação e a circulação no espaço público em que se produzem os juízos. […] O gosto é simplesmente uma faculdade de ajuizamento e não uma faculdade produtiva (OSORIO, 2005, p.36-38).

 

 

Se gosto é uma faculdade de ajuizamento, o pensamento do dramaturgo Carlo Goldini coaduna com o gosto despretensioso. Para ele, “discutir gostos é tempo perdido; não é belo o que é belo, mas aquilo que agrada.”

Existe também o gosto de amar, de gostar de alguém. Mário Quintana tem um poema chamado “Aprenda a gostar de você” que expressa bem este sentido de gostar:

Aprenda a gostar de você, a cuidar de você e, principalmente, a gostar de quem também gosta de você… A idade vai chegando e, com o passar do tempo, nossas prioridades na vida vão mudando… A vida profissional, a monografia de final de curso, as contas a pagar… Mas uma coisa parece estar sempre presente… A busca pela felicidade, com o amor da sua vida. Desde pequenas ficamos nos perguntando “quando será que vai chegar?” E a cada nova paquera, vez ou outra nos pegamos na dúvida “será que é ele?”. Como diz meu pai: “nessa idade tudo é definitivo”, pelo menos a gente sempre achava que era. Cada namorado era o novo homem da sua vida. Fazíamos planos, escolhíamos o nome dos filhos, o lugar da lua-de-mel e, de repente… PLAFT! Como num passe de mágica ele desaparecia, fazendo criar mais expectativas a respeito “do próximo”. Você percebe que cair na guerra quando se termina um namoro é muito natural, mas que já não dura mais de três meses. Agora, você procura melhor e começa a ser mais seletiva. Procura um cara formado, trabalhador, bem resolvido, inteligente, com aquele papo que a deixa sentada no bar o resto da noite. Você procura por alguém que cuide de você quando está doente, que não reclame em trocar aquele churrasco dos amigos pelo aniversário da sua avó, que jogue “imagem e ação” e se divirta como uma criança, que sorria de felicidade quando te olha, mesmo quando você está de short, camiseta e chinelo. A liberdade, ficar sem compromisso, sair sem dar satisfação, já não tem o mesmo valor que tinha antes. A gente inventa um monte de desculpas esfarrapadas, mas continuamos com a procura incessante por uma pessoa legal, que nos complete, e vice-versa. Enquanto tivermos maquiagem e perfume, vamos à luta… E haja dinheiro para manter a presença em todos os eventos da cidade: churrasco, festinhas, boates na quinta-feira. Sem falar na diversidade, que vai do Forró ao Beatles. Mas o melhor dessa parte é se divertir com as amigas, rir até doer barriga, fazer aqueles passinhos bregas de antigamente e curtir o som… Olhar para o teto, cantar bem alto aquela música que você adora. Com o tempo, você vai percebendo que para ser feliz com uma outra pessoa, você precisa, em primeiro lugar, não precisar dela. Percebe também que aquele cara que você ama (ou acha que ama), e que não quer nada com você, definitivamente não é o homem da sua vida. Você aprende a gostar de você, a cuidar de você e, principalmente, a gostar de quem também gosta de você. O segredo é não correr atrás das borboletas… é cuidar do jardim para que elas venham até você. No final das contas, você vai achar não quem você estava procurando, mas quem estava procurando por você! ” (MARIO QUINTANA, [200–]).

 

Como o poeta Mário Quintana, falar sobre o gostar de alguém é pura poesia na palavra de quem ousa. Para Meraluz o gostar é despretensioso, livre, simples e definitivo:

 

A gente olha, a gente gosta e fim. Não precisa de porquês, nem de previsões, nem de instruções. Não é operação cerebral, intelectual ou qualquer outra que se deixe comandar pelos ditames da razão. Mas feliz de quem, nesse mundo programado para títeres assépticos, ainda pode, despretensiosamente, gostar de alguém ou de alguma coisa, sem associá-los a uma função perfeita, a uma relação de causa e efeito ou de competitividade. Gostar por gostar (MERALUZ, 2005).

 

 

O gostar espontâneo não inclui posse, é um simples exercício de liberdade. Não é obrigatório possuir aquilo que se gosta. Meraluz ressalta ainda que:

 

É impossível determinar o conjunto de fatores e motivações que revestem o “gostar” de alguém. Gostar não é um ato, não é uma decisão, muito menos uma imposição. Não importa se esse gosto é conveniente ou não, se é sensato ou não, se é profícuo ou não. Experimentar essa sensação, por si, já é uma forma de felicidade. O que pode gerar frustrações, a partir de um gosto, é começar a perseguir a coisa/pessoa gostada, de modo a aprisioná-la em um contexto. As manifestações espontâneas da alma não devem ser conduzidas pela idéia de posse. A gente gosta de estrelas, de sol, de lua, de céu azul sem precisar possuí-los. Com o tempo, é natural que gostemos cada vez mais de menos coisas/pessoas. Não deveria ser assim. Mas é… Porque o tempo nos torna seletivo e acaba sofisticando, talvez, o complexo de fatores que interferem no gostar. O tempo, também, com suas repetições de fatos e fenômenos, nos faz ver que este ou aquele gostar equivoca-se, sendo muitas vezes um mero capricho ou uma fantasia confundidos com o livre gostar, desprovido de contaminações. Porém, por mais que o tempo estabeleça suas filtragens, ele nada pode contra esse sentimento, tecido com fios de liberdade e de despojados desejos. Gostar é simples como um espirro, um aceno, um suspiro, um espasmo. O que complica o gostar é não gostar de gostar ou vedar essa livre sensação com expectativas em demasia. Cada gosto anda livre por seu próprio caminho, até criar sua história ou, após cumprir seu tempo de permanência, deixar de existir ou dar lugar a novos gostos (MERALUZ, 2005).

 

 

As expectativas são as maiores inimigas do gostar quando não são reais. Elas se tornam um entrave no desejar despretensioso, tornam-se posse e aprisionam o querer como algo que não se deve contrariar. O gostar amoroso é talvez além de ser o mais sublime, o mais traiçoeiro de todos os gostos.

Não menos importante, existe o gostar saboroso, aquele que se aprecia em uma mesa esteticamente bem montada    . A palavra deriva do francês “deguster” e surge no início do século XIX. Ela indica que o gosto não é algo imediato e irrefletido. Mas por que não confiar na primeira sensação que o paladar sugere? Como e por que se passa do gosto/não gosto imediatamente, para o gostar reflexivo? (DÓRIA, 2007).

Para o sociólogo Dória (2007), “hoje, sabe-se que as papilas são mais sensíveis e versáteis do que se imaginava e que a nova língua que lambe o mundo não se situa apenas dentro da boca.” Segundo Hervé This a nova fisiologia do gosto não se enraíza apenas no paladar, para ele:

 

Ela reconhece os demais sentidos como instrumentos de apropriação das qualidades dos alimentos (cor, aroma, textura, temperatura; e a “crocância”, que convoca, ao mesmo tempo, o tato e a audição) de modo a constituir uma noção complexa, em que o paladar já não é necessariamente o primeiro solista da orquestra (HERVÉ THIS apud DÓRIA, 2007).

 

 

Dória defende que não se come mais o que se gosta, a função comer é só a um tempo função nutricional e função estética. Para ele:

 

A filosofia baseada na moderna fisiologia do gosto o indivíduo é portador de sentidos flutuantes, flanantes, que já não podem se fiar em “instintos” ou em tradições que nos enganam não porque sejam fisiologicamente falhos, mas porque são socialmente instáveis. Se o cálculo de calorias aprofunda a nossa feição de máquinas biológicas, o trabalho sobre a cor, a forma, a textura, o aroma do que vai à boca, aponta para um outro valor que emerge como experiência estética associada ao comer (DÒRIA, 2007).

 

Como o próprio Ferran Adrià apud Dória (2007) descreve, “a cozinha é uma linguagem mediante a qual se pode expressar harmonia, criatividade, felicidade, beleza, poesia, complexidade, magia, humor ou provocação”. Assim, o gostar saboroso emerge como experiência estética enraizada ao comer.

Outro sentido de gostar é a faculdade de sentir e apreciar o belo e o bom, o gostar de arte por exemplo. Mas dizer que algo é belo e bom é relativo, porque nem tudo que é belo e bom para alguém o é para outros.

Existem artistas plásticos que acreditam que gostar de arte não é adquirir profundos conhecimentos sobre ela ou se deter em pensamentos; não é preciso sabê-la como expressão de um indivíduo ou grupo. É o caso do artista plástico Urbano da Cruz que define as artes como uma linguagem, e para ele, gostar de arte:

 

Para simplesmente gostar de arte é preciso gostar de pontos, linhas, formas, manchas, texturas, figuras, superfícies, cores… Há que se despir de preconceitos, há que deixar um pouco o raciocínio de lado e ser conduzido por um dos nossos multi-sentidos, ser tocado pela curiosidade, se confundir, gostar por gostar, sem preocupações ou julgamentos (CRUZ, 2009).

 

 

Conforme Urbano da Cruz, para gostar de arte é preciso deixar a própria visão se guiar, sem tentar compreender o que viu o artista ou o porquê do mesmo ter realizado a obra.

 

A comunicação entre a obra e o observador faz-se por momentos de se sentir, goste com o seu observar, deixe o conjunto dos processos dessa elaboração da obra para o artista e o porquê do artista, seja livre ao ver uma obra e abra a sua mente. Quando se tem inclinação por uma coisa tem-se a tendência de não se gostar de outras diferentes dessa, liberte-se dessa inclinação, abra mais a sua visão, observando com mais atenção aquilo que você não gosta, veja como aos poucos, a sua inclinação abrange um gosto mais aberto e diferente. Goste com o coração aberto. A evolução é o melhor que o ser humano tem na sua passagem pela terra! (CRUZ, 2009).

 

Consoante Manuela Morais (2006) “com o conceito de gosto, o belo passa a enraizar na subjetividade humana que, no limite, se define pelo prazer que proporciona, pelas sensações ou sentimentos que suscita no homem encarnado.”
[…] O novo homem de gosto é aquele que institui e extrapola a moda, ao mesmo tempo que esta se torna geral, exercendo o gosto uma função ética numa comunidade cujos valores são incertos e imprecisos.

Morais (2006) ressalta que a partir de Baudelaire, “o gosto não é mais incompatível com o desgosto repugnante e implica a possibilidade de ir contra a corrente da beleza oficial.”
O objetivo de Baudelaire é o “belo bizarro”, obra da tarefa e da idealização de uma “sensibilidade nervosa”. “O homem de gosto é mais sensível à fealdade/deformidade e à dissonância cuidadosamente evitada pelos seus predecessores.” Esta propensão exacerba-se no século XX tornando o gosto desconhecido de artistas como Picasso, Stravinsky ou Brecht. Deste modo, por exemplo, o quadro Guernica foge à condição do gosto, na medida em que a arte se separa da beleza para arrostar o sublime que Kant tinha alocado para a contemplação da imensidão e onipotência da natureza.

Para Morais, hodiernamente a arte tem origem na subjetividade intersubjetiva, porque sem critérios e sem um mundo universal, existem apenas estilos individuais:

 

Consequentemente, para numerosos artistas a sua tarefa não se define pela descoberta de um mundo estranho a si, denotativo, mas pela auto-descoberta do seu mundo, conotativo, na medida em que a obra é entendida como uma extensão do sujeito. Segundo Kandinsky, esta atividade pressupõe um afastamento do mundo exterior para permitir a expressão da mais “pura vida interior”. Assim, no domínio da arte, vivemos numa ambiência que se assemelha ao perspectivismo nietzschiano, visto que as obras de arte são outros tantos mundos perspectivados que apenas representam o mundo anímico singular do seu criador. No entanto, outros artistas podem desejar, classicamente, revelar nas suas obras a verdade ou o ser. A história da estética pode ser comparada,em geral, a um longo e gradual processo de esquecimento do mundo objetivo, unívoco e evidente e de rememorização da subjetividade humana que se expressa indiscutivelmente, numa linguagem feita de experiências vividas em que o gosto não participa. Apesar das diferentes tentativas de restauração do seu valor no século XX, o gosto jamais reencontrou o lugar preponderante que ocupou na reflexão estética do século XVIII. Hoje, o conceito não é utilizado em crítica de arte , aplicando-se, por exemplo, ao contexto dos decors das cenas teatrais e cinematográficas (MORAIS, 2006).

 

 

O mau gosto artístico que é contrário daquilo que os artistas definem como bom gosto, nada mais é, do que um outro enfoque dado às diferentes expressões das artes. E não é o gostar que vai definir uma produção como obra de arte ou não. O gosto é extrínseco a uma obra de arte. Porém, se o conceito sobre obra de arte é ajuizado em parâmetros pré determinados e sobre determinadas medidas, aí sim, pode-se dizer que existem obras de artes de bom gosto e mau gosto. “Algo que deriva da reação irritada a algumas desproporções patentes, a algo que parece fora do lugar”, como diz Umberto Eco:

 

a gravata verde sobre um terno azul, a observação impertinente feita no ambiente menos adequado (e aqui o mau gosto, no plano do costume, torna-se gafe e falta de tato) […] nesses casos, o mau gosto é individuado como ausência de medida; mas resta, em seguida, definir as regras dessa “medida”, e então nos damos conta de que elas variam com as épocas e civilizações (ECO, 1979, p.69-70).

 

 

Para Umberto Eco (1979, p.70) “fora de medida será prescrever às pessoas enlutadas, mediante determinada estátua, os modos e a intensidade da dor, ao invés de deixar ao gosto e ao temperamento de cada um a possibilidade de articular seus sentimentos mais autênticos.” Eco esclarece que a definição do mau gosto em arte vai aparecer colocando de lado a referência a uma medida, mas como “prefabricação e imposição do efeito”, e que será apropriada do termo alemão kitsch.

São palavras capazes de combinar com um pingüim de geladeira ou uma lava-lamp. O pingüim na década de 1990 voltou como um símbolo cool do design de interiores.

O teórico da arte Abraham Moles citado por Carlos Ceia (2005), diz que kitsch significa “fazer objetos novos com os velhos”. Outros dizem que o termo quer dizer simplesmente lixo. Alguns dizem que o termo era usado por pintores de Munique, quando se referiam a tintas de baixa qualidade. Um dicionário de alemão define kitsch como sendo simplesmente sinônimo de cafona e brega. Definições estas obscuras.

A partir do contexto cafona e brega, a palavra evoluiu em sentido negativo e genericamente, de arte de imitação e de mau gosto. Kitsch é um termo internacional e emprega-se em todos os campos da produção artística, desde as artes plásticas até a literatura, música e artes decorativas. É uma invenção da sociedade de consumo e mais de que uma denominação estética significa uma atitude diante da vida que eleva o prazer fugaz da não-permanência.
 

 

De um ponto de vista estético, kitsch é uma arte eclética cujo princípio estrutural é mais acumulativo de que arquitetônico. Kitsch favorece a abundância, o elemento decorativo, a não-funcionalidade e a trivialidade. Produzido para ser vendido, kitsch adapta-se ao gosto do público, estimulando uma emocionalidade cômoda, perto do sentimentalismo. Em termos de recepção, kitsch é de assimilação fácil: gratifica as expectativas do consumidor e assenta numa medianidade de gosto que os mass media e a publicidade simultaneamente produzem e satisfazem. Na medida em que o kitsch é conscientemente aproveitado por correntes artísticas (arte Pop) ou grupos específicos (camp), o termo vai perdendo o seu poder contrastivo de “arte”. Ao promover o kitsch à arte e a equacionar arte com kitsch, tais correntes colocam em questão as tradicionais distinções entre “arte elevada” e “arte popular”. Em última análise, kitsch pergunta pelo valor ético do objeto estético e repõe a questão romântica da transcendência da arte em termos imanentes e relativos (CEIA, 2005).

 

No fundo somos todos Kitschs sem nem sabermos, involuntariamente ou por convicção. Para Polzonoff Jr. (2005) “o kitsch é o mal cultural do século 20 que o século 21 herdou. Fugir dele é tão necessário quanto inútil”. Teorias à parte, o fato é que a sociedade contemporânea está impregnada do kitsch:

 

 

Rosas de plásticos, suvenires da viagem à Europa, pochete na cintura, cor-de-rosa-choque. Mas não é só do óbvio que vive o kitsch. Para Olney Krüse, até a rainha Elisabeth é kitsch, quando usa aquela luvinha branca cheia de babados. O kitsch está ainda no melodrama das telenovelas, nos poemas parnasianos, nos discursos ufanistas, no rock, nos desfiles de moda e nos fardões da Academia Brasileira de Letras (POLZONOFF JR., 2005).

  

Exemplos clássicos do Kitsch como flores e frutas de plásticos, pingüins de geladeira, peles de oncinha, sapatos plataforma, anões de jardim, tatuagens cobrindo todo o corpo, coleção de canecas de porcelana
e outros, o fato é que todos nós cultuamos algum ou vários objetos Kitsch; seja arte ou não, o gosto e o prazer não são apropriações da arte clássica e do politicamente correto.

Para Melissa Croceti
(2010), “a questão principal é que o kitsch é sinônimo de bom humor e não há crítico que consiga desmoralizar a irreverência dos objetos ou das personalidades.”

Jornalista, fotógrafo e crítico de arte do Brasil, Krüse citado por Croceti (2010), define kitsch como “sendo a gota de bom humor que faltava na arte séria, uma a busca da infância, da inocência perdida.”

Como comenta Polzonoff Jr.:

 

Ao que parece, o termo kitsch só não causa nenhuma estranheza quando relacionado à nostalgia. De algum modo, somos condescendentes com aquilo que é brega, cafona e culturalmente pobre, se estivermos ligados emocionalmente a ele. Os quadros da Santa Ceia herdados da avó, a multicolorida capa de botijão de gás, os sapatos plataforma com lantejoulas, as músicas de Odair José e Cauby Peixoto – tudo o que de uma maneira geral reprovamos em nossas discussões intelectualizadas ganham um verniz de extremo bom gosto quando ligado à inocência da infância (POLZONOFF JR., 2005).

 

Croceti (2010) entende que a melhor definição para Kitsch “é tudo que é tão brega, tão brega, tão brega, que fica legal.” Para ela não tem nada mais kitschíssimo do que os voluptuosos vestidos, monocromáticos, da carismática senhora Hebe Camargo. Por isso, Hebe foi a madrinha da mostra Viva o Kitsch, que apresentou 2.126 peças no Museu de Arte de São Paulo, Masp. “Mas não se engane, kitsch é uma forma de arte, um segmento cultural e erroneamente é confundido como sinônimo de cafona.”

Outro fato curioso é que a chamada “cultura superior” também passou por um processo de “kitschnização” nas últimas décadas:

 

Numa grande inversão de valores, passou a ser considerado de extremo mau gosto a arte feita nos moldes clássicos. Deste modo, não só as imitações do barroco e do rococó, como os barrocos e rococós autênticos passaram a ser considerados bregas. O mesmo serve para obras renascentistas e até mesmo impressionistas. Um fenômeno que foge ao efeitismo do kitsch (POLZONOFF JR., 2005).

 

Outra particularidade dessa cultura é o desprezo ao vazio. É preciso continuamente preencher os espaços com objetos e o tempo com acontecimentos:

 

Kitsch é tudo: uma grande arte kitsch – o pompierismo do século XIX, de um lado, o Realismo Socialista e a arte oficial dos regimes autoritários, de outro -, ou uma arte popular kitsch. A política, o comportamento, a literatura ou o mobiliário podem ser kitsch, depende apenas do momento, da combinação e das condições. É a típica palavra que sempre é usada no superlativo. Mas o kitsch não existe na natureza, é uma invenção do homem. “O pavão solto é uma maravilha, agora na cabeça do Clovis Bornay ou da Elke Maravilha, passa a ser kitsch”. (CROCETI, 2000/2004).

 

 

O mais enfático no kitsch é sua leveza crítica e engraçada, uma forma diferente e leve de catarse esclarecedora de coisas tão pesadas e até violentas, como nossa política brasileira. Sinônimo de Alienação, ignorância ou não, o kitsch é a própria comunicação mundial que com muita facilidade alcançou o Brasil:

No fundo somos todos Kitschs sem nem sabermos, involuntariamente ou por convicção. Para Polzonoff Jr. (2005) “o kitsch é o mal cultural do século 20 que o século 21 herdou. Fugir dele é tão necessário quanto inútil”. Teorias à parte, o fato é que a sociedade contemporânea está impregnada do kitsch:

 

Rosas de plásticos, suvenires da viagem à Europa, pochete na cintura, cor-de-rosa-choque. Mas não é só do óbvio que vive o kitsch. Para Olney Krüse, até a rainha Elisabeth é kitsch, quando usa aquela luvinha branca cheia de babados. O kitsch está ainda no melodrama das telenovelas, nos poemas parnasianos, nos discursos ufanistas, no rock, nos desfiles de moda e nos fardões da Academia Brasileira de Letras (POLZONOFF JR., 2005).

Exemplos clássicos do Kitsch como flores e frutas de plásticos, pingüins de geladeira, peles de oncinha, sapatos plataforma, anões de jardim, tatuagens cobrindo todo o corpo, coleção de canecas de porcelana
e outros, o fato é que todos nós cultuamos algum ou vários objetos Kitsch; seja arte ou não, o gosto e o prazer não são apropriações da arte clássica e do politicamente correto.

Para Melissa Croceti
(2010), “a questão principal é que o kitsch é sinônimo de bom humor e não há crítico que consiga desmoralizar a irreverência dos objetos ou das personalidades.”

Jornalista, fotógrafo e crítico de arte do Brasil, Krüse citado por Croceti (2010), define kitsch como “sendo a gota de bom humor que faltava na arte séria, uma a busca da infância, da inocência perdida.”

Como comenta Polzonoff Jr.:

 

Ao que parece, o termo kitsch só não causa nenhuma estranheza quando relacionado à nostalgia. De algum modo, somos condescendentes com aquilo que é brega, cafona e culturalmente pobre, se estivermos ligados emocionalmente a ele. Os quadros da Santa Ceia herdados da avó, a multicolorida capa de botijão de gás, os sapatos plataforma com lantejoulas, as músicas de Odair José e Cauby Peixoto – tudo o que de uma maneira geral reprovamos em nossas discussões intelectualizadas ganham um verniz de extremo bom gosto quando ligado à inocência da infância (POLZONOFF JR., 2005).

 

Croceti (2010) entende que a melhor definição para Kitsch “é tudo que é tão brega, tão brega, tão brega, que fica legal.” Para ela não tem nada mais kitschíssimo do que os voluptuosos vestidos, monocromáticos, da carismática senhora Hebe Camargo. Por isso, Hebe foi a madrinha da mostra Viva o Kitsch, que apresentou 2.126 peças no Museu de Arte de São Paulo, Masp. “Mas não se engane, kitsch é uma forma de arte, um segmento cultural e erroneamente é confundido como sinônimo de cafona.”

Outro fato curioso é que a chamada “cultura superior” também passou por um processo de “kitschnização” nas últimas décadas:

 

Numa grande inversão de valores, passou a ser considerado de extremo mau gosto a arte feita nos moldes clássicos. Deste modo, não só as imitações do barroco e do rococó, como os barrocos e rococós autênticos passaram a ser considerados bregas. O mesmo serve para obras renascentistas e até mesmo impressionistas. Um fenômeno que foge ao efeitismo do kitsch (POLZONOFF JR., 2005).

 

Outra particularidade dessa cultura é o desprezo ao vazio. É preciso continuamente preencher os espaços com objetos e o tempo com acontecimentos:

 

Kitsch é tudo: uma grande arte kitsch – o pompierismo do século XIX, de um lado, o Realismo Socialista e a arte oficial dos regimes autoritários, de outro -, ou uma arte popular kitsch. A política, o comportamento, a literatura ou o mobiliário podem ser kitsch, depende apenas do momento, da combinação e das condições. É a típica palavra que sempre é usada no superlativo. Mas o kitsch não existe na natureza, é uma invenção do homem. “O pavão solto é uma maravilha, agora na cabeça do Clovis Bornay ou da Elke Maravilha, passa a ser kitsch”. (CROCETI, 2000/2004).

 

 

O mais enfático no kitsch é sua leveza crítica e engraçada, uma forma diferente e leve de catarse esclarecedora de coisas tão pesadas e até violentas, como nossa política brasileira. Sinônimo de Alienação, ignorância ou não, o kitsch é a própria comunicação mundial que com muita facilidade alcançou o Brasil:

Para Krüse o melhor do kitsch está da época dos Beatles para cá. “Dos 60 aos 90, foram 30 anos de esplendor. A gente gargalha. Os Beatles revolucionaram tudo de maneira kitsch”. Mas Chacrinha, Falcão, Carla Perez, Adriane Galisteu e Caetano Veloso também não escapam de sua denominação. “Até a Gisele Bündchen é kitschíssima. Peituda, um exagero. Ela é uma falsa gostosa. Acho que o José Simão, da Folha de S. Paulo, acertou em cheio ao dizer que ela é um chester: tem muito peito. Mas por que a gente gosta? Porque o kitsch é uma coisa feita pra gente sonhar, como se não houvesse problema no mundo. É a busca desesperada pela felicidade. Pode ver isso nas músicas, nos boleros, tangos, Eva Perón, Madonna, Hilary Clinton, e por aí. Os brasileiros Fernando e Humberto Campana também não escapam do rótulo. “Por exemplo, se alguém faz uma casa em formato de bota, ela é kitsch. E eles fazem muito isso. Não sei se eles têm consciência disso, mas são. E devem achar que é o oposto, que é clean” (CROCETI, 2000/2004).

 

 

 

O gosto pode ser tudo ou pode ser nada, a realidade é que pode se gostar de inúmeras coisas. O gostar é o único sentimento que ninguém pode tirar de você, ele é único e seu. Sinônimo de prazer fugaz sim, porque também a vida é não permanente. É brega e cafona sim, porque o conceito de brega e cafona é de quem não gosta. E o fato é que todo mundo gosta de alguma coisa ou de alguém.

“Se tem gosto pra tudo” o Brasil é campeão desse “tudo”. Afinal, com a mestiçagem cultural, convergências e tendências combinaram-se e o gosto foi se aperfeiçoando de acordo com a roupa, a comida, a bebida, a casa, a rua, o som e as cores… de cada um.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BERNARDI, Tati. Cansei de quem gosta como se gostar. Disponível em <Http://www.pensador.uol.com.br> Acesso em 23 set 2011.
BORBA, Francisco S. Dicionário de usos do português do Brasil. São Paulo: Ática, 2002.
CEIA, Carlos. E-Dicionário de Termos Literários. 2005. ISBN: 989-20-0088-9 Disponível em <Http://www.fcsh.unl.pt/invest/edtl/verbetes/K/kitsch.htm> Acesso em 23 set 2011.
CROCETI, Melissa. Viva o Kitsch! 2010. Disponível em <http://www.melissacrocetti.wordpress.com/2010/07/14/viva-o-kitsch/Em cache-> Acesso em 23 set 2011.
CRUZ, Urbano da. Como gostar das artes plásticas!
2009. Disponível em: <Http://www.urbanodacruz.blogspot.com/> Acesso em 23 set 2011.
DÓRIA, Carlos Alberto. A construção de uma Razão Degustadora é o guia iluminista para o consumo moderno do alimento. 2007. Disponível em: <Http://www.p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2886,1.shl> Acesso em 23 set 2011.
ECO, Umberto. Apocalípticos e Integrados. São Paulo: Perspectiva, 1979.
GOLDONI, Carlo. Discutir gostos é tempo perdido. Disponível em <Http://www.pensador.uol.com.br> Acesso em 23 set 2011.
KANT, Immanuel. Crítica da faculdade de juízo. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995.
MERALUZ, Márcia Cardoso. Gostar. 2005. Disponível em: <Http://www.quelquechose.net/qq/arquivos/000106.html> Acesso em 23 set. 2011.
MORAIS, Manuela. Juízo de gosto. 2006. Disponível em: <Http://www. filosofiadaarte.no.sapo.pt/gosto.html> Acesso em 23 set 2011.
OSORIO, Luiz Camillo. Razões da crítica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.
POLZONOFF JUNIOR, Paulo. O mundo impregnado pelo kitsch. Revista Continente. Ed. 52, abr / 2005. CEPE: Recife – PE. Disponível em: <www.revistacontinente.com.br/index.php?option=com…view…> Acesso em 23 set 2011.

Sobre a autora: Doutoranda em Comunicação e semiótica pela PUC/SP. Mestre em Arte e Tecnologia da Imagem – UnB/DF. Especialização em Cultura e Arte Barroca – UFOP/MG. Graduada em Educação Artística/Artes Plástica – UFJF/MG. Professora de licenciatura dos cursos de Artes e Design e Pedagogia- UFJF/MG.