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Meninos Depilados Não Têm Medo de Meninas Peludas

Por Silvia Regina

Beto estava sentado com suas bermudas muito largas no banco do ponto de ônibus em frente à faculdade. Chegou quando ainda não havia ninguém para fazer-lhe companhia na longa espera já conhecida do 3160-M.

Início de tarde e o sol ainda estava alto. Ele tentou relaxar aproveitando a brisa fresca que se arremessava contra ele, refrescando-lhe as axilas lisas e delgadas pelas mangas curtas da camiseta. Tentou rebater o suor do rosto molhando a mão e levando a água gelada de sua inseparável garrafinha térmica, de metal fosco e tampinha vermelha, caríssima, às faces.

Abriu a carteira, e no espelho, posicionado cuidadosamente no compartimento para fotografias, se olhou e notou suas bochechas mais vermelhas que o normal. “Esse calor ainda me mata!” – pensou. “Preciso de uma água de coco. Onde estão os ambulantes quando desejamos a presença deles?”

Resolveu refrescar também as pernas lisas e lustrosas, dosando a água novamente na palma da mão, de unhas delicadas, cuidadosamente recobertas por uma camada de base para unhas fracas. Depois, despojado, derramou algumas gotas da água no peito pela gola da camiseta, sentindo um arrepio correr-lhe pelas costas, o fazendo sorrir.

Pouco tempo depois, uma garota que Beto nunca tinha visto aproximou-se do ponto e, timidamente, sentou-se ao lado dele, segurando o caderno grosso, recém comprado.

Sem olhar diretamente para ela, ele ficou reparando em seus movimentos fortes, mas com um certo jeitinho de freira que sempre o encantava em algumas mulheres. Ficou ali admirado reparando em seus cabelos que escorriam serenos pelos ombros, levemente ossudos, que demonstravam as saboneteiras tão comumente cantaroladas e retocadas por músicos e artistas plásticos.

Seus olhos se perderam nas curvas bonitas dos seios da desconhecida. Estes estavam declaradamente fora dos bojos do sutiã naquele dia. “Provavelmente para serem admirados”-, pensou Beto, quase que escondendo de si mesmo o pensamento. Eles faziam um volume bonito por baixo da blusinha sem mangas que a garota usava. E terminavam em pontas delicadas e arrebitadas, evidenciadas com a ajuda do vento fresco do dia acalorado.

Continuando o passeio discreto de seu olhar, Beto, então, notou a maciez visual da moça. Tudo que se via dela parecia macio. Braços, mãos, pés. O ventre dela estava alojado entre a blusinha e uma saia descontraída, linda, de algodão cru. Aquele tecido quase rústico vinha num movimento descendente, acompanhando os quadris ainda mais arredondados pelo modo que ela tinha de sentar. “Com as pernas cruzadas.” A saia terminava com babados pequenos e delicados, um pouco abaixo dos joelhos da moça.

Beto já estava se sentindo quase apaixonado pela criatura sem nome que lhe fazia companhia na espera da condução trágica que o levaria para casa sacolejantemente.

Ele pensou em puxar conversa. Queria saber o nome dela, se estudava na mesma faculdade e em que ano estava. Que curso fazia. “Provavelmente ela é uma caloura” –, pensou.

Tomando coragem para falar qualquer coisa de improviso, apenas para forçá-la a reconhecê-lo da próxima vez que se vissem, o rapaz puxou o ar para o peito de musculatura trabalhada e pele hidratada. E, como se houvesse tomado um murro viu o vento erguer a barra de babados da saia que terminava um pouco abaixo dos joelhos dela.

Tudo que vinha após àqueles belos joelhos era uma canela peluda, que mesmo por sua sinuosidade firme e bem torneada, revelou-se grosseira e sem encanto, para o agora enojado Beto.

Ele achou que não estava vendo direito. Aquela quantidade de pêlos não condizia com a figura geral daquela beldade. Ela resolveu prender os cabelos soltos, e foi aí que Beto teve a confirmação: toda aquela singeleza que fazia dela uma pessoa de beleza tão natural, na verdade, era desleixo. Até as axilas da moça expunham uma quantidade de pêlos no mínimo anti-higiênica. “Se as axilas são assim, como serão as virilhas?!”

Por sorte o ônibus de Beto estava se aproximando. E num rompante, com a sensação de quem fora atraiçoado, ele sacou de sua bolsa não um, mais dois barbeadores e entregou para a moça, com um sorriso quebradiço, oferecendo junto um “pra você” de brinde. Deu o sinal e subiu no ônibus como se nunca mais fosse vê-la novamente.

Passando pela catraca de forma abrupta, foi sentar-se no fundão, pisando duro, sem se segurar, tamanha a sua revolta. Quando levantou os olhos viu que a bela e peluda também era passageira da linha e se dirigia para o banco onde ele estava sentado, com um sorriso determinado nos lábios.

Ela também tinha personalidade e aquela conversa sobre depilação estava só começando.

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