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“Tum-ta-tá”, a Estética do Misticismo

“Tum-ta-tá”, a Estética do Misticismo:

A noite quando cai, no meio da floresta!

Na canção Tum-ta-tá“, de autoria do compositor paraense Walter Freitas, letra e melodia não obedecem a padrões estabelecidos para métricas, compassos e ritmos. Na música, Freitas introduz os diversos elementos da cultura amazônica (que vivenciou), dando-lhe nova estética. Não extingue a característica regionalista (apesar de ser uma das composições em que o léxico tupi não está tão intensificado), mas radicaliza na abordagem. Para ele, a arte é estética, política e social. E de posse desses argumentos, “Tum-tá-tá” foi inspirada na “estética do bem-te-vi”, que é a “estética do misticismo”, do “pavor da natureza” e da “noite quando cai no meio da floresta”. A estética do bem-te-vi, como ele mesmo explica, remete às narrativas indígenas, às estórias de transformação do homem em elementos da natureza: “essa coisa do tempo mítico, em que o homem se transforma em árvore, animal, ou numa série de outros elementos da natureza”1
(FREITAS, 2004). Vamos à letra de “Tum-tá-tá”:
Ei, neném/ São rãs e sapos no quintal vazio/ Ei, neném/ São chuvas finas na beira do rio, Um bicho brabo nas “brenha”/ Prás bandas lá da mucajá/ Neném, a ginga das “égua”/ Na noite preta, tum-ta-tá/ E é tanto terço no roxo do frio/ Tum-ta-tá/ São sete embalos na rede navio/ Um tiro longe, quem fere/ Prás bandas lá da mucajá/ Neném, teus “filho” no mundo/ Na noite preta, tum-ta-tá/ Mata de mata que na terra de tua saia/ Menina, mãe d’água aguou/ Terra de terra que na mata de teu cabelo/ Recende cheiro-cheiroso/ Chuva, funga que fungou/ Rio de rio, de rio que na maresia dos olhos Menina, desembocou/ Noite de noite que na cabeceira da ponte/ Se afoga, peixe bubuia/ Moça, caboco emprenhou/ Ei, neném, adeus, quem dera/ Velas, ai marés/ Ei, neném, rio, Acre, o mundo/ Ai igarités
Um pau-de-arara, silêncio/ Pras bandas lá da mucajá/ Tum-ta-tá morto, matado/ Na noite preta, tum-ta-tá/ Preta tu não “tem” medo/ Tu não “tem” guia manicoré/ Flor, flor dos aramados/ Ferpa, farpado, seu coroné.
Walter Freitas
Nas narrativas indígenas, como lembra Claude Lévi Strauss em “Tristes
Trópicos2 alguns seres humanos não pertencem inteiramente ao universo físico, nem tampouco ao mundo social, mas seu papel, na verdade, é estabelecer uma mediação entre os dois reinos. Segundo ele, esses seres, cujo efetivo aumenta regularmente com as almas dos finados feiticeiros, são os responsáveis pela marcha dos astros, do vento, da chuva, da doença e da
morte.3 Ao falar do bari, o “chefe” da tribo no idioma bororo, ele exemplifica:
O bari é um personagem a-social. A ligação que o une a um ou vários espíritos lhe confere privilégios: ajuda sobrenatural quando parte para uma caçada solitária, poder de se transformar em bicho e o conhecimento das doenças, assim como dons proféticos (STRAUSS, 1996: 221)
A morte, em “Tum-tá-tá (elemento significativo que usou como material poético), foi percebida por Dona Neném, personagem principal, matriarca que tinha o costume de se embalar na rede e “não dormia enquanto os filhos não chegassem”. Dona Neném, ao ver o filho mais novo correndo no quintal atrás do bem-te-vi, sabia que era um sinal da tragédia que iria acontecer: a morte do próprio filho. Freitas utiliza fatos marcantes de sua vida, alguns impressionantes (como este), que podem ser usados estéticamente, como motor de criação.
Tum-tá-tá é som onomatopaico. Vem dos tambores que tocavam nos ensaios de boi-bumbá e nos terreiros de umbanda, no bairro da ‘Sacramenta’, na periferia da cidade de Belém do Pará. O uso do tambor, como explica Mircea Eliade,4 teórico das religiões, desempenha papel de primeira ordem nas cerimônias xamânicas: “seu simbolismo é complexo, suas funções mágicas são múltiplas. É indispensável ao desenrolar da sessão, seja por levar o xamã para o ‘centro do mundo’, por permitir que ele voe pelos ares, por chamar e aprisionar os espíritos, seja, enfim, porque a tamborilada permite que o xamã se concentre e restabeleça contato com o mundo espiritual que está prestes a percorrer” (ELIADE, 2002). Em “Tum-tá-tá, o batuque dos tambores (que podia ser escutado em todo o bairro) embala, ao mesmo tempo, o “tiro longe que fere,
pras bandas lá da mucajá/ tum-tá-tá morto, matado, na noite preta tum-tá-tá”.
1
Em entrevista concedida à revista “Pará Zero Zero”, Ano 1, Junho/Julho de 2004, Walter Freitas refere-se ao bem-te-vi que apareceu no quintal de sua casa, durante a infância e que seria, segundo Dona Neném, sua mãe, um sinal de que uma tragédia iria acontecer. Neste episódio, o irmão mais novo do autor brinca e corre atrás do bem-te-vi. No dia seguinte, uma arma dispara acidentalmente e o garoto morre, com cinco anos de idade.
2
LEVI STRAUSS, Claude. Tristes Trópicos – Tradução Rosa Freire d’Aguiar, São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
3
Estes seres dotados de poderes sobrenaturais são os “xamãs”. No Brasil, os pajés são considerados “xamãs” e tem a capacidade de operar milagres, realizar curas e prever problemas futuros, reforçando e reelaborando assim, os mitos de sua tradição.
4 ELIADE, Mircea. O Xamanismo e as Técnicas Arcaicas do Êxtase. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
Referências
ELIADE, Mircea. O Xamanismo e as Técnicas Arcaicas do Êxtase. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
STRAUSS, Claude Lévi. Tristes Trópicos – Tradução Rosa Freire d’Aguiar, São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
REVISTA Pará Zero Zero (PZZ), Ano 1, Junho/Julho, 2004.
Sobre a autora
Marlise Borges é jornalista, musicista, arte-educadora, mestre e doutoranda em Comunicação e Semiótica, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP.

3 Comments »

  1. Perceber seu website é bom, e a gente que se destina na criação do Site Sucesso lhe reconhece pelo seu trabalho diferente!

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  2. Nossa! Como escreve bem a Marlise. Ao som da melodia (popular) ela passeia pela antropologia social, pela religião, pela filosofia e pela compreensão popular da vida, das coisas e, sobretudo de acontecimentos cotidianos, aos nossos olhos tão comuns e não tão complexos.
    Lindo o texto. Agradabilíssimo aos ouvidos e a nossa capacidade de descobertas. Parabéns aos paraenses por mais esta escritora da cultura paraense e de seus siginificados, transportando essas explicações locais para o mundo global, ou seja universalizando a Amazônia e seus infinitos mistérios.

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  3. Marlise sabe bem da importância de Walter Freitas. Interpretação primorosa da cantora Simone ALmeida para Tum-Tá-Tá. Parabéns! A Amazônia em foco, muito bem representada!

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