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Em tempos de psicopatia

Em tempos de psicopatia

Por Silvia Regina

 

 

É inevitável. Fatalmente ao sair para a via pública com seu carro, com seus pés, cadeiras ou fazendo uso do transporte público, qualquer que seja ele, você será agredido: um empurrão, uma cotovelada, uma cortada, um xingamento entredentes ou bradado, beirando o estapeamento ou o próprio estapeamento e, outras formas de agressão física, moral ou sensual.

Muito além da invasão do espaço pessoal, que ocorre por conta da cultura, onde é permitida a aproximação dos corpos, a expressão dos afetos mais além do aperto de mão ou do aceno à distância, o impulso que carrega para um beijo ou dois, um abraço inesperado, um toque no braço, na cintura ou nas pernas, em meio a uma conversa; a preocupação aqui é sobre a inconveniência do abrupto, da selvageria, do grosseiro. Onde um indivíduo sobrepuja o outro por puro egoísmo, inaptidão interacional ou falta de empatia.

Enquanto escrevo, chove. E isso me faz lembrar que, quando chove, caminhar nos centros de grande movimentação em São Paulo, por exemplo, torna-se quase impossível. Uma sucessão de guarda-chuvadas espanca o desavisado que vem na direção contrária ou que tenta passar ao lado de quem, brutalmente, caminha com seu imenso aparato antigotas, caudalosas ou finíssimas. A possibilidade da perda da visão é alta: os guarda-chuvas, em sua maioria, sucateados pelo uso frequente, avançam em investidas que buscam eliminar o passante próximo como a um adversário, um oponente numa batalha pela ocupação do espaço público. Qualquer garoa é motivo para sacar o guarda-chuva, cada vez maior, mais espaçoso e dominador.

Posso, em rápida análise, descobrir inúmeras formas de agressão no cotidiano de uma cidade como São Paulo. As pessoas perderam o respeito pelo espaço pessoal do outro. Caminham pelas calçadas como se fossem únicas, como se não tivessem que ceder a vez, vez ou outra, que seja.

E por falar em calçadas, pobres cadeirantes, mancos, usuários de muletas, bengalas ou sapatos de salto. Não bastasse a própria condição de viver num mundo planejado para bípedes em plenas condições físicas, no espaço público, em geral, não podem contar com as calçadas. O que existe no lugar delas são crateras, montanhas intransponíveis, degraus, elevações e rebaixamentos, sim, para automóveis entrarem melhor em suas garagens. Uma prática de desrespeito com o direito de ir e vir do outro, amplamente difundida e aceita na metrópole.

Ontem fui ao cinema onde o desrespeito ocorre mais nos horários, no falatório durante o filme, no senta e levanta que encobre a tela, no mau uso dos banheiros, nas cutucadas nas cadeiras e na explosão com a pessoa errada, pelo mesmo motivo. Na fila do snack bar me surpreendi com um anúncio da Coca-Cola, estampado em um pacote de pipoca, que dizia para acreditarmos que no mundo os bons estão em maior número. Fiquei pensando que mais uma vez eles acertaram em sua campanha eternamente infalível. Levar a fé em dias melhores no momento da pipoca, uma comidinha tão pacífica e inocente, toca o coração e faz a gente querer assistir o filme e esquecer qualquer ofensa, inclusive aquela que veio embutida no preço que temos que pagar pelo combo mega.

Todos temos direito de nos divertir desde que não seja com a cara de alguém, às custas da vida de um gato, ou qualquer outro ser vivo. Piegas? O gato arrastado pelo para-choque de um destes idiotas psicopatas não acharia. E por falar em psicopatia, eles parecem ser maioria nos dias atuais. A indisposição humana em evoluir despejada sobre o outro ganhou um nome bacana: bullying. Desde o jardim da infância vi isso acontecer comigo e chamei de várias coisas: racismo, preconceito, zoação, burrice, ignorância, crueldade. Mas nunca revidei. Não de forma violenta e explícita. Busquei ser melhor do que eles diziam que eu era, mas não quer dizer que superei, que não me chateei, que não aumentei os ódios por mim ou pelo que eu era por conta dos outros.

Contudo, isso era antigamente, onde ser agressivo era feio e a superação era motivação interna. Hoje, em um movimento que parece descender de todos os motins, da história mundial, contra a opressão, o ‘bulliynado’, com a ajuda da grande capacidade midiática, não tem superado mais nada em silêncio. Ele exibe a superação e usa o bullying como estopim para rebelar-se, para mostrar seu grande potencial em opor-se, em insubordinar-se. Isso faz ganhar hits no YouTube, vira notícia nos jornais nacionais, às vezes terríveis notícias, às vezes gloriosas, mostrando que os fracos tem sua vez.

Essa guerra ocorre, porque dependendo do lado em que se esteja a coisa ganhe uma conotação diferente. Explico: quem sofre a agressão entende-se como correto, sem nada para superar e, acredita que, quem precisa de mudança é quem ‘bullyina’ e, revida. Quem bullyina, acredita-se certo, perfeito, unânime e pensa que agredir o incorreto, o imperfeito, o específico, é um jeito de manter as coisas da melhor maneira, busca eliminar o motivo da discrepância, e ataca.

A tal guerra só teria fim se um dos lados cedesse, por exemplo: se o lado bullyinado concordasse que deve ser eliminado por destoar daquilo que demonstra-se “certo” ou, se os bullyinadores deixassem de bullyinar, por aceitarem que são tão estranhos quando os que julgam “estranhos, diferentes”.

Quando o revide vem, a sociedade “certinha”se choca dizendo que o bullying sempre existiu que uma simples brincadeira agora é chamada de bullying ou que o revide foi violento demais. E isso parece deixar claro que não existem dois pesos e duas medidas para as visões de mundo, existem, sim, muitas medições e estas deviam ter à frente somente uma coisa: a empatia. Havendo empatia não há déficit de dignidade para nenhuma das espécies viventes no planeta.

Se não vivêssemos, pessimistamente falando, em tempos de psicopatia, as atrocidades que mobilizam públicos em torno de causas mundiais, feitas de misérias humanas como a fome, a disseminação e a exploração das drogas e doenças, as chacinas e os genocídios, a pobreza e as humilhações das mais diversas ordens, enfim, não seriam temas das notícias diárias. O mundo provavelmente propagaria o seu desenvolvimento científico-tecnológico, não por ter fomentado a indústria bélica, mas porque aprofundar o conhecimento sobre a natureza que nos cerca faz crescer e viver mais e melhor.

Esperemos que a Coca-Cola esteja certa ou que, pelo menos, leve a mensagem mundo a fora, fazendo as pessoas acreditarem que são melhores do que são assim como acreditam no sabor de seu refrigerante.

 

 

 

 

 

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