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O Carnaval da Bicharada

O Carnaval da Bicharada

Cametá, Pará, Amazônia, Brasil
por Marlise Borges

Fofó das Virgens

Neste período do carnaval 2011, venho apresentar (para quem não conhece), um lugar chamado “Cametá”. Nome de origem Tupi (Caá – mato, floresta; Mutá – degrau, galhos de árvores feitos pelos índios para esperar a caça ou para morar), Cametá é uma ‘pequena e pacata’ cidade às margens do rio Tocantins, no Pará, Amazônia, Brasil. Lugar na região norte, onde as “inurmíssimas bumbarqueiras” (festas caboclas) fazem a diferença do resto do País.
Em um delicioso e exuberante passeio de barco e de ônibus entre o rio e a floresta, com duração de aproximadamente quatro horas, saindo de Belém (capital do Pará), chega-se  a este exótico lugar.  Durante o ano todo, os mestres quilombolas ‘Camatauaras’, como são chamados, presenteiam os turistas com os encantos da cultura popular, através dos ritmos “Samba de Cacete”,  “Bangüê”,  “Síriá” e as manifestações religiosas “Marierrê” e “Bambaê do Rosário”, todas de origem africana.

Cametá vista de frente: chegada de barco

Cametá: indo de barco para a folia

Aguardando a folia

Porém, é durante o carnaval, que é “época de folia e ninguém chora”, que o turista se delicia com as cores, crenças, ritmos e brincadeiras de um povo que assume sua identidade cabocla e sua real ligação com a natureza e a preservação da mesma.
Apesar das sete escolas de samba (que reproduzem o carnaval carioca) e os diversos blocos de axé music, que reproduzem as micaretas do carnaval da Bahia, há, nesta pequena aldeia no interior do Pará, os blocos tradicionais que ainda resistem às aparelhagens de carros, que tocam o tecnobrega, o tecnomelody (ritmos mais tocados na região), assim como o axé baiano e os hits do momento.
Pode-se dizer que o carnaval cametaense é bem conhecido no estado, atraindo turistas de todos os lugares do mundo, por apresentar os “blocos de sujos”, os “fofós” e os “cordões de bichos”, principais responsáveis pela “fulhancada cabocla”, como são conhecidas as festas cametauaras, ou as “bumbarqueiras”. Dá até para acreditar que em algum lugar ainda existe a popularização da maior festa brasileira.
Há quem diga que o carnaval de Cametá é um dos mais antigos do Pará e teria se originado já no século XIX. Os “fofós” costumam arrastar a multidão local, assim como os “entrudos” e os “linguarudos”, cordões de mascarados que, segundo contam, existem já há 117 anos. O “fofó das virgens”, bloco com mais de 3000 brincantes, onde todos os homens se vestem de mulher é o mais esperado e arranca verdadeiras gargalhadas do público.

Peru: Cordão da Bicharada

Cordão da Bicharada

Além dos inúmeros “fofós” – das “Virgens”, do “Lino”, dos “Lisos”, dos “Bicudos”, dos “Linguarudos” e do “Engole Cobra”, dois blocos que fazem referência direta ao império norte-americano também ganham destaque no carnaval Cametaense. São eles: “Bill Clinton” e “Sadan Hussein”. Eu estive lá no carnaval de 2003 e 2004 e não sei dizer, sinceramente, qual deles me fez rir (mais), que minha mente e meu coração não cabiam mais de tanto espanto e descontrole emocional (no bom sentido, é claro!).
Contudo, o cordão carnavalesco que mais emociona a todos os povos presentes – e não só ao povo cametauara – é o “Cordão da Bicharada”.  Mestre Zenóbio, caboclo residente no município de Juaba, nas proximidades de Cametá, é quem confecciona as fantasias de bichos, que, segundo ele, “procuram chamar a atenção da sociedade para a preservação ambiental”. Ele nos diz que as fantasias que retratam os animais da fauna amazônica pretendem impressionar pelos gestos e aparência dos animais. Entre os animais que fazem parte do bloco da “Bicharada” estão: o galo, o tucano, as araras azul e vermelha, as borboletas, o leão, o tigre, o coelho, a onça e muitos outros, incluindo o macaco barrigudo, típico da floresta amazônica.
Quem conhece a região, sabe que chove muito neste período de carnaval. Entretanto, chova ou faça sol, a cidade de Cametá respira alegria e folia. As micaretas e as escolas de samba desfilam em grande estilo e os blocos de rua, que lutam para manter a tradição de um carnaval perdido no meio da floresta, parecem ficar cada vez mais fortes. Lembrei das palavras de Manoel Valente, pesquisador, compositor e músico da cultura cametauara: “Ali, no meio daquela fulhancada, resolvi assumir minha identidade cabocla, aprendiz dos saberes e valores culturais do meu povo, tão sábio, simples e genial em tudo o que faz”.
Sobre a autora
Marlise Borges é jornalista, musicista, arte-educadora, mestre e doutoranda em Comunicação e Semiótica, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP.

5 Comments »

  1. Bom eu sou daqui do Pará ,mas nunca fui em Cametá,e essa matéria me deixa muito curiosa a respeito não só da diversão desta festa,como dos possíveis estudos antropologicos que podem ser feitos em cima desses movimentos.
    Uma excelente matéria um abraço!

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  2. Gostei muito dessa matéria, muito interessante!! E pensar que tudo isso existe nesse estado maravilhoso que é o Pará, e muitas pessoas insistem em exaltar só a cultura de fora… O que mais me agradou foi o “cordão da bicharada”, as fantasias são muito bem-feitas, principalmente essa do pavão. E essas últimas palavras devem explicar não só o sentimento da Marlise, mas de todos que estavam ali presentes… Muito bem colocada essa frase, rs.

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  3. Fico muito feliz quando estudiosos escrevem sobre as manifestações culturais amazônicas. Com um texto muito claro e cheio de propriedade do viver-ser, cametaense, Marlise Borges consegue nos encantar. De uma maneira simples e como se diz no texto “cabocla” nos leva a refletir sobre a simplicidade de um povo meio que escondido no interior do Pará. Um lugar carnavalescos cheio de encantos, mitos, lendas e de gente simples. Esse encantar fica muito claro em sua construção textual nos dando a oportunidade de sonhar e reviver os bons carnavais mas com uma grande diferença, acontece no meio da floresta.
    Parabéns, me encantou!

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  4. Simpatizo muito com o povo paraense, não só pela quantidade de pessoas maravilhosas que conheço e tenho um forte laço de amizade, mas pela cultura sólida, pelo empenho, que não dói porque é inato, em manter uma identidade peculiar da região, participando da realidade sócio-cultural globalizada porém sem perder essa veia cultural aflorada.

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