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Eles não gostam de S.E.X.O

ELES NÃO GOSTAM DE S.E.X.O

Por Silvia Regina

 

Clark Gable e Vivian Lee, em E o Vento Levou (1939): E beijar assim, pode?

 

Muito além do comum – é assim que se entendem os jovens bem nascidos e saudáveis que não acreditam na obrigação de crescer e se multiplicar. Seu gosto por viver como viviam aos 11 ou 12 anos para sempre parece ser possível num mundo onde conseguem se isolar de tudo que fere a inocência: as drogas, a violência e o sexo. Eles não desejam cruzar tais fronteiras.

 

Sexo?! Quem precisa disso para viver?! Respondeu A.A., uma jovem de 18 anos, radicada na cidade de São Paulo quando questionada sobre sua sexualidade em uma roda de amigas. Em geral, – continuou ela –, as pessoas vivem só para comer, produzir lixo e reproduzir. Não fazem muita coisa além disso. Eu não quero passar a minha vida pensando se quem dormiu comigo hoje dormirá com outra amanhã, não quero ninguém achando que pode ser íntimo o suficiente para se tornar extensão do meu corpo. Se um dia alguém quiser minha companhia, vai ter que aceitar não fazer sexo comigo.

Essa é uma tendência na realidade da juventude da primeira década do século XXI: eles gostam de fantasias e contos de fadas, aventuras e heróis. Muitas vezes se aparamentam como seus personagens favoritos, andam em grupos e conversam sobre superficialidades que não agridem ninguém e também não pretendem modificar o mundo. Sua menoridade se alonga para além dos 20 e tantos anos; seu paladar respeita desejos ocasionais e, seus pecados, parecem ser de seus corpos não acompanharem suas mentes, sempre dotadas de uma puerilidade inocente e feliz.

Mas é certo que eles cresceram e esta parece ser uma opinião madura, partindo de gente que já experimentou e de gente que nunca teve a menor intenção em experimentar. D.A.S., 23 anos, fez questão de acrescentar: —Isso não quer dizer que eu tenha nojo de gente. Eu gosto muito das pessoas, mas eu acho que não tem necessidade de ir além de um carinho honesto, oferecido com dedicação. Eu já fiz sexo, algumas vezes, com gente que eu achava o máximo da beleza, com gente que me causava uma profunda admiração, até com quem me fez sentir uma paixão louca, avassaladora. E, apesar de não ter me sentido mal, de ter sido muito bem tratada em todas as ocasiões, eu sempre acreditei que não tinha a menor necessidade de ter acontecido. Mas é difícil, porque a maioria das pessoas não entendem essa posição. Não pensam como a gente. Acham que eu sou frígida e que preciso de tratamento.

Num frequentado shopping da Zona Leste, localizado em um circuito de classe média, na cidade de São Paulo, é muito comum ver jovens entre 15 e 25 anos reunindo-se em turminhas animadas, bastante tagarelas, tranquilas e risonhas. Gostam de comer sanduiches, vão ao cinema para ver Crepúsculo, se vestem de maneira sempre marcante, mas, não pertencem a uma única tribo ou a uma, especificamente. São personalidades localizadas em qualquer uma delas. Mimetizam-se em seus grupos de convívio e, impõem o desejo de não se relacionarem além do beijo na boca e das mãos dadas.

C.P., 19 anos, o único menino disponível para conversar sobre o assunto, diz que não precisa de sexo para afirmar sua sexualidade: — Eu gosto de mulher, só não quero ter que transar com uma. Porque tudo tem que terminar na cama. As pessoas precisam pular essa coisa de se masturbar, de correr atrás de alguém que queira trepar. Sei lá, isso cansa. Meus amigos são assim, mas eu não sou. Não quero que seja assim comigo. No final, essa coisa de sexo, parece muito primitiva, pra mim. Faz com que estejamos sempre na mesma conversinha, vivendo da mesma maneira. – Quando questionado sobre filhos e família, o jovem reage como se tal pensamento nunca lhe tivesse ocorrido: — Hummm, sei lá! Acho que contrataria uma barriga de aluguel ou então, adotaria um bebê. Mas, bebezinho, mesmo. Porque, se fosse maiorzinho, poderia vir sequelado e eu não vou criar filho dos outros pra depois ficar velho na mão dele, apanhando e tendo a minha aposentadoria roubada. Deus me livre! (risos) Não, sei lá! Brincadeira. Acho que tem muita coisa na atitude das pessoas que depende da criação e, eu acho que eu seria um bom pai.

De fato, parece que eles desejam tudo que a vida tem para oferecer, mas não abrem mão de viver de maneira branda, sem grandes dramas, sem grandes pressões, sem grandes paixões, sem maiores emoções, sem muita profundidade. Porque tudo que é excessivo demonstra-se enfadonho, exagerado e pouco inteligente.

Se a troca de afetividades entre os casais que compactuam da ideia de não fazer sexo fica nos abraços e beijos de língua, cinematográficos, o resto da vida parece seguir um roteiro traçado para o sucesso certeiro: nascer em uma família que te ofereça algum handcap, ou seja, a partir dela você não terá que começar do zero ou de um saldo negativo; fazer faculdade e preferencialmente continuar estudando e obtendo títulos acadêmicos, para ser sempre levado a sério; contar com a ajuda de seus pais para a construção de um negócio ou a continuidade de um; ser bem sucedido de maneira a não ter que trabalhar para os outros, porque assim ninguém poderá dizer que você se veste de maneira estranha, tem cores demais na pele cheia de tatuagens ou nos cabelos nem poderá negar um emprego por ter brincos em locais inusitados. A máxima é ser esperto o suficiente para se bastar e não precisar de ninguém para satisfazer ou dar satisfação de sua vida.

Com este pensamento, esta juventude não se mete com drogas, só bebem socialmente e estão preocupados em ter prazer no convívio com o outro, querem aproveitar a vida de maneira liberta, sem amarras de nenhuma ordem. Seus conhecimentos são horizontais, não se aprofundam em nada, mas parecem ter uma boa noção sobre diversos assuntos, o que permite se manterem à distância de tudo que parece chocante demais. Dessa forma: nada de contabilizar os mortos e feridos na crise política do Norte da África, apenas considerar como será melhor a vida sem os grandes ditadores, na região, as possibilidades de uma vida melhor; nada de ir para as ruas levantar bandeiras a favor dos amigos gays, mas, fazer festa em todas as Paradas Gay, porque é disso que se trata, um grande gosto pela confraternização e a paz, sem preconceitos, sem maldições ou transtornos. Afinal, a vida precisa ser fácil.

Se eles manterão a opinião favorável à castidade por toda a vida, só o tempo dirá, mas uma coisa é certa: eles não pegarão em armas, não levantarão a voz nem a mão contra quem quer que seja. Eles gostam de viver intactos, sem se misturar ou se envolver demais com as coisas do mundo.

 

Sobre a autora: Silvia Regina de Jesus é doutoranda e mestra em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. É autora de A sensibilidade inteligível do chocolate: uma análise do fazer estésico apreendido, cultivado e comunicado, dissertação encontrada em: Domínio Público.gov.br.[ http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=167688%5D / editoria@gostonomia.com.br

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