Produtos multimidiáticos e produtos transmidiáticos

Produtos multi e transmidiáticos

Características estéticas, contrapontos e convergências

 Por Marlise Borges

 

As narrativas transmidiáticas e multimidiáticas vão além de simples adaptações em mídias diferentes. Em ambas, percebe-se a hibridez de linguagens, a crescente liberdade de criação e o seu desdobramento em plataformas, formatos e suportes midiáticos diversos. O prefixo “multi” significa muito, pluralidade. O prefixo “trans”, do latim, significa “além de”, “através de”. O termo, para ser mais exato, significa algo que está constantemente em trânsito, entre uma coisa e outra. Alguns anos atrás, as narrativas eram multimidiáticas, ou seja, se expandiram e passaram a acontecer em variados formatos de mídia. Hoje, as narrativas tornaram-se transmidiáticas, continuaram a expandir o mundo das estórias para diversas plataformas, mas criando ambientes novos, deixando lacunas, para que o usuário pudesse se envolver e jogar com hipóteses sobre possíveis causas e/ou conseqüências. Na verdade, possíveis resultados das narrativas.
Vamos agora detectar prováveis contrapontos e convergências nas estéticas transmidiáticas e multimidiáticas. No dicionário, a palavra “convergência” significa uma tendência para se fixar ou se identificar em um mesmo ponto, ou “que se dirige para o mesmo ponto”. Para Henry Jenkins (2008), as mídias atuais são participativas e interativas. Elas co-existem e estão em rota de colisão. É o que ele chama de “Cultura da Convergência”.

É o fluxo de conteúdos através de múltiplos suportes midiáticos, à cooperação entre múltiplos mercados midiáticos e ao comportamento migratório dos públicos dos meios de comunicação, que vão a quase qualquer parte em busca das experiências de entretenimento que desejam (JENKINS, 2008: 27).

 

Características da Multimídia:

Começou como convergência de suportes e de técnicas de comunicação via texto, som e imagem, permitindo apresentar ou recuperar as informações de forma multisensorial. A Multimídia (múltiplos meios), se faz presente em sons, imagens, animações, texto, hipertexto e hipermídia. Materializa-se nos CDS, DVDS, TVS interativas, telefones celulares, Web e muitos outros.

 

Características da Transmídia:

É uma cultura participativa (principalmente no que se refere a redes interativas na web). São narrativas que podem ser comentadas, manuseadas ou até remixadas. Há uma flexibilidade de lidar com conteúdos fragmentados e múltiplos, abrindo espaço para que o usuário possa re-construir e re-combinar estórias e formatos, dando asas à sua criatividade. Contudo, nem todo conteúdo é adequado aos formatos transmídia.

Alguns exemplos de produtos multimidiáticos e transmidiáticos


Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Sherlock_Holmes: “Sherlock Holmes é um personagem de ficção da literatura britânica, criado pelo médico e escritor britânico Sir Arthur Conan Doyle. Holmes é um investigador do final do século XIX e início do século XX, que aparece pela primeira vez no romance “A Study in Scarlet” (Um estudo em Vermelho) editado e publicado originalmente pela revista Beeton’s Christmas Annual, em Novembro de 1887. Sherlock Holmes ficou famoso por utilizar, na resolução dos seus mistérios, o método científico e a lógica dedutiva . Há o filme, estrelado por Robert Downey Jr, um conjunto de livros, entre romances e contos, várias peças teatrais, além dos quadrinhos, onde a Disney criou o personagem Sir Lock Holmes, visivelmente inpirado em Sherlock.

Exemplo de personagem influenciado pelo personagem de Doyle, na televisão, é o detetive Adrian Monk, da série homônima, que tem um senso de observação e dedução do mesmo nível de Sherlock, mas destaca-se pelo seu transtorno obsessivo-compulsivo (que, por sinal, são parte de seu sucesso como detetive). Outro personagem inspirado em Sherlock é Gregory House, da série de TV estado-unidense House M.D., chefe da ala de diagnósticos que utiliza lógica dedutiva para desvendar as mentiras de seus pacientes; House costuma sempre dizer “Todo mundo mente”. As similitudes entre Holmes e House são muitas: o homem que atirou em House se chama Moriarty, maior inimigo de Holmes, House também é viciado, também tem gosto pela música e mora no número 221″.

Harry Potter, da escritora britânica J.K Rowling, tem sete livros publicados e já está na sétima versão para o cinema. Ao que parece, Harry potter não foi pensado como produto da narrativa transmídia, mas acabou convergindo para esta. Algum tempo depois de lançado o primeiro filme, começou a haver construções de universos paralelos e a serialização de acontecimentos narrativos. A série Harry Potter está no cinema, em DVD, em livros, games e em sites interativos.

A série Lost é chamada de “clichê” dos exemplos transmidiáticos, com uma estética totalmente voltada para a transmídia. “Lost” foi marcada por intensos movimentos de especulação dos mistérios inacabados, cujos processos, em parte, detonados pelos próprios produtores da série e outra grande parte (talvez a maior) realizada por um público cada vez mais conectado, ansioso para participar e se integrar como co-autor da trama.

Avatar, o filme, é um espetáculo visual de grandiosa beleza, integralmente transmidiático, cujas táticas de conquista e sensibilidade apresenta um produto em que, supostamente, misturam-se a criação e a ação de marketing. Embora criticado por seu provável enredo “simplório” e debilidade de roteiro, é uma experiência estética tridimensional ‘fantástica’, mas com a estória reforçada na polaridade entre o bem e o mal. O dualismo cartesiano, um modelo de realidade irremediavelmente dicotômica. Seria o desdobramento político de Avatar, o discurso ecológico que agora está fora das telas, uma onda de ações de Branding, um jogo de poder que envolve governo e povo, numa questão ambientalista da contemporaneidade?

Em “Guerra dos Mundos”, nas várias versões, são imaginados os habitantes de outros planetas e uma série de utopias e distopias, relativas às tecnologias. O romance de H.G Wells rendeu uma série de TV em 1988 e outras adaptações cinematográficas. Em 1938, houve a versão radiofônica de Orson Welles, onde um grupo de teatro, liderado pelo próprio Wells entrou no ar, causando pânico aos ouvintes. Em 1953 houve a versão dirigida por Byron Haskins, cujo foco era a aniquilação dos humanos (época da era atômica e da guerra fria) e em 2005 a versão mais recente, de Steven Spielberg, em que o foco, desta vez, era a desintegração da família e o medo da ameaça terrorista.

Não se pode esquecer de dois fenômenos da cinematografia americana, totalmente inseridos nas narrativas transmidiáticas e multimidiáticas. Estou falando da Trilogia Matrix (Matrix, Matrix Reloaded e Matrix Revolutions), cuja obra está presente, além dos três filmes, em nove desenhos animados (Animatrix), em games e em histórias em quadrinhos. O segundo produto multimidiático e transmidiático é “Star Wars”(Guerra nas Estrelas), cujos seis filmes de ficção científica acabaram se expandindo para uma série de jogos eletrônicos, desenhos animados e adaptações literárias. E o mais curioso: atrai, até hoje, milhares de fãs.

“A Sociedade do Espetáculo”, de Guy Debord, é um projeto que figura na arqueologia da estética transmidiática, mas que está inserida, também, na cultura da remixagem. . Tanto no filme (1973), como no livro (1967) de Debord, há utilização de linguagem de deslocamentos e colagens. As imagens, pelo que dá para perceber, procuram sempre desbaratear a mídia. Assim como a transmídia recria textos, que complementam o texto original, porém preservando sua estrutura básica, o filme de Mark América (2004), que é claramente um remix, apresenta-se com deslocamentos de recortes, cujos tempos das narrativas (visual, sonora e verbal) são independentes. Neste vídeo, o autor cria e/ou recria novos textos, sob outro contexto.

 Novas estéticas e novas co-criações na música brasileira

Na cultura da remixagem (que pode ser considerada uma apropriação crítica do produto cultural), os usuários das mídias tem a liberdade de adicionar, reelaborar e co-criar na reedição de contéudos previamente configurados. É uma nova cultura, livre, colaborativa, produzida de muitos para muitos, remixada e transformada em “algo diferente”. Contudo, as estéticas re-feitas, re-elaboradas, nem sempre são agradáveis. Há que se ter um cuidado, portanto, com as novas criações e/ou co-criações. A música eletrônica, que desloca o foco da idéia de canção, aproveitando, de forma intensa as possibilidades de edição, é um dos exemplos de remix e experimentações estéticas.

Lamentavelmente, a música produzida no Brasil nos últimos anos do século XX e primeiros anos do século XXI, transformou-se exclusivamente em produto vendável para a grande massa. E isso está presente desde a relação artista/mídia, a relação com o mercado fonográfico, até os meios de distribuição do material produzido. O público consumidor (o grande público) hoje, não compreende mais a música de sua região como tradição, com seus instrumentos característicos e principalmente, sua temática. Ao contrário, outros (inúmeros) elementos foram incorporados, tendo como justificativa a modernidade e a contemporaneidade. Até a voz do artista, um dos pontos mais marcantes da canção popular, não é mais primordial.

Hoje, há colisão de estilos musicais. O analógico das guitarras se funde com o digital dos meios eletrônicos e das baterias tocadas de forma robótica. Tudo bem que Caetano Veloso experimentou essa fusão do acústico com o eletrônico, nos anos 60, na música “Alegria, Alegria”, mas a mistura foi algo especialmente inteligente e interessante. Bem diferente de estéticas baseadas em clicks e interferências (como fazem muitos grupos musicais atuais), foi uma estética inovadora para a época, mas que deu certo e caracterizou o movimento Tropicalista, nos anos 60, em que reinava a ditadura militar.

É fato que a música, nos tempos atuais, tem influência direta das tecnologias, novos formatos, diferentes processos de gravação e a questão posta na mesa é: como o público de hoje está consumindo a nova música popular urbana? Trata-se de uma música midiatizada (a relação do público é através da indústria e da tecnologia); de música massiva (chega a milhões de pessoas) e de música moderna (há uma relação simbiótica com a indústria cultural, as novas tecnologias e as comunicações) onde este mesmo público desenvolve sua capacidade de expressar o presente – tempo histórico fundamental para a audiência jovem, que a sustenta.

 

Referências Bibliográficas

JENKINS, Henry. Cultura da Convergência. Editora Aleph, 2008.

 

Sobre a autora

Marlise Borges é jornalista, musicista, arte-educadora, mestre e doutoranda em Comunicação e Semiótica, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP.