Escapatórias: As máscaras que revelam

Como maquiagem, esmalte, modificações corporais e adereços exibem a personalidade

 

Por Silvia Regina

Se você já criticou a moda e o modo como ela aparentemente pretende ser usada, apreciada, para tornar-se parte de nós, deverá compreender claramente a intenção de refletir sobre quem somos por debaixo das vestes que adotamos no dia a dia.

São cores, aromas, retenções, amarrações, erguimentos, personagens desenhados em atitudes que conturbem os espaços de convívio ou não, tudo isso mascarando, escondendo nosso íntimo para que, talvez, seja possível viver em sociedade. Determinamos que assim seremos aos olhos dos outros e seguimos em frente, buscando adereços e modificações, permanentes ou provisórias, que nos façam sermos vistos de acordo com uma idealização.

Não se pretende com esta reflexão decidir se isso é certo ou errado, pois, não é possível dizer o que o ser humano seria se não fossem as construções e regras criadas para manter a vida em comunidade. Mas, seria necessário mentir tanto? Estaríamos realmente mentindo ou simplesmente expondo o que nos constitui, por meio de artifícios?

Talvez nada do evidenciado como sendo o que somos (ou gostaríamos de ser) seja de todo uma farsa. De algum ponto de vista, podemos crer que as intenções na utilização das máscaras sejam positivas, pois, com elas estaríamos dizendo ao mundo circundante, sem palavras pensadas, escritas ou faladas, mas, por meio de nossas escolhas, as mais secretas intimidades, traços de personalidade, emoções do período, jeito de entender ou encarar o vivido, o experimentado.

Desse modo, o que ou quem somos estaria descrito naquilo que damos a ver de nós em pistas estésicas, sensíveis, que oferecemos aos outros, por meios diversos. Ah, e que delicioso exercício seria acertar na leitura das máscaras de quem se depara conosco. Numa cidade como São Paulo, por exemplo, ninguém se vê. Ninguém se enxerga nos olhos vazios das multidões do vaivém. Nas máscaras estaríamos disponíveis aos outros.

Pensemos nas pessoas que trajam uniformes, gente que se parece com o meio quando usa as cores de uma empresa, de um serviço ou marca. Esse ser é visto como uma entidade vazia, provida talvez dos valores cultivados por um bem sucedido departamento de marketing. Essa pessoa não é, não sente, apenas está ali funcionalmente. E se este ser fosse um indivíduo, com um rosto encalacrado dentro do uniforme? Que sentidos seríamos capazes de usar para reconhecê-lo, para dar a ele um nome em nosso reconhecimento do mundo? A visão seria o mais forte e prestativo dos sentidos. Pois, sempre existirá ali um batom, um lápis e cílios alongados pelo rímel. Ou a ausência disso. A pele limpa do rosto, uma mancha, rugas, intenções, barbas e grossas ou finas sobrancelhas, moldadas ou naturalmente desenhadas. Sempre há uma particularidade a ser vista e reconhecida.

E quando isso também é uniformizado, como no caso das atendentes de várias cafeterias? Elas são todas iguais: o mesmo penteado, a mesma maquiagem, além das roupas e sapatos. É preciso manter em mente que não podemos nos manter reféns das nossas criações ou mesmo daquelas que criam para nós. Não somos um padrão, não podemos acreditar que os indivíduos que nos cercam sejam. Nossos olhos e mentes devem estar atentos às diferenças para nos lembrarmos de que somos alguma coisa a mais.

As unhas como símbolo de intensidades nômades

Unhas longas ou curtas, cores fortes ou pálidas, mãos passadas pelo trato semanal da manicure ou descuidadas e entregues ao destino. Seriam estas revelações do cuidado que uma pessoa é capaz de ter consigo e com as demandas que a vida define para ela? Já escutei histórias de gente que perdeu a vaga na entrevista por conta das unhas mal apresentadas. Seria esse um critério justo de avaliação do caráter de alguém?

As unhas revelam intenções e suas intensidades, todas móveis, nômades em migração para o próximo estado de espírito. Contudo, é o momento da escolha do esmalte ou de sua ausência que fica retido ali no gestual das mãos, ao menos por alguns dias. Assim como os tons de vermelho encontráveis nas prateleiras das perfumarias, as intenções intensas ou relaxadas variariam de acordo com o que passa na mente por trás das mãos que representarão uma sensação ou estado d’alma. Uma cor não é escolhida ao acaso, ela sempre significa algo para o seu escolhedor. E agora elas podem ser opacas além de brilhantes, cintilantes, transparentes ou adensadas em seus tons.

Para quem não pinta as unhas os cuidados com ela seriam indicativos do tempo dedicado a si mesmo, das atividades profissionais ou de lazer, como o uso do computador que, por vezes, moi suas terminações ou, como no caso dos musicistas, com seus instrumentos de cordas que, por vezes, solicitam unhas mais longas. As mãos falam também com sua aparência.

A denúncia dos batons

Já as bocas nem sempre falam e, quando calam podem revelar segredos, denunciar modos de parecer ser diante do mundo. E o que falariam as bocas mate? Sem brilho, mas com a ostentação do opaco, elas talvez falem de uma elegância construída, baseadas na informação de que existem, sim, mas dentro de um recato escondedor de humores e humores.

Como na teoria dos quatro humores, as bocas pintadas falam da saúde física e também mental de seus donos. Se no físico os quatro humores estão equilibrados, sangue, fleuma, bílis e bílis negra, o sujeito vai bem. Segundo a teoria da época da Grécia Antiga, as doenças humanas, físicas ou mentais, estariam no aumento ou decréscimo destes fluidos e, dessa forma, quanto mais sangue mais sociáveis, mais fleuma, maior a calmaria, mais bílis, mais cólera, mais bílis negra, maior a melancolia.

Nos lábios pintados esse entendimento parece ter permanecido. Se de vermelho seriam as bocas seriam a representação do sexo feminino pronto para o gozo de suas virtudes, em boa sociabilidade, com cores mais pálidas eles somente estariam ali, calmos mas talvez ávidos para serem requisitados e terem a sua prontidão transformada. Lábios mais escuros mostram uma sobriedade, tornando mais sisudo, mas não menos sensual o semblante, e bocas realmente escuras, simbolizariam a tristeza, vide a cor das bocas dos antigos darks e agora dos emos.

As mulheres e similares com as drags, tras e trans, assim como os estilosos de tribos diversas e toda a sorte de usuários de batons, se sentem poderosos com o uso do cosmético. Ele revela, sem dúvida, um ser/estar, um devir, uma emoção ocasional que merece ser compartilhada e vivida não somente por quem usa, mas por quem se depara com bocas assim traduzidas.

Transformações permanentes
ou passageiras: o outro em nós

Tudo que consegui em termos de mudança corporal, até hoje, foi manter o semi-permanente furo na orelha. Um em cada uma que podem ser fechados a qualquer momento. Mas, as mudanças são tantas e tão possíveis que, brincos parecem bobagens pouco eloquentes, ou seja, falando pouco de quem usa. De todo modo a extroversão de quem usa pode ser medida pelo tamanho dos brincos, na quantidade deles, o ímpeto, a capacidade de ousar, o local onde eles são postos, talvez, a coragem.

Tantas são as transformações possíveis que é fácil nos reinventarmos. Talvez nunca descubramos se fulano tem realmente aquele cabelo preto, lindamente escorrido, lisíssimo, por sobre os olhos, profundamente azuis e lacrimejantes, como desses garotos que, por modismo parecem esculpidos a partir de um mangá. Ou, se aquela amiga de anos é realmente loira.

Tais modificações físicas, permanentes ou provisórias, tentam aproximar a imagem de nosso “eu verdadeiro” à de nosso “eu exterior”. E porque não dizer que o inverso também seria possível. Retocar o nosso íntimo pode parecer mais difícil, mas, na mesma medida, possível, plausível e necessário, quando é para melhor.

Mais definitivas que as colorações, são as mudanças físicas baseadas em cirurgias ou alterações plásticas. Desde uma revisão na pontinha do nariz até o implante de chifres e esculturas dentárias, aliadas a tatuagens que poderiam fazer do recriador de si mesmo uma mistura de homem e animal, as idealizações de um involucro perfeito para abarcar a personalidade dos indivíduos são perseguidas. E nesse caso, não se trataria de tornar-se aquilo que é aceito mas, aquilo que precisa ser aceito no íntimo de cada um de nós.

Enfim, tais reinvenções poderiam expressar os modos de entender, ser e sentir o mundo ao nosso redor e com elas tentar preparar os arredores mais de acordo com o esperado. É como a história da gentileza: em geral, quando você a oferece também a recebe de volta. No caso das máscaras, as utilizamos para termos do mundo o que desejamos ver a partir delas, reinventando sentidos e modos de sentir.

Sobre a autora

Silvia Regina de Jesus é doutoranda e mestra em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, graduada em Comunicação Social com ênfase em publicidade e propaganda e jornalista por opção. Além disso, é editora de Gostonomia, escrevendo contos e reflexões sobre gosto: a capacidade de apreensão apreciativa da gente e das coisas. É autora de A sensibilidade inteligível do chocolate: uma análise do fazer estésico apreendido, cultivado e comunicado, dissertação orientada por Ana Claudia de Oliveira que, pode ser encontrada em: Domínio Público.gov.br.[ http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=167688%5D