Felicidade Sustentável: um jeito de viver


por Silvia Regina Guimarães


Chirles de Oliveira é jornalista e mestra em Comunicação e Práticas de Consumo, professora de graduação e pós, mas o que a traz à Gostonomia é o fato de ser uma buscadora constante de tudo aquilo que faz a vida ser feliz, sustentavelmente. Criadora do blog Felicidade Sustentável, Chirles nos apresenta suas ideias e esclarece o que é possível quando estamos dispostos a sermos mais, escolhendo a felicidade como experiência cotidiana.

São Paulo, 08 de maio de 2019.

Querida Chirles, muito obrigada pela oportunidade de conversarmos um pouco sobre “felicidade sustentável”.
Desde 2010, aqui em Gostonomia, a busca pela felicidade, ainda que indireta e momentaneamente, na duração de um gosto, vem sendo perseguida em nossas publicações. Acreditamos que uma mudança nos pontos de vista, no aprimoramento do ser e do sentir, pode resultar em melhores experiências, e isso faria qualquer um ser mais feliz. Mas, quando me deparei com seus estudos e produções, uma pergunta me veio a mente: como assim felicidade sustentável? É possível realmente falarmos sobre uma felicidade plena ou estamos falando de uma busca constante, diária e cheia de regras para que uma felicidade seja possível? O que é felicidade, afinal? Do que estaríamos falando, mais precisamente?

São Paulo, 16 de maio de 2019.

diviulgação/ felicidadesustentavel.com.br

Querida Silvia, 

Sou grata pela oportunidade de conversarmos sobre felicidade na Gostonomia. Fico feliz em saber que seu público se interessa pelo tema, mas quem não se interessa não é verdade? Já que a felicidade é o desejo mais intrínseco do ser humano, como bem afirmava Aristóteles na Grécia Antiga. Ele escreveu que a Felicidade é o maior desejo dos seres humanos. Então, fico me perguntando o porquê de  tanta tristeza, depressão, infelicidade nos tempos pós modernos. Eu não tenho a resposta, mas aprendi que a felicidade não é para ser um lampejo, poucos momentos e o resto é a vida real…essa é uma visão muito pessimista sobre a vida e sobre a felicidade.
O nome felicidade sustentável na verdade surgiu com a ideia de aliar dois valores que para mim são muito caros: Felicidade + Sustentabilidade, mas no final as pessoas fazem realmente essa interpretação de uma felicidade que se sustenta, ou seja, que é permanente. E tudo bem, pois talvez esse seja o desejo das pessoas viverem mais felizes…e nossos artigos no portal Felicidade Sustentável realmente tem tido nos últimos  tempos mais essa pegada comportamental, baseado na vivências dos colunistas e no meu caso, baseado nas pesquisas da Filosofia, da Psicologia Positiva e da neurociência.

Mas para esclarecer, não temos uma felicidade permanente, pois vivemos num mundo de dualidades, e num mundo cheio de desafios. Viemos aqui para aprender, para evoluir e sermos melhores. Mas diante das dificuldades eu posso escolher reagir observando a situação sob o viés do copo meio cheio ou meio vazio. Ou seja, posso ser resiliente e aprender como superar e fazer diferente, ou ficar revoltado e paralisado. Essa é a diferença de quem cultiva um mindset (mentalidade) positiva e de felicidade para quem enxerga a vida como um estorvo, como um lugar de sofrimento contínuo.
A felicidade não deve ser uma obrigação, como muitos falam sobre a ditadura da Felicidade, mas também não concordo que ela deva ser esperada como um golpe de sorte. Ah! fulano é feliz porque tem sorte ou dinheiro. Felicidade não tem nada a ver com dinheiro, status, bens materiais ou sorte. Felicidade tem a ver com você colocar seus dons, talentos, virtudes em ação, como preconizou o próprio Aristóteles  

“Felicidade é uma atividade, pois não está acessível àqueles que  passam a vida adormecidos”. 

Ele define Felicidade como um estilo de vida: o ser humano precisa exercitar constantemente o melhor que tem dentro de si. Ou seja, felicidade exige ação a partir da consciência de quem somos, de quais são nossos valores, virtudes, para colocar toda essa potência a serviço do mundo. Quanto mais contribuímos com o todo, mais nos sentimos felizes, pois a vida passa a ter sentido. Pessoas que encontraram seu porquê, enfrenta qualquer como, como afirmou Victor Frankl.
Uma vida pautada apenas nos prazeres, no egoísmo, no individualismo, na aquisição de bens e status, ou seja, no hedonismo tão propagado por tantas instituições e pela mídia, dificilmente é percebida como uma vida com significado, com propósito, e talvez, essa seja uma das razões para tanta infelicidade. Colocar a razão da felicidade no externo, gera expectativas e frustrações, daí a expressão de tanto sofrimento social. Descobrir o seu porquê no mundo, o seu propósito e cumprir sua missão, traz um sentido de realização, orgulho, a expressão da sua melhor versão, e isso realmente é maravilhoso.  Gosto bastante dessa afirmação do Dalai Lama,   

“a felicidade não é algo que vem pronto, ela é resultado de suas ações”.

Ela demonstra o quanto precisamos entender que a felicidade é resultado das nossas ações. E também que ela deve fazer parte da nossa jornada e não um objetivo para o fim da vida. Uma premiação. 
A felicidade vem do nosso estado de consciência, de quem eu sou, do que vim  fazer no mundo, colocando minhas habilidades, virtudes, valores para cumprir meu propósito. Eu pensava que meu propósito era ensinar. Depois descobri que essa é minha missão. Meu propósito que tem a ver com o legado que queremos deixar no mundo, vem da minha habilidade de  ensinar e de comunicar mas focado para inspirar pessoas a viverem mais felizes. Então, meu propósito é ampliar a consciência sobre a felicidade, demonstrando que podemos cultivar a felicidade por meio da meditação, do aumento das emoções positivas praticadas diariamente, da descoberta de uma vida com significado, com propósito, por meio da contribuição para nós, para  o outro e para o todo. 

Quem quiser saber mais sobre como cultivar a felicidade baseada na Ciência da Felicidade, Chirles ministra o Workshop Felicidade Sustentável, no Unibes Cultural, uma vez por mês, aos sábados.

Os próximos encontros serão: 15 de junho, 17 de agosto e 21 de setembro de 2019.

Workshop Felicidade Sustentável
Unibes Cultural – das 10h as 13h30.
Rua Oscar Freire 2500 (do lado do metrô Sumaré)Mais informações no site www.felicidadesustentavel.com.br

São Paulo, 28 de maio de 2019.

Chirles, perdão pela demora em dar continuidade à nossa conversa.

De repente fui pega pelas necessidades de um cotidiano que se expressa gritando, exigindo, definindo o que pode e o que não pode ser. Um tempo que me permitiu refletir sobre o que você disse a respeito da descoberta de uma razão para viver. Fiquei pensando se vivemos a felicidade que nos permitimos ter, quando aceitamos tais proposições diárias, ou se, simplesmente, vemos a trama da vida se desenrolar, sem maiores controles. Noto que as pessoas, de maneira geral, não têm bem definidos os seus propósitos. Você nota isso também?
Em suas palestras e workshops, as pessoas chegam com essa sabedoria ou descobrem suas motivações no desenvolvimento dos processos? Você tem propostas de como seria possível encontrar um sentido para a vida? Lendo o jornal e observando o dia a dia, fica difícil acreditar que haja um sentido, para cada um de nós, diante de tanta falta de sentido.

São Paulo, 10 de junho de 2019.

Chirles com a turma de uma de suas oficinas.

Querida Silvia,

De repente o cotidiano nos engole, a mim também, e precisamos ligar o sinal de alerta, que muitas vezes é dado pelo nosso próprio corpo. Quantos de nós acaba achando normal apenas tomar remédios para aliviar as dores do corpo, quando na verdade essas dores são da alma. O corpo sente o que a alma grita. A somatização de doenças é uma realidade. Milhares de pessoas com depressão, crises e transtornos de ansiedade, síndrome do pânico, anorexia, dentre tantas outras, só pode revelar que enquanto sociedade tomamos o caminho errado, equivocado, e precisamos acordar.
Ontem assisti ao documentário Eu Sou Maris, no Netflix que fala de uma jovem adolescente que sofreu de anorexia e depressão e encontrou na YOGA seu caminho de cura. Ela encontrou seu propósito como professora de Yoga, e hoje se sente pertencente, feliz, realizada, voltou a sorrir e a ter vontade de viver. Descobriu aos 15 anos que podia mudar sua vida.
Já ouviu a frase: a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional. Pois bem, nós podemos fazer nossas escolhas diante dos desafios e dificuldades. Eu não sou escrava do destino. Pelo contrário, eu posso assumir com minhas escolhas, a realidade que eu quero desenhar. E na correria, às vezes, não percebemos nossa dor. Mas no silêncio…ela se revela.   Ou no estágio mais avançado, quando o corpo fala por meio das doenças.

Ter uma vida corrida, estressada, sem sentindo, até quando? Mas, sabe, confesso que tenho percebido um movimento diferente, na busca de uma vida significativa. Acabei de encontrar uma aluna no elevador que foi na minha palestra sobre Felicidade na Carreira. Ela me contou que acabou de pedir demissão após 4 anos de atuação numa organização. Mas preferiu ter coragem que adoecer. E isso não significa que todas as pessoas têm que fazer isso, chutar o pau da barraca, jogar tudo para o alto, do dia para noite. Isso vai depender do perfil de cada um. É possível fazer uma transição de carreira, é possível ir ao encontro do que realmente faz sentido, é preciso ter coragem para ser feliz.

Uma vida com sentindo é uma vida com propósito. Costumo dizer que isso acontece quando encontramos o nosso encaixe no mundo. Eu vim para fazer algo e estou atuando, realizando, evoluindo e dando minha contribuição para o mundo. Uma vida com propósito não está focada em si, no egoísmo, numa vida pautada no consumismo, no ter coisas, no não ter tempo para fazer o que gosta e tem paixão. Já parou para pensar “O que te move todos os dias?”, ” Para que você acorda?” “Como você será lembrado?”

Uma vida com propósito tem a ver com uma vida feliz. Pois quando realizamos aquilo que somos apaixonados, colocando nossos talentos a serviço da comunidade, sentimos o senso de pertencimento, de dignidade, de plenitude, de inteireza.
Ah, como revelar o propósito? O meu processo aconteceu participando de workshop sobre o tema. Já fiz 3, e acredite apenas esse ano, eu obtive a clareza sobre o meu propósito que é diferente de missão. Então, em palestras nós apenas levantemos algumas reflexões importantes, mas é preciso mergulhar mais, é preciso florescer por meio do autoconhecimento, e às vezes isso requer algum tempo de maturação.
É preciso coragem, mas não é isso que a vida nos pede? Vulnerabilidade e coragem?  É preciso coragem para enfrentar o desconforto e a zona de conforto. Muitas pessoas sofrem e ficam apegadas ao sofrimento…e isso é uma escolha. Porque o não escolher, também é uma escolha.

Beijos e adorei trocar essas cartas com você.

P.s. – Então, no dia 17 de agosto, facilitarei um workshop sobre propósito no Unibes Cultural, dando sequência ao workshop Felicidade Sustentável que está acontecendo em 4 encontros, um sábado por mês, das 10 às 13h30. E claro que o tempo será curto, mas levantarei algumas reflexões essenciais para a descoberta do propósito. O mundo não é apenas do fazer, é sobretudo, do sentir… você sente que sua vida tem sentido? Você ouve sua intuição, ouve a voz do seu coração?
Convido a participar do workshop, vamos desvelar isso juntos?
Fica aqui o convite!


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