Os ua-uás do Manzi


por Silvia Regina Guimarães


Giuliano Tosin é Juli Manzi. E apesar de desejar fazer muito sentido com essa frase, como se ela fosse capaz de resumir tudo, é inevitável perceber com surpresa seu significado: o homem que atende pelos dois nomes, divide a sua vida entre a loucura de ser um professor de graduação, sobretudo nos tempos atuais, e  a excentricidade compassada da vida de um  músico eclético.


Em plena comemoração dos 20 anos de lançamento de seu primeiro álbum, Manzi se corresponde com Gostonomia numa troca de ideias fluente, por entre as vistas de todos que quiserem experimentar um pouco mais de seu ritmo; pondera sobre os anos de atuação com a música independente,  com a sua vida acadêmica e a de centenas de alunos e com as múltiplas formas de fazer música com arte.

Parte I

Fotos: Rafael Avancini

Discografia

1999
340 Exigências de Camarim
2002
Todo o Perfex
2010
Coletivo Absoluto
2012
Ponto Cego
2014
O Plano Transcendental
2018
Sambas, Pagodes e Uá-Uás


Gostonomia
[A primeira troca de cartas aconteceu entre 2 e 7 de abril]

São Paulo, 02 de abril de 2019

Quando decidimos trocar essa correspondência não perguntei sobre com quem deveria conversar: Giuliano Tosin ou Juli Manzi? Então, acredito que devo saudar os dois e pedir que pelo menos um deles me conte um pouco sobre essas individuações. Quem é quem nos cenários imaginados para o professor de Comunicação e para o músico de estilos variados?
Tendo a pensar que o Manzi é uma versão do Tosin que ganha cada vez mais expressão e espaço, mas talvez seja uma percepção trazida pelo último trabalho, “Sambas, Pagodes e Uá-Uás” (2018), em que ele aparece tão cheio de si, expansivo e dançante, vivendo um eterno verão, com seu grosso cordão de ouro no pescoço. Um trabalho que, ainda que seja uma evolução dos processos criativos dos álbuns anteriores, é uma surpresa pelo estilo. O que me fez lembrar: abril é o mês de seu aniversário, dia 14, e você também comemora 20 anos de “340 Exigências de Camarim” (1999), o seu primeiro álbum. Nesse tempo, o que mudou na vida como pesquisador e como artista, para onde seus gostos e sua arte o trouxeram?


[Primeira resposta de Juli Manzi a Gostonomia]

São Paulo, 07 de abril de 2019

Sambas, pagodes e uá-uás, lançado em 2018.

Silvia Regina, minha cara

Espero sinceramente que esta te encontre na melhor forma, gozando de boa saúde e com a alegria e vivacidade que te são tão características. Admiro tuas colocações e agradeço seu interesse, farei todo o possível para atender suas expectativas em nossa correspondência pública.

O dramaturgo Martins Pena escreveu numa peça que o nome é apenas uma voz com a qual se dá a conhecer as coisas. Algumas coisas tem mais de um nome, isso não é raro, e são nomes que designam exatamente essa mesma coisa. Portanto, não acredito em individuações sob a mesma pele e, graças a deus, nunca manifestei tendências esquizofrênicas. Em meados dos anos 90 eu cursava jornalismo na Ufrgs, em Porto Alegre, minha cidade natal, e cantava numa banda chamada Los Bassetas. Decidimos que todos os integrantes deveriam adotar um pseudônimo na banda, e o escolhido para mim foi Juli Manzi. Achei simpático, sobretudo por não designar nada, especificamente. Depois vim a descobrir que existe um compositor de tango argentino famoso chamado Homero Manzi, volta e meia me perguntam se sou parente desse cara.

À parte da banda de rock, eu tocava violão e compunha em estilos variados, isso sempre foi característico da minha musicalidade, como você mesma observou. Ouvir diversos tipos de música me inspira a compor em diferentes gêneros musicais. Saí da banda para fazer minha carreira solo exatamente porque acreditava que tinha que explorar essa diversidade. Na época, eu estava bem empolgado com os recentes trabalhos solo dos Titãs (Arnaldo, Nando e Miklos), eles também estavam migrando para essa diversidade, para um lugar musical não muito distante de onde estavam artistas novos na época, como Lenine, Marisa Monte, Zeca Baleiro e Carlinhos Brown. Eu achava que essa era a direção a ser tomada, mas respeitando uma posição mais underground, vinculada também aos compositores malditos da música brasileira, como Tom Zé, Itamar, Macalé e outros, além dos compositores porto-alegrenses, principalmente Nei Lisboa e Vitor Ramil.

Minha proposta solo foi bem recebida e, logo em seguida, fui contemplado por uma lei municipal que financiou meu primeiro disco, chamado 340 Exigências de Camarim. O meu sonho era construir uma carreira artística em nível nacional. Eu era jovem e desapegado, só tinha medo de virar um artista restrito ao cenário musical gaúcho. Por isso, achava que, como estava sendo considerado um talento promissor, eu tinha que ir logo para São Paulo. E foi o que fiz. Antes mesmo do disco sair eu já estava morando na casa do meu irmão, em Campinas, a 70 Km de Sampa. Quando você me pergunta para onde minha arte me trouxe, se eu interpretar isso como um lugar físico, a resposta imediata é São Paulo. Eu não viria para cá por nenhum outro motivo que não fosse a música. Salvo para passear, lógico.

Se, por um lado, a música sempre foi meu grande fator de motivação existencial, por outro, ela nunca pagou minhas contas. Pelo contrário, acho que, se formos colocar na balança, talvez, ao longo da vida, ela tenha me trazido mais prejuízo financeiro do que lucro. Venho de uma família de classe média decadente e, desde muito cedo, tive convicção de que teria de me virar sozinho. Por isso, na hora do vestibular, não me inscrevi no curso de música, para decepção do meu pai. Mas pensei no texto, então fiz jornalismo. Eu estava me preparando para ter uma profissão paralela à música, e reparei que havia outros compositores formados em Comunicação Social. E eu tinha razão, no curso conheci um monte de artistas.

A universidade mexeu muito com a minha cabeça, sobretudo disciplinas como Sociologia, Antropologia, Psicologia e Semiótica. Para descolar grana, fazia estágios: Lab de rádio da facu, Grupo RBS, Assessoria de imprensa da prefeitura e uma rápida passagem pela extinta Gazeta Mercantil. Ao final do curso, eu era bolsista de iniciação científica e fazia uma monografia sobre a poética multimídia de Arnaldo Antunes. Eu queria continuar no meio universitário e ouvi falar que o departamento de Multimeios da Unicamp estava oferecendo mestrado em Produção Sonora. As coisas estavam convergindo no momento certo, embarquei. 

Mas, como você mesma disse, isso foi há vinte anos atrás, e eu bem lembro da minha mãe e da minha ex-namorada me abanando pela janela do ônibus, num mundo que era bem diferente. Você pergunta o que mudou na minha vida nesse tempo. Bom, em primeiro lugar eu me sinto sortudo por ter vivido esses vinte anos e acompanhado os rumos que o mundo tomou, ter presenciado as transformações, em todos os níveis e direções. Falo isso porque alguns companheiros já ficaram no meio desse percurso. Em segundo, me sinto feliz porque as atividades que desenvolvo permitem uma grande interação com diferentes tipos de pessoas, que se interessam por coisas bem variadas. É uma troca constante com alunos, colegas professores, compositores, pesquisadores, poetas, fãs (poucos), foliões e artistas de todo tipo e gênero. Todos se importam comigo e tem interesse pelas minhas coisas, e eu pelas coisas deles. Eu acho que esse é o principal legado que consegui construir nos últimos 20 anos. Fora isso, boas lembranças de ter tocado, composto e gravado com grandes músicos, feito shows em lugares legais e países distantes, recebido prêmio, ouvir minhas músicas nas rádios e nas plataformas digitais, sair na capa do jornal, enfim, coisas que todo artista gosta. A cerejinha do bolo vai vir com esses shows comemorativos deste mês, dia 13 em São Paulo e dia 27 em Porto Alegre, o segundo com participação de boa parte do elenco original do disco.

Sobre o novo álbum, “Sambas, Pagodes e Uá-Uás”, concordo com você que surpreenda pelo estilo, mas deixa eu explicar o processo todo. Consentimos há pouco que o meu repertório autoral é bastante eclético, e eu tinha uma boa quantidade de sambas compostos. Todos os tipos de samba, inclusive pagodes. Reuni esse repertório, selecionei algumas canções e montei uma lista das que poderiam integrar, pela primeira vez, um disco meu dedicado a um único estilo. Tive a ideia de propor ao produtor, que é guitarrista, que no lugar de cavaquinho colocássemos sempre guitarras com pedal Wawa, e esse é o conceito do disco. Ou seja, é um disco de samba com destaque para um instrumento típico do rock. Sobre o visual que adotei, eu estava procurando uma roupa de sambista para combinar com a música, um bonezinho meio Bezerra da Silva, coisas assim. Minha namorada Bruna, que é do ramo da moda, disse: “Vem aqui comigo que eu vou te mostrar como é a roupa de pagodeiro”. Fomos aqui perto de casa, no comércio da  Av. Domingos de Morais, e ela montou aquele visual, com óculos, relógio, boné, colar, tudo. Eu achei divertido e de bom gosto, para surpresa do vendedor. Depois, o astral adotado no clipe tinha que ser bem para cima, para acompanhar a pegada do restante das coisas. Por isso, apareço “cheio de si, expansivo e dançante, vivendo um eterno verão”, como você muito bem definiu. Foi muito divertido gravar, fomos a duas festas, um churrasco e um show em menos de 48 horas. A Bruna fez papel de blogueira da balada.    


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Parte II – atualizada em 05/05/2019

Foto de capa: 340 Exigências de Camarim/ Arquivo do músico

Quase um mês depoisApós os shows comemorativos de seu primeiro álbum, 340 Exigências de Camarim, por São Paulo e Porto Alegre, Juli Manzi nos envia resposta para a segunda e última carta-entrevista e nos mostra pensamentos preciosos sobre o momento que vivemos e os desafios que enfrentamos, na política, na educação e na cultura.

Gostonomia
[A segunda troca de cartas
aconteceu entre 15 de abril e 4 de maio]

São Paulo, 15 de abril, 2019

Juli, parabéns! Entre uma carta e outra você completou mais um ano e, acho, também por causa de Gostonomia, refletiu sobre toda a sua trajetória. Um aniversário é um marco e, a comemoração dos 20 anos de um álbum, também. Ao mencionar sua namorada, e a participação dela no clipe e, nas escolhas visuais desse Juli Manzi pagodeiro, do presente, você me inspirou a refletir sobre o futuro, os rumos de sua música e os nossos próprios. O que você percebe como artista, comunicador, professor e pesquisador? Quais são suas reflexões sobre os tempos atuais e o que acredita que virá? Sei que é um exercício meio futurológico e amplo, mas também sei que você, assim como eu, acredita no gosto pela vida, e isso se reflete em seu trabalho. Como Sambas, Pagodes e Uá-uás espelharia tais reflexões? Quando você me mostrou as faixas, ainda não finalizadas, do álbum, percebi as influências do jazz no seu samba, de música de trabalho e de uma malandragem, como a cantada pelo Bezerra. Lembrar que você é gaúcho, filho de uma cultura tão rica, deixa essas mesclas ainda mais interessantes. Penso que devemos observar a vida com esse ar de novidade, que você empunha em suas músicas e, acredito que, artistas como você, devam produzir mais, porque precisamos dessas fluências, influenciando prazeres, alegrias e reflexões, cada vez mais.

[Resposta de Juli Manzi a Gostonomia]

São Paulo, entre 30 de abril e 4 de maio, de 2019.

Divulgação/Arquivo do artista

Opa, muito obrigado! Um cara de meia-idade como eu, quando faz aniversário, começa se perguntar – O que vou fazer daqui pra frente? Qual a melhor maneira de usar esse tempo que ainda tenho antes que a decadência do meu vigor comece a se manifestar? Rsrsrs. Se é que já não está se manifestando… Kkkk. Sim, como você disse, nossa correspondência anterior me fez pensar sobre o intervalo de tempo dos últimos 20 anos. Vivi essa percepção ainda mais intensamente quando fui para Porto Alegre na semana passada e reencontrei 12 músicos que participaram das gravações originais do 340 Exigências de Camarim, ensaiamos e fizemos um belo show, onde o público mostrou que não esqueceu das letras. Ainda não sinto medo da passagem do tempo, embora às vezes impressione.

Agora pulamos do passado para o futuro, como você me propõe. Sobre os rumos da minha música, num primeiro momento eu quero fazer mais apresentações do show Sambas, Pagodes e Uá-Uás, a banda é muito boa e os arranjos do guitarrista e produtor musical Marcel Rocha ficaram ótimos. Em seguida, penso em montar um show com músicas dos meus cinco discos anteriores, escolher algumas e fazer um repertório para um show bem para cima, bem alto astral. Sobre os dias de hoje, tenho receio de que meu disco mais recente “Sambas, Pagodes e Uá-Uás” tenha sido recebido de forma ingênua por algumas pessoas, como se fosse uma tentativa minha de fazer sucesso como pagodeiro. Quer dizer, compraram a imagem antes de ouvir o disco e a riqueza de arranjos que ele possui, que dialogam com vários gêneros musicais a partir de um repertório de sambas, inclusive com o próprio jazz, como você mesma observou. Aquelas músicas ali não têm absolutamente nada a ver com o pagode comercial, a proposta é bem diferente. Mas esse título do álbum e aquela foto de pagodeiro na capa geraram rejeição quando fui propor o show para lugares underground e descolados. Isso mostra que o preconceito está disseminado em todas as áreas e que muita gente não dedica tempo suficiente para um aprofundamento mínimo em relação a novas propostas.

Já sobre os rumos da cultura e de quem faz arte no Brasil, é nítido que a situação está muito frágil e o futuro próximo não é nada promissor. A valorização da cultura como segmento essencial da sociedade está em franca decadência. Há 20 anos atrás, na Porto Alegre dos anos 90, surgiu a lei Fumproarte, que fomentou para valer a cena local, de onde saiu, inclusive, o financiamento para meu primeiro disco, o 340 Exigências de Camarim. Na década seguinte, passamos por um novo período de valorização da cultura, dessa vez em nível nacional, com várias leis, editais e projetos, com subsídios oriundos diretamente do cofre do governo, sem necessidade de parcerias com empresas. A cultura não pode deixar de ser prioridade. Ela não enche barriga nem garante dinheiro no bolso, mas serve exatamente para lembrar que a vida não se reduz a essas coisas. A existência como aventura da alma, a experiência como fonte de inspiração para o ser, a capacidade de ser crítico, racional e inovador, todos esses fatores têm uma relação direta com a cultura e as formas como ela se manifesta. Além disso, ela é a fonte da memória, uma sociedade que não produziu cultura vai desaparecer, e o momento de pensar nessas coisas é o presente. Mas os sintomas atuais são bem claros, por exemplo: ministro que adora biografias mas não lembra nem da última que leu, presidente que só conhece cinema americano e um celebrado deputado-ator que só fez sucesso em pornô e telenovela. Não tenho nada contra o pornô, mas é só instinto. Então, se as pessoas que ocupam postos estratégicos não têm boas referências culturais, como vão valorizar a cultura?

Quando você fala do meu “gosto pela vida”, acho que se refere à capacidade de desfrutar as sensações de cada momento fazendo aquilo que gosta, junto a pessoas que se sente bem, e acreditar num futuro melhor para nós mesmos e para as gerações que vêm. Sou a favor da civilização e do progresso da humanidade como um todo, ou seja, como espécie. Isso quer dizer que defendo os direitos humanos, a democracia e o combate à desigualdade, sou contra qualquer forma de terrorismo, de xenofobia, de preconceito, de autoritarismo e de discriminação. Mas o que fazer com as pessoas que pensam convictamente o contrário? Acho que esse é o ponto crucial das discussões no momento – Quais são os limites da tolerância no convívio social? Como dialogar com pessoas que estampam na testa sua militância pelo retrocesso da civilização? Que são estes capazes de comemorar o assassinato de crianças? Eu ainda acredito na humanidade, sou humanista, temos que ser, a perda das esperanças é uma ameaça que, quando aliada às frustrações e decepções individuais, pode se transformar numa ferramenta perigosa para o destino da sociedade. Outro problema que percebo é que, no ambiente atual de polarização, você é obrigado a vestir uma camiseta o que, muitas vezes, pode te impedir de raciocinar por conta própria, comprometendo a autonomia da visão.

Minha cara, mais uma vez quero manifestar gratidão imensa pela nossa correspondência, sempre considerei essa possibilidade de interlocução um privilégio!

P.S. – Acho interessante que você se refira à cultura gaúcha como “uma cultura tão rica”, porque percebo que a cultura popular do sul do país não dialoga muito bem com o consumo paulistano. O que prevalece aqui, sem dúvida, é a cultura do nordeste, a cultura do interior do estado (sertaneja) e o consumo urbano cosmopolita (rap, funk, rock, etc.). Nesse último caso, as bandas do “rock gaúcho”, por serem muito boas, conseguiram espaço. Mas a música popular gaúcha, em suas variadas matrizes, muito pouco.

Clique e (re)veja mais de Juli Manzi:
No açúcar, no trabalho presente em Sambas, Pagodes e Uá-uás

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