Ruínas e questionamentos

por Aryadne Gomes

Era um domingo como qualquer outro, eu estava em casa, vendo qualquer bobagem na televisão aberta, e então, aquela pausa dramática de todo programa ao vivo para noticiar um dos piores acontecimentos desse ano: o museu mais antigo do país estava indo embora, talvez a única coisa boa que a época de colônia, de uma monarquia forçada e fracassada nos deixou.

E nisso, fiquei me perguntando, consternada, onde, como e porque deixamos (como povo) isso acontecer?

Quando nós deixamos de lado nossa identidade cultural, nossos rastros como um projeto de sociedade? Ou melhor, quando nós simplesmente passamos a aceitar o sucateamento de nossas instituições, quando fragilizamos nossos refúgios de paz, de arte, de história, de conhecimento, de estudo?

Quando foi que nós cobrimos a tristeza e a revolta por sermos abandonados, largados com nossos próprios sonhos, com o comodismo? Será que algo dentro de cada um de nós, que acredita no Brasil, que sabe que a nossa cultura vai além do que é exportado, também já não havia virado cinzas?

Toda vez que digo a alguém que gostaria de lecionar, as pessoas dizem “você nunca vai ter dinheiro”, “isso não dá lucro”, “não vale a pena, faz outra coisa”, eu fico pensando, quando foi que nós, povo, esquecemos do valor enorme da educação. Quando foi que nós, fomos permitindo que isso morra, acabe, vire cinza, assim como aquele inestimável museu virou?

Algumas pessoas não entendem tal comoção ao ver, sei lá quantos anos, muitos, de história, cultura, arte e muito trabalho indo embora por culpa única e exclusivamente do abandono, do descaso que toma esse país, que engole o estado, que nos engole diariamente, nos sufoca e nos coloca do status quo da busca pela sobrevivência.

A comoção desse domingo, que permanecerá até o fim dos meus dias se junto a várias outras, quantos outros museus, fundações, cinemas, memoriais e afins já não deixamos ir? Quantos mais deles vão ter que ir e nos deixar um pouco mais pobres de espírito, um pouco mais tristes, para que algo se mova e mude?

Mas, como cobrar do povo, da grande massa, a indignação para além da própria miserabilidade? A vida é dura, implacável, sofrida e doída para um povo que não visita museus.

A ignorância é o alimento principal do Estado falido. Não foi apenas o museu mais antigo que queimou até morrer, um pouco do Brasil, um pouco de Portugal, um pouco do Egito Antigo, um pouco de tudo que teoricamente nos faz uma grande Pátria. Um pouco de mim, de você, de Luzia, uma primeira brasileira, que resistiu há 11 mil anos de história, mas não resistiu ao descaso e ao abandono ao qual estamos fadados.
Uma pena Luzia, uma pena eu não ter podido ir ao Museu em tempo; uma pena as próximas gerações serem obrigadas a ver você em alguma porcaria tecnológica moderna num telão em algum outro Museu do Amanhã; uma pena que tenhamos mais essa vergonha triste para carregar.


Aryadne Gomes é jornalista e quase publicitária. Também é quase pós-graduada em social media. Gosta de política, de economia, de sociologia, de arte, enfim, gosta de muitas coisas e acredita que a crítica seja necessária, diariamente.