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A transcendência como tema

paradoxos, tempo, vida e morte em três séries de TV

por Silvia Regina Guimarães


Em tempos de crise, guerra, fome, seca, inundações, impertinência, arrogância e muita violência, a transcendência humana está presente como assunto forte na TV sob demanda. Conteúdos que propõem vida além de sua forma linear pipocam em títulos que elaboram o tema com humor, teorias de física quântica e muita ficção, também científica.

Essas metafísicas são os temas de três séries cativantes disponíveis no Netflix, uma fonte que precisa ter no Brasil a velocidade da nossa audiência, ávida por mais. Dentre elas estão: Sense8, The OA  e Dirk Gently’s Holistic Detective Agency.

É preciso reconhecer a habilidade destas séries em nos levar para um terreno hipotético extremamente fértil. A transcendência da vida humana, ou seja, a superação de seus limites, nem sempre acontece de maneira elevada nestes contextos, mas acontece e constroem novas fórmulas para fazer a coisa de viver dar certo ou pelo menos se tornar mais interessante.


Simultaneidade e empatia
– Com a segunda temporada prevista para 2017, Sense8 tem somente a primeira temporada (2015) e um especial de fim de ano (2016) disponibilizados. Criada pelas irmãs Wachowski e J. Michael Straczynski, é uma série inteligente que coloca em contato íntimo e peculiar oito indivíduos dispersos pelo mundo, nascidos no mesmo dia e hora, ligados por uma mesma energia telepática que os faz dividir problemas, conhecimentos, habilidades e prazeres, tudo em conjunto e simultaneidade. A situação de não estar só, qualquer que seja o momento, desfaz a individualidade humana, propondo um raciocínio interessante sobre um “eu” diverso, que não somente se ocupa do outro, mas o vive e o sente como a si mesmo.

Entre lá e aqui – The OA, série dramática criada e produzida por Brit Marling e Zal Batmanglij (2016), traz a percepção maior como conquista na experiência de quase morte. Prairie (Brit Marling) uma jovem que todos conheciam cega, reaparece após sete anos com cicatrizes curiosas e a visão recuperada, além de um grande mistério, paulatinamente revelado, numa trama cheia de articulações e interpretações em planos distintos de existência. Entre a fé, a verdade e a mentira dessa narrativa, indivíduos são conectados e novamente as relações e as sensações humanas se refazem e se hibridizam. Muitos caminhos são possíveis, repletos de segredos que dependem do espectador para se solucionarem e tomarem um rumo ou outro no entendimento. Mas, além do caráter místico alinhavando cada estranhamento, o que marca nos envolvimentos das personagens é uma constante evolução nos modos de ser e de viver em sociedade.

Paradoxos bem-humorados – Dirk Gently’s Holistic Agency, criada por Max Landis, é uma série baseada nos livros homônimos de Douglas Adams. As propostas são muitas, todas direcionando a vida depressiva de Todd (Elijah Wood) a um novo patamar: o de detetive holístico, ao lado do vidente Dirk (Samuel Barnett). A descoberta de que a vida acontece sob um véu de conexões estabelecidas numa linha de tempo não linear, muito mais amplas e complexas do que a compreensão humana é capaz de captar, promove uma ligação imediata com as personagens e a crença de que tudo em rede. Os acontecimentos e os porquês interligam pessoas, experiências e fatos que desenrolam o enredo fazendo do espectador um membro da equipe.

Estar atento a essa programação talvez seja uma demonstração da própria boa vontade em relação à vida. Afinal, esses e outros títulos possuem a vantagem da fuga, certamente catártica, da rotineira falta de perspectiva e da agressividade tão presente nas séries e nos jornais.

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