Paralimpíadas: manutenção das desigualdades

Ao iniciar esse texto, me dei conta que o corretor ortográfico criou uma hachura sublinhando a palavra “paralimpíadas”. Parei, um tempinho, observando essa retirada do “o” da palavra “paraolimpíada”. Pensei que, assim como mutilaram a palavra, que só se criou por conta de ausências físicas nos atletas, ainda resistem fortes conceitos que tiram direitos da presença dessa comunidade nos jogos olímpicos.  Qual o motivo de existirem festas separadas? Por que não termos uma jornada única dessa demonstração do mais forte, do mais rápido, do que alcança mais longe ou mais alto?

Da mesma maneira que um caminhante pode decidir tornar-se um maratonista, qualquer cadeirante também pode. O que difere um e outro é o fato de que, o caminhante poderá fazer parte da comunidade de deficientes em qualquer momento da vida. Isso independerá de sua conta bancária, etnia, cor de pele, tipo de cabelo, nacionalidade, naturalidade, religião, posicionamento político ou gênero.

Os meios de comunicação deveriam ter guardado o discurso sobre a superação para agora, quando os atletas que superam o físico e a física exibem suas potencialidades. Mas quem ouviria? O que se exibe nesse momento são compactos dos melhores momentos e notícias das melhores performances, das medalhas conquistadas, da supremacia brasileira, por exemplo, em diversas modalidades. Mas pouco se vê.

A EBC (Empresa Brasil de Comunicação) não liberou o direito de transmissão dos jogos para a TV Cultura, porque, segundo foi divulgado, a emissora não está integrada à Rede Nacional de TV Pública; os interessados deverão assistir aos jogos pela TV Brasil e pelo canal fechado SporTV; as emissoras abertas, que disputaram o interesse do público pelos Jogos Olímpicos, não abrirão mais do que a pauta em seu jornalismo para atualizar os interessados.

Na minha região, na capital paulistana, não localizei a TV Brasil via sinal digital (3.1) e o analógico (62), não sintoniza; como há algum tempo cancelei o serviço de TV a cabo, fiquei de fora. Me restaria a Internet, mas ao entrar no site de transmissão da TV Brasil, lê-se logo de cara que, por direitos de transmissão, os jogos paraolímpicos não serão transmitidos pela rede.

Muito mais que atletas, os profissionais de alto rendimento que agora competem, merecem mais que a atenção dos veículos de comunicação, ainda crentes na formatação das agendas de interesse de seus públicos; merecem mais que um meio-discurso do encorajado Michel Temer, que parece ter visto uma oportunidade de falar com a massa, maioritariamente menos favorecida, na ocasião da reabertura dos jogos. Eles merecem o fomento dos grandes investidores, que ajudam a organizar a grade de veiculação da grande mídia. Eles merecem a compreensão e a atenção dos profissionais de marketing que precisam abrir de vez o caminho para o encontro da população com seus novos heróis, da resistência, da superação, da força de vontade.

A crônica esportiva cansou de mostrar, nas últimas semanas, os grandes personagens implicados nesse momento dos Jogos Olímpicos; na verdade, desde a exibição das atletas do futebol, ela vem construindo este panorama de gente formada pela luta da sobrevivência. Veja Marta, a melhor entre os melhores do futebol, veja Miraildes Mota, a Formiga, aos 38 anos com o condicionamento intacto em campo.

Assim como o futebol feminino venderia muito bem, os atletas sem pernas e braços, sem oxigênio no cérebro no início da vida, falariam diretamente com essa grande maioria que se vê surrupiada de seus direitos, diariamente.