Hedonismo

Um encontro com os aromas

Cynthia Luderer nos fala sobre paraísos na Catalunha, onde os aromas são a atração

fotos e texto por Cynthia Luderer


A Catalunha, uma das províncias espanholas onde pulsam as inovações gastronômicas, apresenta atrações que os turistas, de passagem, pouco conhecem. Trata-se dos parcs de les olors ou dos parcs agroecològics. Esses parques dos cheiros ou os parques agro ecológicos são verdadeiros paraísos em que os aromas tornam-se uma das grandes atrações. Os lugares apresentam uma estrutura que possibilita aos visitantes passearem por seus caminhos para apreciar canteiros de ervas e flores, ou ainda terrários, onde são preservadas, por exemplo, tartarugas ou outras espécies de animais da região. As hortas, que também fazem parte dos complexos, muitas vezes são espaços alocados por pessoas que vivem nas regiões urbanas e encontram ali uma opção para plantar e cuidar de seus próprios alimentos. Como parte da estrutura, ainda há pequenas instalações, onde são vendidos alguns produtos artesanais, como pães, geleias, sucos, sabonetes, cremes, entre outros. Quando agendado, os visitantes também podem desfrutar das refeições que são elaboradas para degustar de iguarias típicas e que normalmente são elaboradas com os produtos do local.

Os caminhos para serem percorridos nos parques são bem sinalizados, inclusive há indicação das diversas plantas que são ali cultivadas. Mas, é comum que o passeio seja guiado por um especialista, que esclarece dúvidas da diversidade ali exposta. Além das informações expressas nos amplos canteiros, divulgadas com plaquinhas que designam o nome popular de cada planta – em duas ou mais línguas, seu nome científico e a aplicação que venham a ter- medicinal, aromática ou culinária, o guia esclarece dúvidas e aguça outras. A proposta é para que os visitantes toquem, cheirem e, quando possível, degustem cada uma das ervas ou flores. É uma incitação aos sentidos e à memória!

É possível organizar uma visita a esses lugares em qualquer período do ano. A primavera, com certeza, é uma excelente opção, pois é uma fase distinta das demais devido às cores da natureza que se exaltam nessa estação.  Mas, além desse período, dentre o extenso calendário de festas comemoradas na Catalunha, há um dia especial e que merece ser comemorado em um desses parques. Trata-se da verbena, um evento de tradição medieval e comemorado na passagem do dia 23 para 24 de junho – o dia de São João.

Neste dia, que está relacionado ao solstício de verão – pois marca o início do verão no hemisfério norte, é o dia mais longo do ano, portanto, tem a noite mais curta – o oposto do que ocorre no Brasil. Os catalães, nessas noites, replicam alguns ritos de passagem e, quando estão próximos do Mediterrâneo, a comemoração faz lembrar, inclusive, a festa de réveillon dos brasileiros. Além da queima de fogos, que são estourados à beira mar, as pessoas entram no mar e esperam passar nove ondas (e não sete, como no Brasil) para que elas tragam as boas energias para o período que se inicia. As praias ficam repletas de pessoas que se reúnem em torno de fogueiras. As labaredas, além de aquecerem as pessoas do frio, que avança na madrugada, tornam-se o ponto central para reuni-las. O fogo também tem o poder para queimar os sentimentos ruins, ou seja, os pequenos papéis em que as pessoas escrevem o que não querem mais para elas. Por sua vez, os desejos são expressos em outros pequenos papeis, esses são plantados e regados para que cresçam. Nesse fogo também se arremessa algumas ervas especiais, que teriam o poder de trazer as novas energias para o período que inicia. Dentre elas está a verbena, planta típica do mediterrâneo e que dá nome à festa.

Os diversos eventos na Catalunha são sempre comemorados com suas iguarias típicas e, no caso da verbena, não pode faltar a cava– o nosso espumante, que é servida com as típicas cocas de San Joán – um estilo de rosca doce, achatada, que se aproxima de um formato retangular e é coberta com frutas cristalizadas ou piñoles.

Muitos desses parcs de les olors localizam-se longe das praias, mas as águas dos rios, ou as cascatas, também podem servir de pontos de atração para comemorar essa emblemática noite. A experiência que tive foi no hort de la sinia, quetem como diferencial a sua proximidade com as águas, pois o horto fica a beira do rio Gaiá, que despeja suas águas na praia de Tamarit, uma enseada que fica a 500 metros do parque. A proximidade da praia faz com que se possa visualizar do horto uma atração diferenciada: uma fortaleza do século XI, que fica na pequena enseada, à beira mar, e é iluminada todas as noites. O edifício é privado e emblemáticas festas são ali comemoradas.

As várias espécies de plantas cultivadas nesses parques exaltam a magia da verbena. Dentre elas estão as sete ervas mágicas. Elas afloram nesse período e estão relacionadas à festa. No mais, elas têm outro diferencial: são plantas relacionadas à mulher. Faz parte do ritual, para espantar os maus agouros, colhê-las antes do por do sol nesse dia. Uma parte é atirada na fogueira, e outra é reservada para ser organizada em buquês – que ornamentam as casas ou servem para presentear os amigos.  

Dentre as sete ervas mágicas está a verbena, que tida como afrodisíaca é considerada sagrada desde a época dos romanos, quando o templo de Júpiter era purificado por ela. A artemisia está relacionada à Deusa Diana- aquela que assistia o parto. Além de favorecer a normalização do ciclo menstrual, ela facilita a digestão e normaliza a função da vesícula biliar. A lavanda é outra dentre as sete, e tem o poder de afastar as feridas da alma e os maus espíritos. Ela atua como antisséptico, analgésico, calmante, relaxante muscular, além de trazer outros benefícios. O hipericon faz parte do conjunto, e para os gregos era a planta que curava o mal de amor. Hoje se sabe de seus poderes para equilibrar o sistema nervoso e ela é usada, inclusive, para o tratamento de depressão. O alecrim também está entre as sete, e sua representação vem de longos tempos. Seus ramos eram postos nas tumbas dos faraós egípcios para que a viagem que fizessem, até o mundo dos mortos, fosse perfumada. A rainha Isabel, da Hungria, também dá fama à planta, pois ela teria recuperado sua juventude graças ao alecrim, que teria atuado a favor do seu reumatismo. Mas, o alecrim ainda ganha sua fama como uma boa opção para rejuvenescimento, por ser aplicado no tratamento das peles envelhecidas e flácidas.  Além dessas qualidades, o alecrim apresenta uma lista bastante extensa com outros benefícios. A arruda teria o poder para aflorar o dom da inspiração e como benefício medicinal, combate as cólicas abdominais. Por fim, a sálvia, considerada por si a planta das mulheres por estimular a fecundidade, o que hoje se explica, pois ela apresenta um alto índice de estrogênio.

Esses parques de cheiros, ou a verbena, é uma pequena parte do que é possível ver, cheirar, ouvir, saborear e sentir na Catalunha. Além de Barcelona, essa terra mantém significativos recantos, memoráveis, e que afloram os vários sentidos dos que estão dispostos a apreciá-los.


Cynthia Luderer é doutora e mestra em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP  e ancora seus interesses nos temas culturais que tangenciem o consumo em torno do espetáculo midiático da alimentação contemporânea, entre eles os discursos mnêmicos, os da saúde e os da sustentabilidade.