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Para falar do amor

ou sobre Neusa e Vicente, Vicente e Neusa

por Silvia Regina

Eles poderiam ter se amado para o resto da vida, mas não deu. Vicente considerava que já não era capaz de amar e Neusa, ela queria ser amada a toda prova. Sentia que oferecia a Vicente o máximo dessa experiência sentimental, mas para Vicente, na vida nada mais o surpreendia.

Eles foram se desamando, mas houve muito amor. Eles foram se desvalendo, mas houve muito valor, eles foram se desconsiderando, mas houve muita consideração. Todavia, da guerra entre dois amantes eternos, foi se esvaindo a muda troca de mensagens ocas, onde pouco se dizia querendo se dizer tudo.

Um belo dia, após um tempo nem tão longo sem se ver, mas depois de muita experiência com o abandono e a desilusão, na tentativa do desapego, já da falta que se faziam, como dois paulistanos, eles se reencontraram por acaso; e na fundura da dobra da Barra, se olharam longamente, apreciando os detalhes que só quem nunca viu seria capaz de observar. Ficaram admirados por não serem mais os mesmos refletidos nas expressões um do outro, talvez esperassem reencontrar aquele momento, breve e tresloucado, em que tudo era possível, firmado bem ali, diante de si mesmos, postos em experiência novamente. Ficaram à espera da palavra proferida pela boca que esperava ser beijada. Mas nem a saudação, o desvario ou a sandice que colocaria tudo no lugar, escapou pelos lábios dos perturbados pensamentos. Nada foi dito em longos segundos de espera e contemplação.

Respiraram o ar da desgraceira que a vida tinha se tornado pela última vez, alargando as narinas e deixando que a dor se consumisse com o esgotamento do ar de seus pulmões. Tiveram seus penúltimos pensamentos de solidão e se abriram um sorriso largo, exibindo novamente numa mescla de alegria e desejo os dentes que os morderam inequivocamente, em momentos de extrema honestidade. E tão sinceros como foram em outros tempos se questionaram simultaneamente: – Tudo bem? – e riram, deixando de lado a frustração de não conseguirem ser quem o outro sonhou, mas permitindo, um ao outro, a chance única, feliz e prazerosa de ser quem quer que fossem, sendo simplesmente amados por isso.

Os últimos pensamentos de solidão acontecem sempre quando um tem que ir e o outro ficar. Mas isso é coisa do dia a dia, eles trabalham muito, faz parte do cotidiano e do estado de conjunção de Vicente e Neusa, Neusa e Vicente.

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