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No escurinho do cinema

Por que o cinema continua sendo tão bom?

 

Por Silvia Regina

 

Qual a magia que nos mantém no escuro do cinema com toda aquela gente estranha e, muitas vezes, barulhenta? A presença do outro faz parte do gosto pela grande tela? A grande tela faz parte do gosto pela arte cinematográfica? Pensar sobre essas questões in loco envolve o gasto de aproximadamente trinta Reais por pessoa e nos põe um questionamento ainda mais inquietante: – vale a pena?

A última campanha dos canais Telecine nos faz pensar que vale muito estar diante de toda a mágica da projeção que permite a cada um o transportar para o que jamais se será. Lindas vinhetas transmitidas nos intervalos dos canais de filmes, com a narração sensível de Juca de Oliveira, nos falam do gosto pelo cinema e da importância que essa experimentação tem na vida do humano jovem ou idoso, antenado ou desencanado, triste ou feliz.

Agentes secretos, mocinhas chorosas, super-heróis, bandidos, gente que dá a volta por cima, estão todos ali prontos a se tornar um pouco de nós e nos fazer um pouco do que eles são. Tudo pode ser no contato com aqueles que tudo podem. E no cinema o improvável faz questão de acontecer, tudo é possível.

O que nos faz pensar: – e na vida, também não é?

Um bom filme é crível, promove catarse, identificação com algum dos personagens em cena, nos faz rir, chorar, pensar sobre nossa conduta, mesmo em um questionamento que em nada tem a ver com a realidade da vida que levamos. Jamais roubaríamos um banco, mas é bom estar na pele daquele bandido cheio de charme e glamour que rouba as joias da coroa com toda a inteligência e a astúcia que somente os mais brilhantes gatunos do cinema poderiam ter.

Já desejou com todas as suas fortes e falta de pudores a morte de alguém? Diante da “película” isso acontece tão naturalmente quanto comer pipoca vendo filme de terror e sangue. Somos réu e juiz de um processo que nos faz transitar entre a verdade e a mentira, isentos de culpa ou dano.

Diante de um filme, que liberta nossas emoções e, no escuro do cinema, onde ninguém pode nos ver, mesmo quando sabemos que há uma plateia inteira com essa possibilidade, nos aproximamos muito de nossa verdade mais íntima. Deixamos transbordar as nossas mais primitivas sensações quando nos colocamos à disposição das coisas do mundo apresentado aos nossos olhos e ouvidos.

Estamos lá, não cá. No cinema nossa realidade é outra e por isso a magia acontece. Somos o outro sem deixar de sermos nós mesmos. Somos aquele que não víamos desde a última sessão. Somos alguém que nunca havíamos conhecido antes. A interação com as possibilidades da existência apequenada muda completamente no ambiente preparado para exibição de um filme. Por isso, estar no cinema é tão favorável. Por isso, assistir um filme é tão favorável.

Em casa, em frente às cada vez mais poderosas TVs da realidade atual, a atmosfera pode ser recriada facilmente. Porque, apesar de não termos os mesmos aparatos nem a presença da multidão, a questão do transporte da individualidade se remonta, também poderemos recriar a situação de não sermos vistos, e as emoções afloram notavelmente com isso. Basta que o filme seja bom e realmente estejamos à sua disposição.

O cinema assim com as outras seis sete artes serve para isso, mudar a nossa realidade mesmo que por poucas horas, nos fazendo esquecer, brevemente, que estamos condenados a ela.

Vá ao cinema – campanha dos canais Telecine com narração de Juca de Oliveira

 

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