Os nossos desvios de caráter

À esquerda – foto: AE – (Agredido) – Jovem L.A., 23 anos, agredido por cinco jovens, na manhã
do domingo (14/11/2010), na Av. Paulista. À direita – foto publicada no Conversa Afiada – (Agressores)
Todos são iguais perante a Lei: uns batem, outros apanham

Os nossos desvios de caráter

Estamos, de acordo com o exibido diariamente na mídia e com o experimentado no vaivém das ruas, vivendo tempos em que a barbárie voltou a ser parte do cotidiano. Parece ser normal ameaçar o outro, provocá-lo, invadir seu espaço físico e moral, apontar o que nele se pensa intolerante, defeituoso ou diferente. Parece estarmos levando uma vida de ataque e defesa, comprometidos com alguma coisa que nos guia para a total perda do tempo que temos para viver e avançar, talvez, evolutivamente.

Apesar de a violência parecer cada vez mais liberada e apreendida como modus vivendi das cidades, grandes ou pequenas, há em meio a ela os que ainda se comovem e se tornam uma subespécie indefesa sob a ótica de uma horda de psicopatas que ocupam os mesmos espaços públicos, podendo estar a um passo de distância do modo como nos vimos pela última vez.

Como, ainda nos tempos atuais, temos que escrever algumas linhas para colocar para fora nossa indignação sobre a desgraça de uma existência pobre do que realmente vale a pena?! Se você se dá ao trabalho de ler este escrito é porque possivelmente ainda se surpreende com as atitudes de uma juventude, por vezes nem tão jovem, que nada mais é além de agressiva e mesquinha. Quero dizer, um sujeito agride outro no passeio público de uma das avenidas mais movimentadas da cidade de São Paulo por ter-se incomodado com seus trejeitos?! Que sociedade é essa da qual, indignados como nós, fazemos parte?!

E antes que você, leitor, acredite que estes pensamentos o levarão para um fechamento do qual nós nos separaremos deles, engana-se. Pois a resposta sobre o desvio de caráter dessa sociedade está em nós, em nosso modo de nos comprometer com todos os dias que amanhecemos da mesma maneira, que nos espantamos e nos amedrontamos com as notícias, e ainda assim nos sentimos impotentes para mudar a próxima “vírgula” de lugar.

A omissão, a aceitação pública de como os casos dessa gravidade são conduzidos, coloca a nós, indignados, em pé de igualdade com qualquer um desses vilões que queimam índios, espancam homossexuais, assassinam mendigos e negros, por se sentirem incomodados. Também são iguais a eles os juízes que os liberam no dia seguinte, os pais que os defendem diante das câmeras e pagam equipes inteiras de advogados, os advogados que aceitam as causas, os prefeitos que preferem investir em arquitetura violenta ao invés de moradia e soluções reais para o problema dos não moradores, ou melhor, dos moradores das ruas, drogados, famintos, marginalizados pela sociedade parideira de monstros.

Em minha mente reviram-se projetos de mudança. E na sua? Será que você como eu é obrigado a pensar em salvar a própria pele ao invés de liderar uma grande revolução? (…)

Possivelmente nos veremos no ponto final da linha seguinte com a mesma inquietação, e completamente passivos, sem mudar uma palavra, quem dirá uma atitude. Talvez pudéssemos, ao menos, continuar denunciando, intimamente, a nossa condição de vida. Assim, continuaríamos indignados e nos manifestando com ais. Quem sabe assim, no caso de a coisa se repetir, hora dessas, diante de nossos olhos chocados, esses ais sejam altos o suficiente para uma providência.