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Oração, magia, xamanismo, bruxaria

O mês de novembro chegou

 

Outubro foi e é, sempre, mês de festividades religiosas e também profanas. No dia 12 de outubro a cidade de Aparecida do Norte, em São Paulo, recebeu milhares de peregrinos (como acontece todos os anos) vindos de todos os lugares do país, para a romaria de Nossa Senhora Aparecida.

Em Belém do Pará, a procissão do Círio de Nazaré, que é realizada sempre no segundo domingo de outubro, é a maior peregrinação religiosa do Brasil e também atrai romeiros do mundo todo. Além da romaria do domingo, que sai da catedral da Sé e se dirige à Basílica de Nazaré, há (nos dias anteriores) a romaria fluvial, a romaria de ciclistas, a de motociclistas, a romaria das crianças, a trasladação e o auto do círio, uma festa profana realizada pelos artistas da cidade, em homenagem à padroeira dos paraenses, Nossa Senhora de Nazaré.

Termina outubro, começa novembro e as orações ainda continuam (veja-se o dia de finados (02), o dia nacional de ação de graças (23) e o dia mundial de ação de graças (28). Mas o mês de novembro é marcado também por encantamentos, magias e bruxarias. Em outras regiões, desde a Europa, passando pela América do Norte, até chegar ao Brasil, festeja-se o ‘Halloween’.

“O Halloween, conhecido no Brasil como o “Dia das Bruxas’, é comemorado na noite de 31 de outubro. No aspecto religioso, essa ocasião é conhecida como a vigília da Festa de Todos os Santos, no dia 1º de novembro. Estudiosos de folclore acreditam que os costumes populares do Halloween exibem traços do Festival da Colheita, realizado pelos romanos em honra à Pamona (deusa das frutas), e também do Festival Druída de Samhain (Senhor da Morte e Príncipe das Trevas). De acordo com a crença, Samhain reunia as almas dos que tinham morrido durante o ano para levá-los ao céu dos Druídas, nesse exato dia. Para os Druídas, Samhain era o fim do verão e o Festival dos Mortos. O dia 31 de outubro marca também o término do ano céltico. No período pré-cristão, acreditava-se que os espíritos dos mortos voltavam para visitar seus parentes à procura de calor e provisões, pois o inverno aproximava-se e, junto a ele, o reinado do Príncipe das Trevas. Os Druídas invocavam forças sobrenaturais para acalmar os espíritos maus”. Fonte: http://www.velhosamigos.com.br/DatasEspeciais/diabruxa1.html

Há, decerto, uma infinidade de textos da literatura oral e da cultura popular, que expressam encantamentos, magias e orações, ligadas a fórmulas e rituais mágicos, exorcismos e até esconjuros. São textos que, por terem componentes comuns, se reestruturam continuamente e vão passando do oral ao escrito, do popular ao culto, mas retornam sempre à oralidade.

Saindo do sacro e entrando no profano, sabe-se que a população brasileira perpassa os diferentes rituais, que misturam várias tendências. Ao mesmo tempo em que se sabe do encantamento pelo ritual católico (o uso de incensos, velas, cálice e vinho), percebe-se, também, um encantamento por rituais de “fundo de quintal”: os terreiros de umbanda e muitos outros. Neste caso, rituais religiosos e/ou de magia, que contém códigos de linguagem específicos, porém, contaminados por estruturas externas. Nestes eventos, estão presentes elementos múltiplos de proximidade e diferença, que geram cruzamentos que contém ramificações arcaizantes das vidas primitivas, re-atualizadas no presente.

 

O XAMANISMO

Tais experiências justificam a força mágico-religiosa do xamanismo,
que, para Mircea Eliade (2002): “transitando por um conjunto de crenças ancestrais, é uma das mais antigas práticas espirituais, filosóficas e religiosas da humanidade”. No Brasil, as práticas xamânicas se fundem com os rituais católicos, com os de umbanda e ainda outras religiões que se mesclaram à crenças de povos africanos.

Mircea Eliade esclarece que, é quase certo, que pelo menos parte das crenças mágico-religiosas da humanidade pré-lítica se tenha conservado nas concepções religiosas e mitológicas ulteriores:

Evidentemente, cada religião que, após longos processos de transformação interna acaba por constituir-se numa estrutura autônoma, apresenta uma “forma” que lhe é própria e que passa como tal para a história posterior da humanidade. Mas nenhuma religião é inteiramente “nova”, nenhuma mensagem religiosa elimina completamente o passado; trata-se antes, de reorganização, renovação, revalorização, integração de elementos – e dos mais essenciais – de uma tradição religiosa imemorial (ELIADE, 2002: 24).

Os Xamãs são seres dotados de poderes sobrenaturais. No Brasil, os pajés são considerados “xamãs” e tem a capacidade de operar milagres, realizar curas e prever problemas futuros, reforçando e reelaborando assim, os mitos de sua tradição.

Nas narrativas indígenas, como lembra Claude Lévi Strauss (1966), em “Tristes
Trópicos“,
alguns seres humanos não pertencem inteiramente ao universo físico nem ao mundo social, mas seu papel, na verdade, é estabelecer uma mediação entre os dois reinos. Segundo ele, esses seres, cujo ‘efetivo’ aumenta regularmente com as almas dos finados feiticeiros, são responsáveis pela marcha dos astros, do vento, da chuva, da doença e da morte. Ao falar do bari, o “chefe” da tribo no idioma bororo, ele exemplifica:

O bari é um personagem a-social. A ligação que o une a um ou vários espíritos lhe confere privilégios: ajuda sobrenatural quando parte para uma caçada solitária, poder de se transformar em bicho e o conhecimento das doenças, assim como dons proféticos (STRAUSS, 1996: 221)

 

O uso do tambor, como explica Mircea Eliade, teórico das religiões, desempenha também um papel de primeira ordem nas cerimônias xamânicas: “seu simbolismo é complexo, suas funções mágicas são múltiplas. É indispensável ao desenrolar da sessão, seja por levar o xamã para o “centro do mundo”, por permitir que ele voe pelos ares, por chamar e aprisionar os espíritos, seja, enfim, porque a tamborilada permite que o xamã se concentre e restabeleça contato com o mundo espiritual que está prestes a percorrer” (ELIADE, 2002).

 

PAJELANÇA NA AMAZÔNIA

Conta-se, na Amazônia, que uma vela acesa dentro da cuia no rio é um hábito ribeirinho de pajelança, para descobrir o corpo de alguém que se afogou. E falando em vela acesa, há a “simpatia” realizada sempre nas festas juninas, que, ao pingar a cera da vela na água, dentro de uma vasilha, pode-ser ver a inicial do nome da pessoa amada. Trata-se de outro tipo de vidência, que faz parte do universo mítico amazônico.

Conta-se, também, que “não mãe-do-rio não vai embora com as tuas águas” é uma cantiga de domínio público, mas que, ao mesmo tempo, pode também ser uma oração dos povos ribeirinhos. Neste caso, eles estariam pedindo proteção à “alma dos rios”, para que esta não os abandonem à própria sorte.

Diz-se que “aluar” tem a ver com enlouquecimento, relativo à influência da lua sobre a mente e o comportamento de algumas pessoas; diz-se também, que a ‘noite’ que sai do tucumã (uma fruta regional), é uma lenda sobre o surgimento da noite, na Amazônia. A floresta está, portanto, constantemente ‘prenhe’ de acontecimentos e magias.

Há também uma referência a outra crença amazônica de que a introdução de um pedaço do rabo do “puraqué” (um peixe da região) no punho, confere força descomunal ao indivíduo. O escritor e compositor paraense Walter Freitas acredita que esta tenha sido uma crença generalizada no século passado, mas já meio em esquecimento nos tempos atuais.

Na linguagem cabocla, o “quebranto” significa “mau olhado”. Freitas fala a respeito.

É a ação, intencional ou não, de quebrantar a saúde de alguém, principalmente as crianças, por meio de um simples olhar ou através até de comentários elogiosos em relação à pessoa. Já li em livros de ocultismo que parece ser uma prática de magia negra, muitas vezes involutária, praticada em qualquer parte do mundo.

Walter Freitas, Janeiro de 2008.

 

MAGIA E BRUXARIA (Ouça a Oração da Cabra Preta musicada por Walter freitas)

É comum nesta região, a utilização de malefícios atribuídos a demônios, aquilo que Freitas chama de encantamentos, ‘incantarias’, possibilidades e necessidades de ‘sobrevivência’. Um exemplo disso é a ‘Oração da Cabra Preta’, que o compositor paraense apostou em sonorizar, por ter gostado da surpresa do texto, do formato direto e claro, da “desmistificação do teor das relações entre pessoas em determinados momentos e da proximidade entre amor e ódio, paixão e crueldade”. (FREITAS, 2008). Freitas ainda nos diz que acredita nesta relação do poder das trevas pela cor, de volteio com a calada da noite, onde esses rituais se processam, “da mesma forma que a pomba branca se liga a sentimentos e atitudes contrárias”. (FREITAS, 2008).

No “Livro de São Cipriano“, onde é narrada a estória do santo-bruxo, estão contidas preces mágicas, preces para solução de encantamentos, para caçar demônios, para evitar mau-olhado, enfeitiçamentos, maus sonhos e outros tipos de orações. E é neste livro que está também a legítima “Oração da Cabra Preta Milagrosa“, aquela que aponta para as “forças demoníacas” e que é citada por Câmara Cascudo, segundo nos fala Jerusa Pires, em “O livro de São Cipriano, uma Legenda de Massas“, como o “credo às avessas”. Ela diz que:

Este credo às avessas nos deixa sempre aturdidos, senão em crença, pelo menos em lógica. A soma de absurdos a que se refere Câmara Cascudo, jogos, fórmulas comuns cheias de sigilos e alusões obscuras que todos julgam de efeito fulminante, às vezes, e de fato, terminam mesmo sendo, até pelo estado de desordem que traz esta oração ao voltar o mundo de ponta-cabeça. (FERREIRA, 1992: 72).

 

Na versão colhida por Artur Ramos
(1942),
Jerusa Pires relata que é feita uma simplificação do texto. Para efeito de apresentação visual, ela lembra um cartãozinho de missa de sétimo dia. E acrescenta: “aí há o empobrecimento da oralidade para aproveitamento da imagem e para vender melhor o produto”. (FERREIRA, 1992). Reza-se essa oração com uma vela acesa e uma faca de ponta nas mãos, trocando “fulano” pelo nome da pessoa para quem se reza a oração. Esta oração pode ser usada tanto para fazer o mal, como para fazer o bem para a pessoa. Tudo depende das intenções de quem reza a oração:

Cabra Preta milagrosa que pelo monte subiu, trazei-me fulano, que de minha mão sumiu. Fulano, assim como o galo canta, o burro rincha, o sino toca e a cabra berra. Assim tu hás de andar atrás de mim. Assim como Caifaz, Satanás, Ferrabraz e o Maioral do inferno que fazem todos se dominar, fazei fulano se dominar, para me trazer cordeiro, preso debaixo de meu pé esquerdo. Fulano, dinheiro na tua e na minha mão não há de faltar, com sede tu nem eu haveremos de acabar, de tiro e faca nem tu nem eu não há de nos pegar, meus inimigos não hão de me enxergar. A luta vencerei com os poderes da Cabra Preta milagrosa. Fulano, com dois eu te vejo, com três eu te prendo com Caifaz, Satanás, Ferrabraz

Oração da Cabra Preta Milagrosa.

 

A autora nos lembra que além do credo às avessas, esta oração mistura em seu universo muitas outras coisas, como o diabo e a Santa Justina, o que faz dela não apenas uma oração terrível, mas “consegue passar um processo que é de todos o mais causador de perplexidade, o da negação do sagrado”. (FERREIRA, 1992).

Em “O Livro de São Cipriano, Uma Legenda de Massas“, Jerusa Pires Ferreira nos fala que tais orações sempre aparecem, cada uma a seu modo, como formas de mediação e de realização da fala, ou seja, que em todas elas está “o exercício da linguagem, a ocasião para exercer o verbo como meio de ação”. (FERREIRA, 1992). Para ela, são textos que trazem importantes informações, além de grande força poética:

Vejo que a sobrevivência de antigas palavras na estabilidade da linguagem ritual, formando uma espécie de acronia, é também responsável pela atualização dos discursos que performam estes rituais, a senha de resistência que se consegue passar no universo tão perseguido das religiões populares. (FERREIRA, 1992: 71).

 

O poeta paraense Bruno de Menezes recolheu a “Oração da Cabra Preta Milagrosa“, do livro de São Cipriano e a incluiu em um de seus poemas: este, que apresento aqui para o leitor, e que pode ser encontrado no CD “Tuyabaé Cuaá”, musicado pelo compositor
paraense
Walter Freitas. A versão ficou assim:

 

Oração da Cabra Preta (Letra: Bruno de Menezes – Música: Walter Freitas – Oração de domínio público)

Minha Santa Catarina / vou embaixo daquele enforcado / vou tirar um pedaço de corda / pra prender a cabra preta / pra tirar três litros de leite / pra fazer três queijos / e dividir em quatro pedaços / um pedaço pra caifaz / um pedaço pra satanás / um pedaço pra ferrabraz / um pedaço pra sua infância (sua infância é a mulata) / turumbamba no campo / trinco fecha trinco abre / cachorro preto late / gato preto mia / cobra preta anda / galo preto já cantou / assim como trinco fecha trinco abre / quero que o coração dessa desgaraçada / é a mulata é a mulata / não tenha mais sossego / enquanto ela não for minha / quero que ela fique cheia de coceiras / pra não gozar nem ser feliz / com outro homem que não seja eu …/

 

O estranhamento, para Walter Freitas, é algo em que aposta muito e gosta, para o seu trabalho. E esclarece que a Oração da Cabra Preta, este poema de Bruno de Menezes que ele musicou, tem um ‘pé bem estendido’ para cima da escala árabe, que é uma escala que usou muito em várias de suas composições, como ponto de partida ou de chegada. Ele nos fala desse processo criativo:

Eu fiz algumas pequenas interferências na oração, na hora de musicar, mas não se aplica a essa música aquela lógica de a letra estar sendo alterada pela música, porque minha intenção era preservar o texto e todas as suas intenções, pelo fato de ser de autor desconhecido e não estar ali pra discutir comigo, essas coisas. E também em respeito ao trabalho anterior do Bruno de Menezes. Então estabeleci essas metas de trabalho, a escala e as modulações, mas fui me deixando conduzir pela dinâmica do texto. Formulei as coincidências rítmicas, métrica de versificação, para encontrar possibilidades de retorno melódico, mas eram muito poucas (à exceção do pequeno trecho “turumbamba no campo”, no qual ainda tive de usar uma leve interferência, para não deixar escapar a necessidade de retorno melódico, como uma espécie de âncora temática da melodia). E me entreguei a esse desafio de fazer uma música contínua, baseada na rítmica e na sonoridade do texto (só que, a partir daquelas premissas lá, da escala e das modulações.

Walter Freitas, Janeiro de 2008.

 

A Cabra Preta Milagrosa é uma oração de magia negra que reúne ações, atitudes, desígnios malévolos ligados tradicionalmente às trevas. Freitas nos diz que “Turumbamba no campo” significa a contenda entre o amor e o ódio a que se refere todo o poema. A disputa entre as forças opostas na tentativa de conseguir o amor da mulher. Ainda que por artes de magia. Segundo Jerusa Pires Ferreira, a versão original que está no Livro de São Cipriano, é uma das publicações mais atuantes que alimenta a vida popular brasileira, em suas práticas e imaginações. E afirma:

Percebemos claramente que estamos transitando num mesmo universo: um mundo impregnado de mistério, fantasia e maldição, que passa sucessivamente por oralidade e escritura, um submundo a ser castigado ou abafado, a pactuação que pretende desafiar a eternidade, compensar as agruras desta vida, suas impossibilidades e impotências. (FERREIRA, 1992: 16).

 

 

 

REFERÊNCIAS

ELIADE, Mircea. O Xamanismo e as Técnicas Arcaicas do Êxtase. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

FERREIRA, Jerusa Pires. O Livro de São Cipriano: Uma Legenda de Massas. São Paulo, Editora Perspectiva, 1992.

LEVI STRAUSS, Claude. Tristes Trópicos – Tradução Rosa Freire d’Aguiar, São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

RAMOS, Arthur. Transcrição da Oração da Cabra Preta Milagrosa, in: Aculturação Negra no Brasil. São Paulo, Cia. Ed. Nacional, 1942.

OUTRAS REFERÊNCIAS

Entrevista com Walter Freitas, em janeiro de 2008, no Instituto de Artes do Pará – IAP.

 

Sobre a autora

Marlise Borges é jornalista, musicista, arte-educadora, mestre e doutoranda em Comunicação e Semiótica, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP.

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