Escapatórias: Aromas para temperar a vida

Seus sentidos em ligação e movimento a partir do olfato

Por Silvia Regina

Aniz Estrelado: se o céu tivesse um cheiro, poderia ser esse.

Os odores fazem parte de nosso cotidiano e este fato é tão comum que deixa de ser notado. Do despertar ao dormir são muitos os cheiros sentidos, mas quais são realmente escolhidos por nós? Quais são impostos pelos lugares em que estamos ou pelas pessoas que nos cercam?

A rejeição e a aceitação do que nos chega ao olfato depende de nossa formação de gosto. Contudo, não há como repelir o cheiro assim como não há possibilidade de deixar de ver as cenas que se dispõem em nosso horizonte.

De certo, sempre é possível tampar o nariz e fechar os olhos, porém, tais atitudes viriam somente depois de cheirar ou ver. Nosso cérebro já teria feito o julgamento de bom ou mau, e nós, já teríamos sofrido a imposição do que talvez não quiséssemos presenciar.

Como nem tudo é imposto, nos cercamos dos odores preferenciais, apreciados durante nossos dias. Um amigo disse, certa vez, que adorava a hora de dormir por conta do cheiro de suas fronhas, borrifadas com águas perfumadas. Particularmente, acredito que a noite dos lençóis limpos deveria ser comemorada semanalmente ou a cada troca das roupas de cama.

Os cheiros que envolvem nossos corpos, impregnados nas roupas, perfumaduras do físico ou dos ambientes, vão dos ervais aos comestíveis. Cabelos e pele podem cheirar a madeiras perfumadas da Amazônia ou a chantili com chocolate. Depende do que você deseja no momento: quer transportar(-se) ao selvagem ou à mesa de uma cozinha doce?

Porque, sim, aparentemente os aromas nos transportam para sensações mentais ou físicas. A ideia que fazemos de nós ou das coisas muda de acordo com os cheiros que sentimos. A partir de um cheiro podemos entender sabores, conhecimentos táteis, experimentações de lugares e situações. Tudo sinestesicamente, claro.

Na cozinha, doce ou salgada, toda a monotonia pode ser quebrada com um aroma inesperado. Semana passada, o sociólogo Carlos Dória e a historiadora Wanessa Asfora discorreram sobre o assunto do temperar, em palestra intitulada “Tempero – temperança e têmpera: a culinária como promotora de estados de espírito e estados físicos”, pontuada por deliciosas degustações, repletas de propostas aromáticas e, talvez, por consequência, sápidas. Tais momentos experimentais trouxeram a reflexão sobre a tal da têmpera, o ato ou efeito de temperar, o que me carregou para muito além do prato.

Se incluir aromas é, em alguma medida, doar temperamento, seu efeito significativo está muito além de qualquer justificativa do desejo de consumo ou da cultura atendida industrialmente. A experiência humana de aromatizar, dar nuances modificadoras em busca de prazeres nas percepções do mundo natural, parecem falar a favor daquilo que permeia nossas mentes, almas, animas, secretismos ou seja lá o que for que tenhamos (ou sejamos).

Assim como seria tedioso o sabor do feijão fresco sem as eventuais folhas de louro ou outro condimento escolhido, talvez seja tedioso não trazermos em nós um cheiro que nos caracterize. Não meramente às narinas alheias, mas às nossas próprias.

Talvez queiramos mais do que cheirar a chocolate quando tratamos dos cabelos com cremes que supostamente trazem a maciez da manteiga de cacau, ou ainda, quando melhoramos o ressecamento da pele com um hidratante cheirando a coco ou um óleo pós-banho, à canela e pimenta rosa. A tentativa seria de moldar a si mesmo em algo bom, melhor do que aparenta ser.

Um lugar que cheira bem é um lugar mais gostoso de estar. Uma receita com um bom aroma fica mais apetitosa, mesmo que visualmente nem seja tão bela. Por que uma pessoa perfumada com alecrim e menta não carregaria consigo algo de refrescante? Por que o perfume de rosas atrás das orelhas não daria um aspecto mais romântico a uma personalidade?

Talvez não sejamos nós a fazer uso dos aromas para dar temperamento a coisas, situações e pessoas, mas o inverso. Afinal, nossas escolhas aromáticas dominam nossos espaços e acabam temperando e, com isso, evidenciando aquilo que fala de nós, para os outros e para nós mesmos.

Sobre a autora

Silvia Regina de Jesus é doutoranda e mestra em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, graduada em Comunicação Social com ênfase em publicidade e propaganda e jornalista por opção. Além disso, é editora de Gostonomia, escrevendo contos e reflexões sobre gosto: a capacidade de apreensão apreciativa da gente e das coisas. É autora de A sensibilidade inteligível do chocolate: uma análise do fazer estésico apreendido, cultivado e comunicado, dissertação encontrada em: Domínio Público.gov.br.[ http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=167688] / editoria@gostonomia.com.br