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Indigestas: Vida, morte e renovação

Vida, morte e renovação

Reflexões sobre uma existência sem roteiro

por Silvia Regina

Estava pensando sobre a possibilidade de seguir em frente sem planos e, acredito que esta seria uma capacidade de viver e morrer várias vezes, dando ao morto, em vida, a possibilidade de uma regeneração renovadora, quando, a cada uma das suas mortes, ele se tornasse capaz de se reinventar.

O humano não nasce com um objetivo, nasce à deriva, mas vive o constante desejo de controlar o dia seguinte, quando mal consegue dar conta dos acontecimentos do dia presente. Há pouco, ouvi dizer que alguns de meus temores não eram reais, os tais seriam apenas possibilidades de uma vida que ainda não se apresentara. Acontecimentos vivos somente na imaginação dos piores cenários que, nem deram pista de se tornarem realidade. Em suma: porque preocupar-se hoje com uma fatalidade que talvez nem ocorra amanhã?

Viver tentando controlar o futuro, portanto, transformaria o amanhã em um museu de preocupações a partir de demandas que, no agora, simplesmente não existem. Esta condição sincrônica dos modos de viver reduz o humano a pouco ou nada, pois o tempo das experimentações pessoais é usado a serviço de alguém, um outro que capitaliza o ser e o fazer alheios, a seu favor.

Se o fato não parece ter solução nos tempos atuais, assim como não foi possível outrora, por que considerar este recorte da inutilidade de muitas das experiências de vida? Porque é preciso tentar uma vida sem roteiros, sem as destinações de outro sujeito.

Mas esta coisa de experimentar-se não tem a ver com individualismos egocêntricos e, sim, com dar a si uma oportunidade de provar da sua própria vontade, de seu próprio gosto, de viver e morrer para renovar-se. Neste período de vida, não parece haver verdadeiros propósitos coletivos. Cada um inventa uma cenoura e ser atrelada diante dos olhos para continuar seguindo em frente, aceitando e empenhando-se nos propósitos alheios que, sugerem como recompensa um futuro melhor, coisa que não deve ser alcançada jamais. Exceto se um vento de sorte empurrar a cenoura contra a cara do cavalo, permitindo que seja alcançada.

Falar em sorte pressupõe descontrole. E descontrole sugere a ausência absoluta de roteiro. O imprevisível acontece a sós ou em convívio social, adaptar-se significa experimentar o que se é por seus particulares modos de sentir. Abandonar-se aos desmandos do outro seria jogar fora tal possibilidade. Se o sentido de morte ocorre é preciso buscar uma fonte que contribua para a renovação. Uma nova tentativa de vida é sempre possível para quem vive de morrer tentando.

Sobre a autora

Silvia Regina de Jesus é doutoranda e mestra em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, comunicadora publicitária, de formação e,  jornalista, por opção. Atualmente, é editora das revistas eletrônicas Gostonomia e Nexi, publicação acadêmica da PUC-SP. Neste espaço, seus escritos são sobre gosto: a capacidade de apreensão apreciativa da gente e das coisas, podendo variar entre ensaios, contos ou pensamentos. É autora da dissertação: A sensibilidade inteligível do chocolate: uma análise do fazer estésico apreendido, cultivado e comunicado, que pode ser encontrada em: Domínio Público.gov.br.[ http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=167688]

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